Thursday, September 23, 2010

A felicidade nas telas

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A necessidade de mostrar ao mundo um semblante feliz é uma das grandes fontes de infelicidade
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UMA AMIGA inventou um jeito de curtir sua fossa. Depois de um dia de trabalho, de volta em casa, ela se enfia na cama, abre seu laptop e entra no Facebook.
Ela não procura amigos e conhecidos para aliviar o clima solitário e deprê do fim do dia. Essa talvez tenha sido a intenção nas primeiras vezes, mas, hoje, experiência feita, ela entra no Facebook, à noite, como disse, para curtir sua fossa. De que forma?
Acontece que, visitando as páginas de amigos e conhecidos, ela descobre que todos estão muito bem: namorando (finalmente), prestes a se casar, renovando o apartamento que sempre desejaram remodelar, comprando a casa de praia que tanto queriam, conseguindo a bolsa para passar dois anos no exterior, sendo promovidos no emprego ou encontrando um novo "job" fantasticamente interessante. E todos vivem essas bem-aventuranças circundados de amigos maravilhosos, afetuosos, alegres, festeiros e sempre presentes, como aparece nas fotografias postadas.
Minha amiga, em suma, sente-se excluída da felicidade geral da nação facebookiana: só ela não foi promovida, não encontrou um namorado fabuloso, não mudou de casa, não ganhou nesta rodada da loto. É mesmo um bom jeito de aprofundar e curtir a fossa: a sensação de um privilégio negativo, pelo qual nós seríamos os únicos a sofrer, enquanto o resto do mundo se diverte.
Numa dessas noites de fossa e curtição, minha amiga, ao voltar para sua própria página no Facebook, deu-se conta de que a página não era diferente das outras. Ou seja, quem a visitasse acharia que minha amiga estava numa época de grandes realizações e contentamentos. Ela comentou: "As fotos das minhas férias, por exemplo, esbanjam alegria; elas não passaram por nenhum photoshop, acontece que são três ou quatro fotos "felizes" entre as mais de 500 que eu tirei".
Logo nestes dias, acabei de ler "Perché Siamo Infelici" (porque somos infelizes, Einaudi 2010, organizado por P. Crepet). São seis textos de psiquiatras e psicanalistas (e um de um geneticista), tentando nos explicar "por que somos infelizes" e, em muitos casos, por que não deveríamos nos queixar disso.
Por exemplo, a infelicidade é uma das motivações essenciais; sem ela nos empurrando, provavelmente, ficaríamos parados no tempo, no espaço e na vida. Ou ainda, a infelicidade é indissociável da razão e da memória, pois a razão nos repete que a significação de nossa existência só pode ser ilusória e a memória não para de fazer comparações desvantajosas entre o que alcançamos e o que desejávamos inicialmente.
Não faltam no livro trivialidades moralistas sobre o caráter insaciável de nosso desejo ou evocações saudosistas do sossego de algum passado rural. Em matéria de infelicidade, é sempre fácil (e um pouco tolo) culpar a sociedade de consumo e sua propaganda, que viveriam às custas de nossa insatisfação.
Anotei na margem: mas quem disse que a infelicidade é a mesma coisa que a insatisfação? E se a infelicidade fosse, ao contrário, o efeito de uma saciedade muito grande, capaz de estancar nosso desejo? Que tal se a infelicidade não tivesse nada a ver com a ansiedade das buscas frustradas, mas fosse uma espécie de preguiça do desejo, mais parecida com o tédio de viver do que com a falta de gratificação? Em suma, você é infeliz porque ainda não conseguiu tudo o que você queria, ou porque parou de querer, e isso torna a vida muito chata?
Seja como for, lendo o livro e me lembrando da fossa de minha amiga no Facebook, ocorreu-me que talvez uma das fontes da infelicidade seja a necessidade de parecermos felizes. Por que precisaríamos mostrar ao mundo uma cara (ou uma careta) de felicidade?
1) A felicidade dá status, como a riqueza. Por isso, os sinais aparentes de felicidade podem ser mais relevantes do que a íntima sensação de bem-estar;
2) além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.
O resultado dessa necessidade de parecermos felizes é que a felicidade é este paradoxo: uma grande impostura da qual receamos não fazer parte e que, por isso mesmo, não conseguimos denunciar.


Contardo Calligaris

Monday, September 20, 2010

Angústia

Que me toma
Cola
Transforma o meu olhar
Entorta o meu caminhar
Me faz respirar curto
Temer a vida, a falta dela, o mundo,
Dele me apartando
Para logo depois nele me recolocar
Com a mesma força , sem se dissipar ...

Angústia
Que aperta o meu coração
Me desconcentra
Me apequena
Na busca de um porto seguro... angústia...

Cecília

19-09-10

Sunday, September 12, 2010

A vida e a história

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Foi então que um colega, também tresnoitado, olhou pela janela e viu um enorme abacate pendurado
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É O FINAL de um dos romances de Émile Zola, "A Fecundidade". Ao terminar o gigantesco projeto dos Rougon-Macquart ("História Natural e Social de uma Família sob o Segundo Império"), Zola escreveria o que chamou de seus quatro evangelhos: a fecundidade, o trabalho, a justiça e a verdade. O primeiro deles termina com o grito de uma jovem camponesa varando a tarde e o campo: "A vaca pariu um bezerro!"
Felizmente -digo eu, que não sou camponês nem pertenço a nenhuma família sob o segundo ou qualquer outro império. No romance de Zola, o grito da camponesa começa, encerra e sublima a maravilhosa rotina do viver, a terra parindo seus frutos e os habitantes da terra parindo seus filhos. Inclusive as vacas.
A garantia dessa rotina, afinal, é o que nos salva. Lembro uma de nossas crises políticas, das mais "brabas", a que provocou o suicídio de Getulio Vargas em 1954. Eu trabalhava então num jornal aqui do Rio de Janeiro e passara duas noites sem ir para casa, sem fazer barba, sem mudar de roupa. Substituía em certas horas o repórter destacado para cobrir a crise dentro do próprio palácio.
O mundo parecia ter vindo abaixo. Na altura do terceiro dia de vigília, caí numa poltrona das mais anônimas e modestas do Palácio do Catete. Ali tirava alguns cochilos, interrompidos por novidades sempre dramáticas.
Curioso: durante aqueles dias e noites, enquanto ninguém poderia prever o desfecho, surgiam dramas paralelos que, embora não confirmados, explodiam entre os jornalistas como novo e incontrolável incêndio: Juarez Távora enforcou-se no apartamento do Brigadeiro Eduardo Gomes! Lutero Vargas foi assassinado por um oficial da Aeronáutica! Lacerda foi sequestrado por operários fieis a Vargas! O marechal Mascarenhas de Moraes morreu de enfarte! Coisas assim.
Bem, na altura do terceiro dia, as emoções iniciavam o longo caminho do retrocesso e tudo ia quase voltando à normalidade de uma crise. Mais boatos do que fatos e todo mundo torcendo por um ou outro lado. Foi então que um colega, também tresnoitado, olhou pela janela e viu um enorme abacate pendurado de seu galho (hoje, não acredito que existam abacateiros nos jardins do Palácio do Catete, mas naquele tempo havia, tenho certeza).
O colega olhou atentamente o abacate, silencioso fruto caindo de seu galho, verde e necessário, feito em silêncio e em trabalho vegetal de sua espécie. De repente, comentou em voz alta:
- Felizmente, tudo continua!
Eu não entendi logo. Na fadiga daqueles dias, o "tudo" para mim era a crise em si, o Brasil atravessando o vendaval. Tão grave era a crise que nada seria como antes e nada mais continuaria. Um apocalipse em plena rua do Catete, com suas lojas de móveis baratos, seus botequins cheios de mosquitos. Foi preciso que eu olhasse na direção da janela e também visse o abacate ali, verde, inchado em sua carne verde-amarelada.
Aquele abacate havia sido apenas uma flor semanas antes, e Vargas provavelmente a olhou com seus olhos periféricos de inseto, soprando a fumaça de seus imensos havanas. Agora, Vargas dera um tiro no peito e a flor tornara-se fruto, e ali estava oferecendo-se à janela e aos nossos olhos vermelhos de sono e doídos de cansaço e estupor.
Sim, tudo continuava, o mundo daria outras voltas, outras crises maiores ou menores viriam, mas os abacates continuariam sendo abacates e Vargas, bem, o que seria Vargas dali a dez, 20 ou dali a 60 anos? Um nome na enciclopédia, nas praças e placas das cidades brasileiras?
Crianças e jovens passariam nessas ruas e nem se incomodariam em saber quem fora Getulio Vargas. Um homem de 71 anos dera um tiro no peito, soldados cercavam o palácio presidencial e eu passara dois dias sem poder ir para casa. Enquanto isso, os abacateiros davam flor e fruto. A vida continuaria. A natureza é arrogante em sua fecundidade, os homens é que são estéreis em sua finitude.
Volto ao romance de Zola. A vaca pariu um bezerro. Um abacate, qualquer abacate, vale mais do que uma crise política. A vida é mais importante do que a história.

CARLOS HEITOR CONY

Friday, August 27, 2010

Visita à casa dos fantasmas

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Não foi para isso que caminharia tanto na vida. Aliás, eu caminhei tanto para não sair do lugar
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APROVEITANDO a tarde chuvosa, decidi dar uma volta. Geralmente, costumo ir à praia, passear pela orla, mas caía uma garoa miúda e irritante, resolvi me embrenhar em outros bairros, distantes bairros de minha infância, que há muitos anos não visito, em parte por preguiça, em parte (ou no todo) por fastio. Peguei o carro e, sem saber o que fazer, fiz o que não devia.
Quando dei por mim, já estava naquele roteiro que inclui algumas ruas do Maracanã, de Vila Isabel, do Cabuçu e do Lins de Vasconcelos, cabeça, tronco e membros da antiga zona norte. Ali, a igreja onde me casei. Numa biografia bastante acidentada, com alguns casamentos incompletos, foi a única convolação de núpcias a que me submeti. Antigamente, os doutos usavam a expressão "convolar núpcias" para designar o casamento.
As recordações que ficaram não são necessariamente boas nem más, mas indiferentes. Foi um outro que convolou núpcias naquela igreja que tem um anjo São Miguel imitado da estátua do mesmo anjo na praça Saint Michel, em Paris: com sua espada de bronze, afasta um demônio de chifres e rabo em forma de seta.
Depois, o apartamento onde morei alguns anos, confortável apartamento com uma boa cobertura, ali minhas filhas brincaram e eu próprio soltei meus últimos balões de São João.
Depois, a rua da primeira escola, no enorme terreno ergueram um imenso hospital da Marinha e eu fugi daquele gigante que abriga os heróis da Armada de Guerra -segundo as palavras gravadas no pórtico "art noveau" do hospital. Penso no nenhum sentido que delas resulta: armada de guerra. Um pleonasmo? Ou apenas uma bobagem?
De repente, dobro uma esquina e esbarro com a casa, milagrosamente intacta: a fachada de pó de pedra está bastante estragada, da última vez que ali estive, dez ou onze anos atrás, o aspecto era menos decadente. Sim, ali está a casa: ali nasceu o Tutuca, numa tarde de domingo, domingo de março, de um ano cada vez mais distante.
As recordações são poucas. Num início de noite, o pai foi àquele portão e apanhou um balão apagado e silencioso que vinha caindo, caindo, alguns moleques se juntaram do lado de fora para tascá-lo com seus varapaus homicidas, mas respeitaram o domínio do dono da casa, o balão é dele. Depois, ainda na época dos balões, o irmão mais velho de pelerine azul marinho por causa do frio de junho, armando sua barraquinha de fogos.
Uma lanterna vermelha avisava que um menino ali vendia fogos -e eu era vidrado no estranho cheiro de pólvora e papel colado que sua barraquinha desprendia. Prometeram-me que eu também teria uma barraquinha igual quando crescesse -eu cresci inutilmente, nunca mereci uma barraquinha daquelas, com a lanterna vermelha acesa no meio da noite, bolas-, não foi para isso que caminharia tanto na vida. Aliás, caminhei tanto para não sair do lugar.
Agora, a casa está meio decomposta pelos anos, dois enormes vira-latas se aproximam, latindo. Quando dão comigo, param de latir, metem os focinhos pelas grades (as mesmas de antigamente) e me fuçam, como que me recebendo, eu, o Tutuca que nasceu naquela casa. Parece que sabem ou adivinham isso e eu me sinto importante -ao menos para os cachorros.
O atual dono da casa vem saber por que os cachorros estão latindo. Não gosta de ver o estranho parado em seu portão. É homem meio gordo, usa camisa de malha branca sem mangas, está suado pela tarde abafada e chuvosa.
Pergunta o que desejo. Tenho vergonha de confessar o motivo que me levara ali, aliás, não tinha nenhum motivo para estar ali. Indago se o cidadão conhece um tal de Tutuca. Não, o homem não conhece Tutuca algum.
Eu insisto, afirmo que o tal Tutuca ali morou, era um garoto bochechudo e palerma. O homem faz uma cara escandalizada e me despacha, dizendo que tem mais o que fazer -eu o invejo, nada tinha para fazer.
Atravessei a rua e peguei o carro. O homem olhou admirado, pois me supunha um pedestre reles e enxerido. E nem adivinhou que o Tutuca nunca saiu daquela casa, aderente àquelas paredes descascadas e inarredável como um fantasma sem futuro.

Carlos Heitor Cony

Thursday, July 15, 2010

Theresa





“Cheguei para arrasar,
derreter corações,
para romper medos, barreiras,
resistências que não se explicam (razões obscuras)
e com meu olhar direto, cativante, demolidor
deixá-lo(a) completamente rendido(a) aos meus encantos”

É isso o que você diz sem palavras complicadas,
sem necessidade de adjetivos,
só olhos nos olhos de quem a contempla hipnotizado,
derretido, tomado por estranha alegria, apaixonado...


Tetê, sereia,
Seu canto é seu olhar que enreda,
arrasta para inconcebíveis profundezas
...mata

Cecília
15-07-10

Saturday, June 12, 2010

Soneto XVII (do livro Cien Sonetos de Amor)

No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y la alma.

Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.

Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo proque no sé amar de otra manera,

sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.

Pablo Neruda

Friday, June 11, 2010

O direito de buscar a felicidade

O ARTIGO SEXTO da Constituição Federal declara que "são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados".
O Movimento Mais Feliz (www.maisfeliz.org) promove uma emenda constitucional pela qual o artigo seria modificado da seguinte forma: "São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde etc." (segue inalterado até o fim).
É claro que, se eu dispuser de casa, emprego, assistência médica, segurança, terei mais tempo e energia para buscar minha felicidade. No entanto o respeito a esses direitos sociais básicos não garante a felicidade de ninguém; como se diz, ter comida e roupa lavada é bom e ajuda, mas não é condição suficiente nem absolutamente necessária para a busca da felicidade.
Em suma, implico um pouco com o adjetivo "essencial" no texto da emenda, mas, fora isso, gosto da iniciativa porque, como a Declaração de Independência dos EUA, ela situa a busca da felicidade como um direito do indivíduo, anterior a todos os direitos sociais.
Por que a busca da felicidade não seria apenas mais um direito social na lista? Simples.
A felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua.
Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros.
Invento e procuro minha versão da felicidade, com apenas um limite: minha busca não pode impedir os outros de procurar a felicidade que eles bem entendem. Por isso, obviamente, por mais que eu pense que isto me faria muito feliz, não posso dirigir bêbado, assaltar bancos ou escutar música alta depois da meia-noite. Por isso também não posso exigir que, para eu ser feliz, todos busquem a mesma felicidade que eu busco.
Por exemplo, você procura ser feliz num casamento indissolúvel diante de Deus e dos homens. A sociedade deve permitir que você se case, na sua igreja, e nunca se divorcie. Mas, se, para ser feliz, você exigir que todos os casamentos sejam indissolúveis, você não será fundamentalmente diferente de quem, para ser feliz, quer estuprar, assaltar ou dirigir bêbado.
Não ficou claro? Pois bem, imagine que, para ser feliz, você ache necessário que todos queiram ser felizes do jeito que você gosta; inevitavelmente, você desprezará a busca da felicidade de seus concidadãos exatamente como o bandido ou o estuprador a desprezam.
Em matéria de felicidade, os governos podem oferecer as melhores condições possíveis para que cada indivíduo persiga seu projeto -por exemplo, como sugere a emenda constitucional proposta, garantindo a todos os direitos sociais básicos. Mas o melhor governo é o que não prefere nenhuma das diferentes felicidades que seus sujeitos procuram.
Não é coisa simples. Nosso governo oferece uma isenção fiscal às igrejas, as quais, certamente, são cruciais na procura da felicidade de muitos. Mas as escolas de dança de salão ou os clubes sadomasoquistas também são significativos na busca da felicidade de vários cidadãos. Será que um governo deve favorecer a ideia de felicidade compartilhada pela maioria? Ou, então, será que deve apoiar a felicidade que teria uma mais "nobre" inspiração moral?
Antes de responder, considere: os governos totalitários (laicos ou religiosos) sempre "sabem" qual é a felicidade "certa" para seus sujeitos. Juram que eles querem o bem dos cidadãos e garantem a felicidade como um direito social -claro, é a mesma felicidade para todos. É isso que você quer?
Enfim, introduzir na Constituição Federal a busca da felicidade como direito do indivíduo, aquém e acima de todos os direitos sociais, é um gesto de liberdade, quase um ato de resistência.


CONTARDO CALLIGARIS

Um grande escritor

COMPOSIÇÃO ESCOLAR (Da "Folha de São Paulo")


ERA UMA noite solitária do mês de abril dos anos mais antigos do passado. Eu estava na janela olhando a rua, e entre a janela e a rua havia um jardim.
O pai costumava, tão logo a noite caía, regar os nossos canteiros de tinhorões e avencas, os pés de roseira que ficavam do outro lado, costeando o muro que dividia a nossa casa de um palacete -o único palacete da rua e do bairro.
Verdade: o palacete era enorme, tinha uma escadaria de mármore que subia pela fachada principal -mas não havia jardins, nem sequer um tinhorão aveludado, nem sequer um pé de manacá como o nosso, que ali estava cheirando, molhado pelo anoitecer daquele solitário abril dos anos mais antigos do passado.
Eu olhava a noite e sentia o perfume que vinha do jardim umedecido. A rua não tinha cheiros, era apenas um espaço cor de cimento e pedra, naquele tempo quase não havia movimento, o bonde passava pontualmente de 15 em 15 minutos, era um bonde verde como um bicho de seda comprido, à noite ele vinha iluminado, vazio e inútil, levando ninguém para lugar nenhum.
Além do bonde, um ou outro carro deslizava pela rua vazia. Todas as noites, lembro que, pelas nove horas, passava um carro branco, último modelo na época; se a noite era quente, a capota estava arriada e dentro dele um homem vestido de branco, todo de branco, e houve noite em que, ao lado do homem vestido de branco, havia uma mulher também vestida de branco, um chapéu branco e enorme com enormes fitas brancas.
Anos depois, quando assisti pela primeira vez a "La Traviata", no segundo ato, cheirando a jardim e a flor, lá estava a mesma mulher vestida de branco, com seu chapéu e suas fitas brancas.
Não entendi nada, mas guardei para sempre aquele encontro mágico que era tão meu. Na ópera, o pai se emocionava com a despedida da mulher que abandonava o amante, e eu tinha a certeza de que aquela mulher ali estava só para mim e para sempre. E passava pela minha rua num carro branco e nupcial.
Mas isso foi há muito tempo. Há tanto tempo que já não gosto mais daquele segundo ato, nem da ópera em si e, mesmo que gostasse, de nada me adiantaria: a rua foi asfaltada, perdeu a cor de cimento e pedra, ficou escura como uma enorme tira de fita isolante, os bondes foram arquivados e o palacete foi demolido, em seu lugar subiu um espigão sem forma nem cor.
E o jardim de nossa casa não mais existe, nem os tinhorões nem as avencas, o menino que ficava ali, olhando a noite e o jardim molhado, também ele não existe mais.
De tudo, o que restou foi o silêncio do menino olhando a noite e sentindo o perfume do jardim, esperando o carro branco e nupcial, a mulher com seu chapéu de fitas brancas que parecia ter saído do segundo ato de uma ópera. Além da noite e do jardim estava o mundo, a vida que se desdobrou para o menino, uma vida nem boa nem má, apenas vida -e bastante.
E onde está o carro branco que passava lentamente pelo meio da noite, aquele casal vestido de branco que vinha não sei de onde e se perdia naquela noite silenciosa do mundo?
Ficaram na memória do menino, com os cheiros e os tinhorões aveludados, o pé de manacá molhado, o bonde iluminado e vazio, o garoto olhando a solitária noite dos anos mais antigos do passado.
Mais tarde, o menino precisou fazer aquilo que os outros chamavam de "ganhar a vida". Ele não sabia direito o que era aquilo, já tinha uma vida que lhe fora dada de graça, não precisava de outra, de ganhar outra.
Quando as coisas se complicavam para o lado dele, recorria àquela imagem distante, a rua deserta e perfumada pelo manacá, de repente o carro branco e silencioso passando devagar, a mulher com seu enorme chapéu de tiras brancas deslizando na noite do passado.
Os anos mais antigos também passaram, parece que nem tinham acontecido. O que acontecia agora era muito colorido, berrantemente colorido, o mundo é em cores e faz muito barulho, som e fúria que nada significam.
Mas o menino gosta de pensar neles, embora o homem tenha um pouco de vergonha em falar neles.

CARLOS HEITOR CONY


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Thursday, May 06, 2010

Erotikós

Puedo romperme a un simple toque
De tus dientes blancos,
inundando tu boca con el dulce fluido
de que soy hecha, néctar de los dioses.
Y me voy: dejando deseo, dulzura de un beso,
despertando tu hambre, tus ganas y tu sensualidad.
Ah! Deseo que a mi dedicas...
Como lo retribuo! Me muestro solo tuya,
Soy puro azucar, soy más que miel.
Tu cielo alcanzo, en tu lengua descanso,
Y después...deslizo por tu garganta.

Cecília

Thursday, April 22, 2010

Liberdade




Ser apenas um cachorrinho branco, livre e solto
"ciscando" folhas secas sob árvores e arbustos verdes,
transgredindo as leis rigorosas do parque,
lá escondidinha, livre de guia, correndo à vontade,
tendo como pretexto para a brincadeira um osso branco como ela,
que aos poucos vai se tornando cor de terra,
do barro que ela pisa sem dó nem piedade pelo banho da véspera
que a deixou linda, escovada, com lacinhos na cabeça,
cachorrinha de madame...
Banho de boutique , agora sem nenhuma importância
devido ao espírito livre e travesso de sua dona
e de suas lembranças de infância...

Didi, te amo
Cecília

manhã de sol em abril

Sunday, February 21, 2010

Outono

Há mais lembranças do que planos
Há mais andante, largo, do que presto
Há mais silêncio do que vozes, risos
Denso é o olhar, busca de entendimento...
Longas são as tardes, as madrugadas
(tantas vezes insones)
Breve (assim parece) a manhã de nossa vida...
Reflexo de outras são as alegrias,
em seu antigo berço não mais encontrando abrigo.
É triste o anoitecer da vida,
quando só se tem estrelas distantes, fugidias
e o sol é promessa que pode ou não cumprir-se...


Viver o outono é exercer a nostalgia
Respirar quase sempre melancolia...

Cecília
18-02-10

Wednesday, December 09, 2009

Declaração de amor

Carol,
O amor que tenho por você não se explica,
sente-se
Plenamente, sem culpa,
naturalmente
Não importa o tempo curto que passamos juntas,
as diferenças.
Você está em meu coração ... sempre
Amo sua voz, seu sorriso
o dourado que só você irradia
a brancura de sua pele, seu corpo esguio,
os cabelos quase louros.
Amo (não ria) suas pintas, principalmente as do rosto,
aquelas que vejo quando afasto seus cabelos castanhos,
quase louros
Razão para amá-la, tenho todas,
a começar pelo seu coração, tão generoso.
Mas como disse antes, o amor dispensa razões
méritos, explicações, presença física
- às vezes temos tudo isso e não o sentimos,
não adianta esforço.
Filha, para mim você é belíssima
de alma e corpo
o fruto que justifica a árvore,
o meu tesouro

Cecília

Friday, August 21, 2009

Histórias e rituais de família e identidade ( título meu)

[...] QUANDO UMA NOVA FAMÍLIA SE CONSTITUI, UM GRUPO FAMILIAR ORIGINAL PASSA A SER CONSTRUÍDO; ENTRETANTO, ELE NÃO COMEÇA SUA MISSÃO DO ZERO
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De vez em quando, surgem palavras ou expressões que viram mania nacional, e muitas delas carregam um complexo conceito teórico de alguma disciplina do conhecimento. Assim foi, por exemplo, com a expressão "quebra de paradigmas", lembra-se dela? Cansei de ouvi-la em escolas.
Muitos professores queriam quebrar paradigmas diariamente -não havia uma reunião em que a expressão não fosse utilizada. Logo percebi que muitos docentes haviam se apropriado apenas do sentido linguístico da expressão e a usavam só para mostrar que estavam devidamente conectados com os estudos da época.
Depois disso, tivemos a época da qualidade total, da resiliência, da sinergia e de muitas outras. Agora, a palavra da vez é sustentabilidade, que tem sido usada das mais diversas maneiras para justificar qualquer tipo de ação, projeto, ideologia etc.
E não é que, recentemente, após uma reunião com pais de uma escola em que o tema foi a importância da transmissão dos valores, dos costumes, das virtudes e da moral familiar na educação dos filhos, uma mãe veio me contar que associara a nossa conversa com o conceito de sustentabilidade?
Devo dizer que, de início, ouvi com preconceito a ideia dela, já que não gosto muito desses modismos conceituais e linguísticos. Mas admito que ela construiu seu pensamento com muita propriedade.
O conceito de sustentabilidade é complexo: diz respeito à continuidade de aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais das diferentes sociedades humanas. Sustentabilidade tem estreita relação, portanto, com preservação.
Quando uma nova família se constitui, um grupo familiar original passa a ser construído.
Entretanto, essa nova família não começa sua missão do zero.
Cada adulto que se propõe a formar esse novo agrupamento leva sua herança familiar e a usa como referência.
Gosto muito da imagem construída por um colega: quando uma pessoa recebe uma casa de herança, ou ela reforma ou vende para comprar outra. O mesmo ocorre com a herança familiar.
Quando duas pessoas vindas de famílias diferentes começam uma nova, negociam, combinam, fazem sínteses do que trouxeram e, claro, inovam também. Além disso, mantêm contato com suas famílias de origem, e é desse modo que as novas gerações se reconhecerão na questão familiar.
Se os pais não transmitem suas tradições e as de suas famílias de origem aos filhos -estimulando o contato entre eles, contando suas histórias, comparecendo aos rituais existentes-, criam uma geração órfã de família. É como se a existência do sobrenome não fizesse sentido, pois não há diferenciação nem características próprias do grupo familiar.
É preciso lembrar que família e sociedade são agrupamentos interdependentes: se um vai mal, o outro também vai. Desse modo, educar os filhos considerando a preservação da família, sua continuidade e manutenção, é trabalhar também a favor da sustentabilidade da sociedade.



Roseli Sayão

Wednesday, August 05, 2009

Em terra árida não nascem flores
Estações se sucedem
E a despeito da rega,
Não se tem nenhum retorno.
A aridez contamina
E a Alma se vê...
Vazia de ardores , amores
Perde-se o sentido da vida
E tudo é cinza, sem cores...

Para meu marido

Cecília
Da vida quero toda a vibração, quero o delírio,
um amor que excite todos os meus sentidos,
mas que tenha na alma seu maior afrodisíaco...

Não esperamos tanto para almejarmos
a sombra de uma árvore,
a contemplação das águas de um regato,
suavemente cumprindo seu caminho,
ou de nuvens brancas no céu deslizando,
a desenhar figuras delicadas...

Não nos satisfazemos mais,
apenas com o etéreo, os mistérios da vida,
os sonhos distantes, a ausência física...

Queremos ser de uma estória de amor
os heróis, os principais protagonistas;
talvez o centro do mundo,
ainda que na visão deturpada
de dois apaixonados...

Que um turbilhão nos engolfe, nos arraste...
É fim de festa, vale tudo: pés descalços
e rostos sem nenhuma máscara...

Cecília Quadros

Saturday, July 25, 2009

Atração

Esquivo é o olhar,
tímido
Poucas palavras,
gestos contidos,
coração meio perdido.
O encanto tem mão dupla?
É pelo outro sentido?
O olhar para mim mesma
é crítico
Interesse do outro?
Impossível
A guardar na memória
a simpatia
e um nome se repetindo
associado à uma figura bonita....

Um leve beijo na despedida
À distância te olho:
fim da história,
que agora recrio...

Cecília

Friday, July 17, 2009

Urubici

Debaixo de muitas mantas
no calorzinho da cama
-está tão frio lá fora-
demoradamente nos olhamos.
A sensação é de aconchego,
pertencimento.
Longe de tudo,
muito além do nosso mundo,
nos acariciamos.
Nos damos as mãos
e nos sentimos seguros,
cúmplices,
contentes por termos caminhado juntos
por tantos anos...
O abraço renova o pacto
há muito tempo firmado.
Brincamos um com o outro,
nenhuma solenidade...
Mas sentimos o marco:
inesperado
naquela cama deitados...

Cecília
14-07-09

Thursday, July 16, 2009

Com poetas não se fala de arranjos terrenos,
mas de vôos de pássaros, flores,
bonecas de louça, versos e estrelas
de madrugadas longas, noites frias
ou manhãs com orvalho, tardes lentas...
de olhares perdidos, apáticos ou apaixonados
ou sorrisos amplos e serenos
( se o Amor é certo e se faz pleno.)

Fala-se de destino, impaciência e desejo
(desse sutilmente),
quando o Amor ainda é mistério ou recente...

É assim que amam os poetas:
sonham, suspiram, tateiam
e tudo é verso,“Festa”e encantamento...
Se do devaneio algo os desperta,
Languidamente vão transpondo
a linha imaginária, que só o sonhador conhece.

Há que se ter paciência com os sonhos, as quimeras,
pois é assim que amam os poetas...

Cecília

Monday, June 15, 2009

Susto
de amar e não ser amada
de deixar a vida passar em branco
de nada realizar
de ser diferente
ter um destino diferente
e não aceitá-lo,
não compreendê-lo
Medo
de a ninguém agradar
de ficar só
eternamente...
de me sentir tão só
que a minha dor pareça
única, total, incurável,
incomunicável
Medo,
que me faz seguir caminhos que não quero
que parece não me deixar escolha
a não ser pretender ser outra pessoa,
mais aberta, mais solta
mais firme em suas escolhas,
tudo entendendo:
o que passou, o que se passa agora;
dona do futuro, da própria vida,
um ser livre, em paz,
vivendo conscientemente...

Cecília

Para tantas pessoas, frágeis em sua humanidade...


15-06-09

Fuga

Não importa o que hoje somos:
se vencedores, perdedores,
seguros, inseguros ou apenas sobreviventes;
se somos ainda bonitos,
se chegamos perto dos heróis românticos
que idealizamos enquanto adolescentes...
Isso não mais importa ...
Não importa o que viveste, o que vivi,
se agora estamos
sedentos de amor e de carinho,
portando um sonho,
que aquece os nossos corações.
O abraço que nos damos é pura ternura,
um tocar de almas só possível
por jamais termos perdido a esperança de amar
e sermos amados
de dar e receber carinho
este tão sonhado, almejado,
difícil, e até então negado carinho,
presente agora em nossas mãos se entrelaçando,
enquanto viajamos...

Cecília

Tempo

Traço linhas paralelas imaginárias
Em cada uma visualizo uma figura humana
em diferente fase da vida
Todas na mesma direção
A esperá-las: chi lo sa?
Nessa linha do tempo não há volta nem antecipação
(Não posso voltar e te abraçar, mãe...)

Vida
Para a vida desenho um círculo,
abarcando até quatro gerações.
Para o outro alcançar é só estender a mão
(talvez isto explique nossa forte ligação)


Agora, a contragosto, coloco o círculo na linha
E lá vai ele de roldão: trilhando todo o caminho
que leva... ao ponto de interrogação...

Cecília

Thursday, May 14, 2009

A respeito de ausência e de sonhos

Me dei um tempo
E saí em busca de mim
Encarei meus defeitos
Me enfrentei face a face
Acertei rumos e passo
Não sou mais barreira pra mim.


Meus fantasmas transformo em palavras
Abrigo-os em versos, dou-lhes espaço
E me liberto da inquietação que me passam...


Meu sonho não tem um nome, uma forma, um endereço
Meu sonho não é de glória, não é um homem,
É ter com o que sonhar a minha vida inteira...


O Esfarrapado e o Roto

Juntamos:
A fome com a vontade de comer
A imaginação com o sonho,
Fugas, com pé na estrada
Somos o roto e o esfarrapado...

Trilhamos caminho certo,
mas deixamos uma fresta aberta
E para que não falte tesão...
damos asas à imaginação.

Seremos santos de barro?
Ou se prefere do pau oco...
Mas levamos afeto à sério
e não causamos desgosto...

Escapo... também escapas...
Ousamos?Até que bem pouco
Sonhamos de olhos abertos
Pois somos feitos da mesma matéria,
o esfarrapado e o roto...


Preço

Ninguém tira os pés do chão e voa impunemente
O preço... vale a pena?
Vale viver outra vida, à perfeição retocada,
Colorido filme em que somos protagonistas,
Vale brincar, esculpir imagens, criar roteiros,
Vida paralela ocupando da realidade quase todo o espaço?

Cecília


Ilusões

Não deveria ficar nada...
Ilusão não mata
Nem faz tanto estrago
Nada que um gesto leve não afaste

Fantasias são breves, leves
Chegam, afagam,
Inspiram às vezes versos
E partem

Outras vêm, burlam vigilância,
Cuidado.
Pegam a alma desavisada,
Entediada
E se instalam,
Dando uma falsa sensação
De perene felicidade.
Mas são volúveis, frágeis
E como nuvens se esvaem...

Não era para ter ficado.... nada...

Cecília


Sonho e Vida

Vida é sonho
Os meus procuro ansiosamente
- questão de sobrevivência -
Na pressa os perco, os esqueço
E fica um vazio de assustar
Reajo, encontro uma possibilidade,
Nela me agarro, me distraio.
Aos poucos os outros vou recuperar...

Beijo na boca

Desejo...
Fantasia travessa
Atravessando limites
Se impondo, apesar do medo

Beijo
Maroto, brejeiro
Doce, certeiro
Sonhado
Só um beijo...
Só?
Mas... se desencadeia
uma onda de desejos?

Contida,
Não deixo que nada percebas
Meu desejo adormeço,
Nem olho para tua boca,
mas em sonhos... te beijo

Louca!...


Sonhos são sonhos
Realidade é realidade

Sonho realizado: não é o mesmo sonho.
A realidade já deixou nele sua marca.
Preenche por um tempo, curto tempo,
até que a eterna insatisfação do homem,
lhe cave no peito novo buraco,
e outro sonho tenha que ser sonhado.

Aí é pôr asas no coração,
se abrir para nova emoção
E curtir outra vez desejo,
Ainda com maior grau de intensidade...



O que será que existe....


Fora desse círculo
Além daquela porta
Lá, onde o olhar não alcança
Lugares em que nunca estive
Rostos desconhecidos
Imagino...
Mas não me imagino
por outras terras vagando
Uma outra vida vivendo
Em outras águas imergindo...

Cecília
após longa ausência

Friday, May 08, 2009

Sim, aparência importa

Pam Belluck

Há mais de uma semana, pessoas em ambos os lados do Atlântico têm usado a história de Susan Boyle - a solteirona escocesa desleixada que chegou à fama cantando no programa de TV "Britain's Got Talent" - como um exemplo de quão superficiais nos tornamos.
Não há muito o que você possa fazer a respeito; é o modo como pensam; é o modo como são disse Susan Boyle, comentando a rapidez com que a sociedade julga as aparências. Antes de cantar, Boyle parecia uma mera voluntária de igreja desempregada e desmazelada de 47 anos que morava sozinha com seu gato, Pebbles, e que, segundo ela, nunca teria sido beijada (uma alegação que ela posteriormente retirou).Agora, após o vídeo de sua apresentação ter se tornado viral, uma enxurrada de comentários se concentra em como estereotipamos as pessoas em categorias, como caímos vítima de preconceitos de idade e aparência, e como temos que aprender, de uma vez por todas, a não julgar os livros pela capa.Mas muitos cientistas sociais e outros que estudam a ciência dos estereótipos dizem que há motivos para avaliarmos rapidamente as pessoas com base em sua aparência. Julgamentos rápidos a respeito das pessoas são cruciais para o modo como funcionamos, eles dizem - mesmo quando esses julgamentos são muito errados.Eles até mesmo concordam com a própria Boyle, que disse após sua apresentação que apesar da sociedade ser rápida demais em julgar as pessoas pela aparência, "não há muito o que você possa fazer a respeito; é o modo como pensam; é o modo como são".Em um nível muito básico, julgar as pessoas pela aparência significa colocá-las rapidamente em categorias impessoais, assim como decidir se um animal é um cachorro ou um gato. "Estereótipos são vistos como um mecanismo necessário para entendimento da informação", disse David Amodio, um professor assistente de psicologia da Universidade de Nova York. "Se olharmos para uma cadeira, nós podemos categorizá-la rapidamente, apesar de existirem muitos tipos diferentes de cadeiras."Eras atrás, esta capacidade era de uma importância de vida ou morte, e os seres humanos desenvolveram a capacidade de avaliar outras pessoas em segundos.Susan Fiske, uma professora de psicologia e neurociência de Princeton, disse que tradicionalmente, a maioria dos estereótipos se divide em duas dimensões amplas: se a pessoa parece ter intenção maligna ou benigna e se a pessoa parece perigosa. "Em tempos ancestrais, era importante permanecer distante de pessoas que pareciam furiosas e dominadoras", ela disse.As mulheres também são subdivididas em mulheres "tradicionalmente atraentes", que "não parecem dominadoras, têm traços de bebê", disse Fiske. "Elas não são ameaçadoras."De fato, a atração é uma coisa que reforça o estereótipo e faz com que se cumpra. Pessoas atraentes têm "crédito de serem socialmente hábeis", disse Fiske, e talvez sejam, porque "se uma pessoa é bonita ou simpática, as outras pessoas riem das piadas dela e interagem com ela de uma forma que facilita a interação social"."Se uma pessoa não é atraente, é mais difícil conseguir todas estas coisas porque as outras pessoas não a procuram", ela disse.A idade também tem um papel na criação de estereótipos, com as pessoas mais velhas tradicionalmente vistas como "inofensivas e inúteis", disse Fiske. Na verdade, ela disse, as pesquisas mostraram que os estereótipos raciais e étnicos são mais fáceis de mudar ao longo do tempo do que os estereótipos de gênero e idade, que são "particularmente aderentes".Um motivo para nosso cérebro persistir em usar estereótipos, dizem os especialistas, é por frequentemente nos dar informação precisa de modo geral, mesmo que nem todos os detalhes de encaixem. A aparência de Boyle, por exemplo, telegrafou precisamente grande parte de sua biografia, incluindo seu nível socioeconômico e falta de experiência mundana.
"Britain's Got Talent"
Seu comportamento no palco reforçou uma imagem de pessoa de fora. David Berreby, autor de "Us and Them", sobre o motivo das pessoas categorizarem umas às outras, disse que os telespectadores também podem tê-la julgado severamente porque, nas provocações com os juízes antes de cantar, ela parecia estar, desajeitadamente, tentando se encaixar."Ela tentou ser divertida, e quando lhe perguntaram a sua idade, ela fez aquela dancinha", como se ela presumisse que nesses programas "você supostamente precisa ser meio sensual e elegante, mas se deu mal", disse Berreby. "Nada provoca mais nosso desprezo do que alguém tentar ser aceitável e então fracassar."Quando as pessoas não se encaixam em nossas noções pré-concebidas, nós tendemos a ignorar as contradições, até serem dramáticas demais para ignorar. Nestes casos, disse John F. Dovidio, um professor de psicologia de Yale, nós nos concentramos na contradição - a voz de Boyle, por exemplo. Apesar disso nos fazer vê-la mais como um indivíduo, nós também "encontramos uma forma do mundo fazer sentido de novo, mesmo que para isso digamos: 'Esta é uma situação excepcional'. É mais fácil para mim manter as mesmas categorias na mente do que chegar a uma explicação para as coisas que são discrepantes".Mesmo diante de múltiplas exceções ao estereótipo, nós frequentemente mantemos a categoria geral e simplesmente criamos um subtipo, disse Dovidio.Por exemplo, o presidente Barack Obama contrariou os estereótipos negativos a respeito dos negros, mas algumas pessoas podem ter criado um subtipo de negros - profissionais negros - em vez de contestar o estereótipo geral, disse Dovidio. "Esta é a solução mais simples e que economiza energia cognitivamente."Os cientistas estão descobrindo que os estereótipos não estão simplesmente armazenados no cérebro e são recuperados por ele, mas "estão associados com regiões gerais do cérebro envolvidas na memória e no planejamento de metas", disse Amodio, sugerindo que "as pessoas recrutam estereótipos para ajudá-las a planejar um mundo consistente com a meta que possam ter".A pesquisa de Fiske sugere que as pessoas de status baixo são registradas de forma diferente no cérebro. "A parte do cérebro que normalmente é ativada quando você pensa em pessoas fica surpreendentemente silenciosa quando você olha para moradores de rua", ela disse. "É uma espécie de desumanização neural. Talvez não consigamos suportar a situação horrível em que se encontram, ou não queiramos nos envolver, ou talvez tenhamos medo de nos contaminar."Mas, ela disse, a resposta neural é restaurada quando é pedido para as pessoas se concentrarem em que sopa os moradores de rua possam querer comer, algo que as faz pensar na pessoa como alguém com desejos ou metas.
O fato de podermos mudar nossas reações em relação às pessoas - o status de Boyle passou instantaneamente de baixo para alto - também tem raízes em nossa psicologia, disseram os cientistas.Dovidio disse que encontrar discrepâncias nos estereótipos provavelmente "cria um tipo de estímulo autonômico" em nosso sistema nervoso periférico, provocando picos de cortisol e outros indicadores de estresse. "O estímulo autonômico nós motivará a fazer algo naquela situação", ele disse, especialmente se a situação é perigosa.Helen Fisher, uma professora de antropologia da Rutgers, teoriza que no caso de Boyle, os telespectadores também passaram por uma "onda de dopamina" com a surpresa agradável de ouvir a voz dela. "A novidade aumenta a dopamina no cérebro e faz você se sentir bem", ela disse.Isto pode ajudar a explicar por que tantas pessoas foram atraídas pela história de Susan Boyle. Mas o fato de aceitarem a ela e outros azarões subestimados dificilmente mudará nosso gosto pelo estereótipo.A sociedade moderna, com sua consciência dos preconceitos ao longo da história e sua capacidade sem precedente de apresentar tantos tipos diferentes de pessoas umas às outras, pode diluir ou mesmo neutralizar algumas noções pré-concebidas. Mas outras persistirão e novas surgirão, dizem os especialistas.Este pode ser o motivo para, mesmo após ter expressado a esperança de que "talvez isso possa tê-los ensinado uma lição, ou dado um exemplo", Boyle ter começado a mudar sua aparência nos últimos dias, usando maquiagem, tingindo seu cabelo grisalho e vestindo roupas mais elegantes."A matéria-prima de dizer que você está comigo e ela não está é algo que está sempre presente", disse Berreby. "Não é algo que inventamos por causa da TV ou do carro. Também não é algo ligado à vida moderna. É algo inerente à mente."Tradução: George El Khouri Andolfato

Artigo publicado pela "Folha de São Paulo"após ter saído no New York Times

Friday, March 20, 2009

Atravesso portas e mais portas
Percorrendo curiosa empoeiradas áreas,
Prolongamento desconhecido da minha própria casa.
Por que só agora o acho?
- Sensação de desperdício de tempo e espaço...

No sonho
as portas que nunca abri,
Os mistérios que não tentei desvendar,
Tudo o que podia e não tive ousadia para conquistar...

Cecília Quadros

Tuesday, March 10, 2009

Tenho gana de vida
Se adoeço, me trato
Se caio, me levanto rápido
Se a tristeza me prende, escapo
Não me importam as muletas,
desde que suportem meu peso
pois liberam minha alma,
deixando-a inteira,
livre para a felicidade.
Venço desânimo, distância,
Tudo em nome da afinidade...
Vivo o dia de hoje
não por desapego ao passado,
desencanto ou desesperança.
Só não quero desperdício,
jogar fora um momento
sequer da minha vida.
E assim vou levando,
mais do que sendo levada:
vivendo meu tempo, meu momento,
minha hora... que de resto,
queira ou não queira,
um dia vou ter que ir embora.
Passo eu, passa a vida,
e tudo o que foi,
não será senão história...

Cecília

Friday, March 06, 2009

Quando o inverno chegar

Para esconder a realidade da velhice, diz-se, elegantemente, que se trata de uma pessoa "idosa" ou da "terceira idade"
EU ESTAVA ASSENTADO no palco e observava o auditório lotado. Muitas cabeleiras brancas, muitas cabeleiras grisalhas e muitas calvas brilhantes. Era um público de gente velha. Estavam lá para me ouvir. Havia sido anunciado que eu faria uma fala sobre a terceira idade. Mas eu teria preferido que tivessem anunciado uma conversa sobre velhice... Acho a palavra "velhice" mais poética que a expressão "terceira idade"...Mas essa palavra "velhice" não aparecia no convite. A "linguagem politicamente correta" a havia proibido. Referir-se a alguém como um "velho" era grosseria, ainda que ele ou ela, por força dos anos já vividos, fosse na realidade um velho. Por vezes, a realidade ofende e é preciso criar máscaras e disfarces para escondê-la. Para esconder a realidade da velhice, diz-se, de forma elegante, que se trata de uma pessoa "idosa" ou da "terceira idade".Eu não me considerava idoso e nem me colocava dentro do conjunto da terceira idade, muito embora um repórter de um jornal da minha cidade tenha chamado de "ancião" um senhor de 50 anos que fora atropelado. Segundo os critérios desse jovem, se eu fosse atropelado seria imediatamente promovido à categoria de "ancião"...Feitas as introduções e apresentações preliminares, chegou a minha vez. Fiz silêncio. Olhei demoradamente para os idosos que esperavam de mim um elogio à terceira idade e comecei:"Então os senhores e as senhoras chegaram finalmente a esse glorioso momento da sua vida em que podem se entregar à felicidade de serem totalmente inúteis...".Aí aconteceu o que eu sabia que aconteceria. Não me deixaram continuar. Fui imediatamente interrompido por protestos indignados. Todos queriam provar a sua utilidade. Um dos idosos contou sobre a sua horta. Um senhora descreveu as colchas de retalhos que fazia. Um outro contou sobre o hobby que desenvolvera fazendo brinquedos artesanalmente...Deixei que falassem à vontade. Eu os havia provocado de propósito. Falavam movidos pela ideologia da nossa sociedade, que julga as pessoas da mesma forma como julga as lâminas de barbear, as esferográficas e os filtros de café...Uma lâmina de barbear rombuda, uma esferográfica esgotada, um filtro de café usado deixaram todos de ter utilidade e vão para o lixo. O mesmo acontece com os seres humanos que deixaram de ser úteis.Esgotada a indignação contra mim, acalmados os ânimos, a palavra me foi devolvida: "A Nona Sinfonia de Beethoven é absolutamente inútil. Não há coisa alguma que se possa fazer com ela. Mas uma vassoura, ao contrário, é muito útil. Serve para varrer, tirar o lixo, eliminar as teias de aranha... Vocês estão me dizendo que preferem a vassoura útil à Nona Sinfonia inútil...Vejam esse poeminha da Cecília Meireles: "No mistério do Sem-Fim equilibra-se um planeta. No planeta, um jardim. No jardim, um canteiro. No canteiro, uma violeta. E na violeta, entre o mistério do Sem-Fim e o planeta, o dia inteiro, a asa de uma borboleta".Prá que serve esse poema? Prá nada. É inútil. Já o papel higiênico é muito útil... Vocês estão me dizendo que, no seu julgamento, o papel higiênico vale mais que o poema...Repentinamente os rostos indignados se abriram em sorrisos. E aprenderam a sabedoria dos poetas e artistas, tão bem resumida no aforismo de William Blake: "No tempo de semear, aprender. No tempo de colher, ensinar. E quando o inverno chegar, gozar...".

Rubem Alves

Wednesday, March 04, 2009

Voltei

Deixei minha camisola sob o travesseiro,
o livro de versos na mesma prateleira,
e é como se nunca tivesse partido.
Não quebrei todos os laços,
preservei o meu espaço,
só não estou mais dividida.

Quero diante do espelho
me ver, corpo desnudo
esquadrinhando meu rosto,
analisando meu corpo,
atrás das marcas da vida,
e daquela paixão... finita,
que foi céu, inferno, estorvo.

Despida a veste bonita,
tal qual vestido de noiva,
fica a mulher, mãe, esposa,
e a poesia sem asas, sem vôos...


Cecília

Inquietação

Hoje não sei se gosto, se não gosto,
de quem gosto
Se vou, se não vou, se escrevo, se leio,
se ando, me deito, se saio ou se fico,
com quem saio, com quem fico,
se choro, se rio, se me explico,
se me entendo, se me ignoro,
se me contenho.
Não sei o que faço de mim mesma,
que hoje para mim eu sou só peso,
sem o outro ver e sem nenhum espelho...

Cecília Quadros

Saturday, February 14, 2009

Regressarei

Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas

Sophia de Mello Breyner Andresen

Wednesday, February 11, 2009

Carinho Inesquecível

Nós dois, camas separadas
em quarto tão simples... na praia
estendendo os braços
nos dando as mãos...
Era verão?
Quantos filhos tínhamos?
Nem tudo era paz...
Mas...
No gesto espontâneo,
tanto carinho,
que a memória
envolve, guarda, eterniza...


Cecília
16-01-03

( Fomos tão felizes...)

Tuesday, February 10, 2009

O Último Retalho

Aqui termina o livro.Uma colcha de retalhos, como diz o título. Fala a correr do menino da "tia"Judite, todo ele em estilo coloquial, de quem está conversando com ele próprio. E havia tanto a falar desse tempo. Fala de Lisboa, também correndo, como se quisesse chegar depressa a algum lugar. Acho que fui sempre assim na vida.
Vivendo os momentos, como se a vida fosse terminar no outro dia. Com a intensidade possível; como alguém que espera um sonho maior ao acordar no dia seguinte. E o encontra e o realiza com toda a paixão e fogo de que é possuidor, mas também com a pressa urgente de chegar ao sonho novo, que o amanhã lhe trará.
Fui assim com tudo. Odiando o tédio da coisa repetida; procurando em cada dia a garantia de um amanhã diferente. E talvez só isso possa explicar o porquê de tantas testemunhas, presenças na minha vida.
É a outra imagem de mim, a que me habituei a chamar de Marcos Leal. Poeta, caçador de sensações. Que é feliz hoje em África, enquanto sonha estar amanhã no outro lado do mundo. Que viveu correndo, sem se fixar a coisa nenhuma, nem a ninguém.Esse é que foi o que amou as tempestades, que ia sempre procurar mais longe. Sofrendo com a dor de perder o amor que sentia, mas que partia à procura do amor que adivinhavaestar esperando por ele, no dia seguinte.
Talvez fosse ele que devesse ter escrito a história da sua vida e não eu. A vida dele foi sem dúvida mais interessante, mais cheia de aventura, mais cheia de mulheres bonitas. Enquanto eu, sou um chato. Que ama seus amigos com uma imensa devoção. Que ama a sua família e é fiel a quem ama. Que ama a Pátria onde nasceu um dia, e tudo faz para a honrar e engrandecer, onde quer que esteja.
O Marcos Leal não tem família e não tem Pátria. Ama a quem ama, com imensa intensidade. e se ama a Portugal, da forma como ama, não é porque o sinta Pátria, mas porque o sinta amante. E a família é para ele só e exclusivamente cumplicidade Eu que me preocupe com as regras do não mentir, do cumprir tudo o que se promete, de não falhar com os amigos, de estudar, de ler, tomar banho todos os dias, tirar os cotovelos de cima da mesa às refeições. A relação dele com os filhos é só cumplicidade.
E foi, nesta dualidade entre a responsabilidade e a procura, que fui percorrendo a estrada que estava à minha espera, desde o princípio do sonho e da vida. Com altos e baixos, como costuma acontecer com as estradas. Mas também com muita coerência.
_ Se fui feliz? Se ser feliz é juntar todos os momentos de felicidade, então eu diria que sim; fui muito feliz. Fui feliz, até, quantas vezes, na própria dor, já que até para ser feliz é preciso ter vocação. Todos nós conhecemos pessoas que já nasceram com 200 anos de idade, incapazes de sonhar ou realizar coisas novas. Que se sentam a uma mesa na noite de Natal e começam: - "Será que o peru não vai fazer-me mal? E essa fafofa, não irá provocar-me azia?"
São todos aqueles que toma calmante na noite de núpcias, com medo de ter insônia. Não poderão ser felizes nunca, até porque lhes falta vocação.
A minha mãe é que estava certa:
_ Filho, agradece sempre a Deus o teres nascido. Ele foi tão bom para ti.
E foi.

Rodrigo Leal Rodrigues

( aquele que não canso de homenagear - Cecília)

Monday, February 09, 2009

Metamorfose

Por que os clássicos são pessimistas? Seria o trágico uma moda? Três mil anos de moda?
AO SER indagado se não tinha esperanças, Kafka disse, "esperanças há muitas, mas não para nós". Janouch narra um dia em que ele, com 20 anos, disse a Kafka, então com 40, "hoje não estou entendendo nada do que você diz". Kafka respondeu "deve ser a misericórdia de Deus, porque sendo você jovem, e estando eu hoje pessimista, se você me entendesse, você ficaria mal". Confessa: "o pessimismo é meu pecado".Por que os clássicos são tão pessimistas? Seria o trágico uma moda? Três mil anos de moda? Improvável. Na sua coluna de 21 de janeiro, meu colega ilustrado (velha piada entre nós) Marcelo Coelho critica "meu" pessimismo. Colunistas que "matam a esperança" são supérfluos. O bom jornalismo opinativo é pautado pelo conflito de ideias, por isso, agradeço suas críticas. Ele acha que ao duvidar do Iluminismo reforço forças regressivas na experiência humana. Eu penso que o Iluminismo é que é regressivo porque caminha sobre fantasias enquanto os homens caminham sobre tumbas. Nós modernos somos a raça mais covarde que caminhou sobre a Terra. Não escrevo para tornar a vida do meu leitor melhor. Escrevo e leio para não me sentir só. Quando olho os "avanços" da nossa minúscula história, penso: como nos verão em mil anos? Como a decadência do século 17? Rirão de nós porque demos direitos aos ratos, enquanto fizemos dos bebês lixo reciclável pelo direito de gozar mais? Respondo a pergunta "o que eu acho da Revolução Francesa?" com "ainda é cedo pra dizer qualquer coisa". Imaginem dois africanos no século 19. Um vende o outro como escravo (negros vendiam negros). O escravo é levado para os Estados Unidos e lá sofre todo tipo de horror da escravidão. O outro fica livre e feliz na África. Adiantem o filme. O bisneto do escravo mora nos EUA, casa na praia, filhos na faculdade, e a esposa, bisneta de outro escravo, médica de sucesso. Voltem pra África. Muitos bisnetos do que ficou lá continuam a viver em seus buracos, matando-se do mesmo jeito (como acabou a escravidão, perderam a chance de vender seus "irmãos"). Famílias afundam na miséria. Qual é a moral desta história? Que a escravidão foi uma bênção para os afro-americanos porque os levou para os EUA? E a liberdade do outro, a maldição de seus bisnetos? Os afro-americanos, que hoje celebram a vitória do Obama, depois de muito sofrimento, diriam "ainda bem que nossos bisavós foram escravos"? Não! A escravidão é um horror. A questão é outra: qual o sentido da história humana? Nenhum. A história não é a luta entre a luz e as trevas. Não porque elas não existam, mas porque não sabemos identificar, com o microscópio das ideias claras e distintas de que dispomos, a trama infinita de suas relações. Um homem faz o que pode em meio a opacidade do mundo. Meu pecado é não fazer o marketing da democracia de massa. Falsos sentimentos são comuns nos homens, logo, quanto mais homens, maior a chance de mentira, por isso desconfio de bons sentimentos em grandes quantidades. Mais? Os índios não vivem em comunhão com a natureza, apenas ficaram na idade da pedra em técnicas de domínio da natureza, como muitos africanos que ficaram na África. A ciência e a política tampouco fazem os homens melhores. O mundo não é dividido entre elite má e pobre bom. Se a elite é cruel, o povo é violento e interesseiro. Os homens não são iguais, alguns são melhores. A igualdade ama o medíocre. É mentira que todo mundo possa julgar as coisas por si só. A propaganda desta mentira gera uma horda de invejosos que sonham em destruir quem eles julgam livres. Supérfluo? Mentira. Num mundo parasitado pelo marketing como forma de vida, ser pessimista é um método. Não se trata de dizer morbidamente "o mundo é mau", mas reconhecer que no humano a verdade é uma ferida incurável. A esperança que conta é a do animal ferido. Nada disso implica concordar com crianças mortas. O debate ao redor da esperança não é um problema do quão otimista somos, mas o que em nós nos faria colaborar com nazistas na França ocupada, além do medo. Manter o emprego? A chance de destruir alguém melhor do que eu? Tomar a mulher de alguém? Promoção pessoal? Nada mais banal, nada mais humano. Na "Metamorfose", Gregor Samsa, agora uma barata, vê a delícia que é caminhar de cabeça pra baixo com suas perninhas coladas ao teto. Sente-se finalmente feliz. A barata é a otimista em Kafka. luiz.ponde@grupofolha.com.br

Luiz Felipe Pondé

Sunday, January 25, 2009

O Poema

O poema é fruto de uma inquietação,
que no peito parece não caber
de uma vontade incontrolável de escrever
de sentimentos que não só o seu criador espelham,
pois vêm do âmago, de sua condição humana,
voz da alma se tornando;
sensibilizando com palavras instintivas,
mas com esmero distribuídas - substituídas se preciso -
para que sejam verdadeiros e belos os versos,
cativando, retendo a emoção por algum tempo...


Cecília

Tuesday, January 06, 2009

Em teus braços

quero viver toda a delícia deste amor antigo
a plenitude deste sentimento único
o prazer de ter à flor da pele os meus sentidos
de me sentir ausente e tão dentro deste mundo...

União completa: concreta, mas permitindo vôos
- pois sou poeta -
só que daqui pra frente, prometo, te levando junto...

Cecília

Saturday, January 03, 2009

Alternância

Quero me livrar de todos meus demônios,
tirar de mim tudo o que minh’alma angustia:
pensamentos e lembranças hoje em preto e branco,
refletindo só o meu lado negativo.

Não sei se dou um tempo e hiberno,
para acordar depois em plena primavera,
pois sei que esta é a dança do universo,
sol brilhando depois de rigoroso inverno.

Cecília

Wednesday, December 24, 2008

O Presépio

A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança
MENINO, LÁ EM MINAS , eu tinha inveja dos católicos. Eu era protestante sem saber o que fosse isso. Sabia que, pelo Natal, a gente armava árvores com flocos de algodão imitando neve que não sabíamos o que fosse. Já os católicos faziam presépios.Os pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranqüilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vaga-lumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança.Até os católicos mais humildes faziam um presépio. As despidas salas de visita se transformavam em lugares sagrados. As casas ficavam abertas para quem quisesse se juntar aos reis, pastores e bichos. E nós, meninos, pés descalços, peregrinávamos de casa em casa, para ver a mesma cena repetida e beijar a fita.Nós fazíamos os nossos próprios presépios. Os preparativos começavam bem antes do Natal. Enchíamos latas vazias de goiabada com areia, e nelas semeávamos alpiste ou arroz. Logo os brotos verdes começavam a aparecer. O cenário do nascimento do Menino Jesus tinha de ser verdejante.Sobre os brotos verdes espalhávamos bichinhos de celulóide. Naquele tempo ainda não havia plástico. Tigres, leões, bois, vacas, macacos, elefantes, girafas. Sem saber, estávamos representando o sonho do profeta que anunciava o dia em que os leões haveriam de comer capim junto com os bois e as crianças haveriam de brincar com as serpentes venenosas. A estrebaria, nós mesmos a fazíamos com bambus. E as figuras que faltavam, nós as completávamos artesanalmente com bonequinhos de argila.Tinha também de haver um laguinho onde nadavam patos e cisnes, que se fazia com um pedaço de espelho quebrado. Não importava que os patos fossem maiores que os elefantes. No mundo mágico tudo é possível. Era uma cena "naif". Um presépio verdadeiro tem de ser infantil.E as figuras mais desproporcionais nessa cena tranqüila éramos nós mesmos. Porque, se construímos o presépio, era porque nós mesmos gostaríamos de estar dentro da cena. (Não é possível estar dentro da árvore!).Éramos adoradores do Menino, juntamente com os bichos, as estrelas, os reis e os pastores.Será que essa estória aconteceu de verdade? Foi daquele jeito descrito pelas escrituras sagradas? As crianças sabem que isso é irrelevante. Elas ouvem a estória e a estória acontece de novo. Não querem explicações. Não querem interpretações. A beleza da estória lhes basta. O belo é verdadeiro. Os teólogos que fiquem longe do presépio. Suas interpretações complicam o mundo.O presépio nos faz querer "voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Estamos encantados. Adivinhamos que somos de um outro mundo." (Octávio Paz )Seria tão bom se os pais contassem essa estória para os seus filhos!

Rubem Alves

Thursday, December 18, 2008

O Rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

Manuel Bandeira

Wednesday, December 17, 2008

Momento (sem retorno)

Encontro rápido,
há muito esperado.
Depois, sensação de desperdício:
impressão de momento não plenamente vivido,
sentidos adormecidos.
Fica: lembrança pálida do acontecido
e o desejo impossível de vivê-lo novamente...


Cecília

Friday, December 05, 2008

Independente de mim

Independente de mim
o vento sopra
balança as folhas nas árvores
o céu se enche de nuvens
o sol, desviando delas,
projeta sua luz nas janelas
os pássaros voam
as pessoas andam apressadas pela rua...
Independente de mim,
a Terra se move
a natureza segue o seu curso...
O mundo é mundo,
quer eu adoeça, me entristeça,
quer amanheça alegre e disposta,
quer meu humor mude,
me sinta assustada ou segura,
ou apenas carente,
ou ainda contente com alguma pequena vitória
(talvez ilusória)
Dentro de mim a certeza da minha fragilidade,
impermanência e desamparo...

Cecília

04-12-08

Wednesday, December 03, 2008

A FESTA

A casa
Ontem enfeitei minha casa,
tirei os talheres de prata,
usei as melhores toalhas,
copos, taças, porta-retratos.
Cuidei de cada detalhe,
da sala até o jardim.

Eu
Vesti um vestido preto
pra combinar com os cabelos,
perfumei meu corpo inteiro,
passei um batom carmim.
Costas nuas, salto alto,
para dar aquele toque
e te orgulhares de mim.

O desenrolar
Desci alegre e faceira,
ri, brinquei a noite inteira,
pois tudo corria perfeito,
das canções de George Gershwin,
ao buquê de rosas vermelhas,
que comprara pensando em ti.
Sabia que tu não vinhas,
que cumprias outro destino,
não o de estar ao meu lado.
Mas dei conta do recado,
mantive a paixão bem guardada,
ela que tudo inspirara,
da roupa à decoração
E festejei, e brinquei, e dancei,
até cair de exaustão...

Cecília

Monday, November 24, 2008

Para isso temos que viver tanto
Para sermos mais despojados e magnânimos
Para descomplicar a vida
Para compreendermos os semelhantes
Para amar os animais
Para curtir com mais intensidade a natureza
Para melhor nos conhecermos
Para nos sentir plenos
Para aceitar mudanças
(fora e dentro de nós mesmos)
Para termos o nosso canto
(questão de merecimento)
Para sermos dignos
- sendo ou não a Deus tementes
Para aceitar a vida
ou até amá-la,
sem nos arrependermos de tê-la transmitido
aos nossos descendentes...

Cecília

23-11-08

Thursday, November 20, 2008

Abençoado dia de sol
Pássaros que vejo da minha janela
ruidosos e alegres a passear no céu
(até eles me parecem mais leves e soltos, nesse dia)
Nuvens ausentes, tendo levado meus dissabores,
sombras que povoam a minha vida...
Verde das árvores ainda mais verde
(nada de cores esmaecidas)
Impossível não se alegrar, não ter esperança,
festejar tudo de bom que tenha acontecido.
Manhã tão linda, a quem agradeço esse presente?
A Deus, à vida ?...

Cecília
20-11-08

Monday, November 17, 2008

Amor

"O que será: este labirinto de perguntas e resposta alguma, este insistente rugir de pássaros, este abrir as jaulas, soltar o bicho novelo que há em nós, delicado/feroz morder (deixa sangrar) o outro bicho (deixa, deixa) e toda esta parafernália a parecer truque enquanto obsidiante você mente embora acreditando nas mentiras e eu use os piores estratagemas para cobrir-me a retirada desse vicioso campo de batalha."

Olga Savary

Nuvens

Não há uma só coisa que não seja
nuvem. Assim são essas catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo alisa. A Odisséia, veja,
muda como o mar; há algo distinto
a cada vez que a abrimos. Seu velho
rosto já é outro, visto no espelho,
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A volumosa
nuvem que se desmancha no poente
é a nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte em outra rosa.
Você é nuvem, mar, esquecimento.
E é o que perdeu a cada momento.


Jorge Luis Borges

Friday, November 14, 2008

Somos sedentos de amor
O desejo, mesmo imperceptível,
não se extingue
Se refugia nos sonhos...
Neles amamos
Somos amados
Desejados
Quase tudo é possível,
quase tudo acontece
Mas um pouco de nossa censura
interfere
e a realização dos desejos
nunca é completa.
Se quero este ou aquele
é o sonho que revela.
E o que nele não viver
vira pó e o vento leva...

Cecília

14-11-08

Wednesday, October 22, 2008

O Amor é triste

Sim, poeta, o amor é triste, eu também sei...
Se o vivemos com intensidade, doçura, plenamente,
entre belos sentimentos se insinuam dúvida
- difícil viver felicidade – e temor de perda:
melhor se resguardar que tudo passa...

Sim, o Amor é triste...
Às vezes amamos tanto e nem sabemos,
Tão ocupados estamos,
Ou desligados de nossos próprios sentimentos.
Temos Amor, mas não o vivemos

É triste o amor...
Nele cremos, por ele ansiamos
E no entanto sempre nos parece,
que só aos outros acontece, como um prêmio...
Temos o sonho de amar, mas não vivência...

E coincidência no amor ... por que tão rara?
Dá para entender a dor quando ele acaba.
E acaba... pois nada é permanente
E então não somos mais
do que meros, cabisbaixos, sobreviventes...

Cecília

homenagem a Carlos Drummond de Andrade

Tuesday, October 21, 2008

Nuvens

Nuvens no céu
e em meu coração projetadas
Do céu não posso tirá-las
Mas de mim... Será que falta vontade?
Se removo a cortina o que acho?
Por certo uma luz ainda brilha,
é questão de captá-la
e fazê-la atravessar
nuvens chuvas tempestades
até se alojar nos olhos
e depois em outros olhos
daquele a quem chamo ‘amado”...

Enquanto divago
vão-se as nuvens e o céu agora está claro...

Cecília
19-10-08

Monday, October 20, 2008

Consciente Escolha

Reatamos
“Nada foi cortado”, você diria.
Básico
Mas sei que emendamos, refizemos, trabalho árduo...
Recompensa: o sono dos justos, a tranqüilidade
Amor, amizade?
Pouco importa, retomamos a caminhada
e muito bem acompanhados:
filhos, netos, genro, nora, amigos
Segue: trabalho, poesias, cinemas, teatros, companhia;
renovamos a casa, os votos, consciente escolha.
E seguimos juntos, não sem algum esforço,
Transformando irritação em atitude doce,
removendo espinhos e cultivando flores...

Cecília

Belo Belo II

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

Manuel Bandeira

Friday, October 17, 2008

Amando (Canto da Lua)

Não sei viver o amor de forma tranqüila
Me inquietam as ausências, os silêncios, as partidas...
Até os encontros em meio a sobressaltos são vividos:
O susto de amar, de deixar de amar
De ser só fruto de uma fantasia
Ou apenas um momento dentro de uma vida...

O coração vai à boca
e só na solidão me acalmo
e me abandono a este prazer
(o prazer de amar ) que é infinito...
“Canto da Lua ”
É lá que me refugio...

Cecília

Saturday, October 04, 2008

Que é a poesia?

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Eis a diferença entre o poema e demais entes: não olvida a natureza líquida de todas as coisas
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PARA DIZER o que penso ser a poesia, recorro, em primeiro lugar, ao poema "O Rio", de Manuel Bandeira: "Ser como o rio que deflui/ Silencioso dentro da noite./ Não temer as trevas da noite./ Se há estrelas nos céus, refleti-las./ E se os céus se pejam de nuvens,/ Como o rio as nuvens são água,/ Refleti-las também sem mágoa/ Nas profundidades tranqüilas". Desde o título, "O Rio", torna-se inevitável pensar no famoso rio do filósofo grego Heráclito, em que não é possível pisar duas vezes. O primeiro verso reforça essa impressão: "Ser como o rio"... Mas a sentença de Heráclito -aparte certas interpretações recherchées- enfatiza o mobilismo universal, o fato de que coisa nenhuma jamais permanece a mesma. O rio de Bandeira, ao contrário, é em primeiro lugar a própria imagem da constância e até de um certo estoicismo: "Ser como o rio que deflui/ Silencioso dentro da noite./ Não temer as trevas da noite".
O rio a defluir silenciosamente dentro da noite não teme as trevas da noite porque ele é também o rio da noite, isto é, a noite enquanto rio. O infinitivo aqui é implicitamente desiderativo: ele manifesta um desejo. Mas quem é que aqui deseja? Talvez se possa dizer que aquele que deseja é o poeta, ou talvez o "eu" lírico, o heterônimo, o personagem em que o poeta se transforma para escrever o poema; mas o infinitivo excede qualquer subjetividade, qualquer "eu". A rigor, não interessa quem deseja, mas apenas o próprio desejo, que se identifica com o ser. Feito um fenômeno da natureza, feito o próprio rio silencioso dentro da noite e feito a própria noite, o desejo, o ser, os versos do poema e o próprio poema estão lá, no infinitivo, silenciosos como o rio e como a noite. Fundem-se no poema o leitor, o poeta, a noite, o rio, as estrelas: "Se há estrelas nos céus, refleti-las./ E se os céus se pejam de nuvens,/ Como o rio as nuvens são água,/ Refleti-las também sem mágoa / Nas profundidades tranqüilas".
Se há estrelas nos céus, o poema as tem na superfície. Se há nuvens que o impedem de refletir as estrelas, aquelas são refletidas na profundidade do seu ser, pois as nuvens são feitas da mesma água que ele. Aqui é de Tales, o primeiro filósofo grego, para quem tudo vem da água e tudo volta para a água, mais do que de Heráclito, que me lembro.
E me lembro sobretudo do poeta Jorge Luis Borges, para quem, segundo o poema "Nuvens (I)", do qual faço a seguir uma tradução literal, recomendando, porém, veementemente ao leitor que não deixe de consultar o belíssimo original castelhano: "Não haverá uma só coisa que não seja/ uma nuvem. São nuvens as catedrais/ de vasta pedra e bíblicos cristais/ que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia/ que muda como o mar. Algo há distinto/ cada vez que a abrimos. O reflexo/ de tua cara já é outro no espelho/ e o dia é um duvidoso labirinto./ Somos os que se vão. A numerosa/ nuvem que se desfaz no poente/ é nossa imagem. Incessantemente/ a rosa se converte noutra rosa./ És nuvem, és mar, és olvido./ És também aquilo que perdeste".
As nuvens são as transformações da água originária, isto é, são todos os entes que o tempo aplanará. Também são nuvens os versos do poema de Homero. Há entretanto uma diferença: os entes em geral perderam a memória de sua origem aquática e se esqueceram de que são nuvens. A "Odisséia", porém -o poema por excelência-, muda como o mar. Algo há distinto cada vez que a abrimos. Eis a diferença entre o poema e os demais entes: o poema jamais olvida, no fluxo de sua superfície significante, morfológica, sintática, melódica, rítmica e de suas submersas correntes semânticas, a natureza líquida de todas as coisas e, principalmente, de si próprio.
Lembro que outro dos primeiros filósofos gregos, Anaximandro, dizia que todos os entes determinados provêm do indeterminado (que ele chamava "ápeiron") e têm como causa o indeterminado -que podemos entender como o movimento, a mudança, a vida, o tempo- do qual provêm. Em cada um deles, porém, o indeterminado se transformou em algum ente determinado. Também o poema é um ente determinado, mas um ente determinado que, refletindo o seu oposto, porta em si a marca d'água do movimento originário. Não apenas, cada vez que o lemos, ele se torna diferente do que era na leitura anterior, mas se torna diferente de si próprio no exato instante em que o estamos a ler. Chamo "poesia" essa propriedade do poema.


Antonio Cicero

Saturday, September 27, 2008

Curtas

As palavras fogem
assustadas com o encargo de traduzir
a complexidade do que vai na alma...

No sonho, a transparência
que a realidade obstrui, veda
Muda o olhar, o desejo é contido
E tudo continua igual
como se nada tivesse acontecido...

Afinidade, consonância, harmonia
Palavras que definem o que sentimos.
Hoje, sua dor, sendo a minha,
só um ansiado abraço aliviaria...

Abraço que traduz muito mais que um beijo:
encontro, apreço, apoio, apego, aconchego...

Como num jogo, dançam as palavras se escolhendo
se juntando
...ou se dispersando, repelindo,
movidas pela harmonia, significado ou rima...

Você:
Escolha da alma, sem qualquer interferência
Resvalando num sonho, inconseqüente...

Cecília

Thursday, September 25, 2008

Andréa, Dedé para todos

Vinte e sete anos eu tinha.

Hoje em dia diriam: “É uma criança!”

Atualmente as meninas casam-se mais tarde mas naquele tempo, há 40 anos, casávamos cedo e logo pensávamos em filhos. E foi assim que eu fiz...

Aos 26 anos eu já tinha 2 filhas: a Patrícia com 2 anos e meio e a Daniela com 9 meses.

As duas lindas, espertas e inteligentes alegravam e ocupavam os meus dias.

Em agosto ou setembro de 1975 veio mais uma surpresa: outra gravidez.

Que alegria! Apesar de não programada...

A gestação correu maravilhosamente bem, sem problemas, assim como foram as anteriores. Sem os modernos aparelhos de ultrassonografia não se percebeu que eram 2 bebês o que só foi visto 15 dias antes do parto.

Alegria dobrada, saímos à correria para comprar outro enxoval, outro berço, outro tudo.

10 de maio de 1976 nasceram Persinho e Andrea, duas lindas crianças que viriam completar meu time de quatro filhos, sempre desejado.

Os dias se passavam e era inevitável a comparação entre os gêmeos e as infinitas perguntas sem resposta.

“- Por que o Persinho sustenta a cabecinha e Dedé ainda não?”

“- Por que um já sabe sentar-se o outro não?”

E por aí sucederam-se milhões de dúvidas...

Um dia perguntei ao médico dela o que seria da minha filha no futuro. A resposta foi imediata: “- Eu não sei o que vai ser dos meus filhos, como saber da sua?”

Bem, não adianta ficar perguntando. Sempre fui uma pessoa ativa, decidida e disposta a enfrentar qualquer batalha e aí vinha uma daquelas...

Meus dias alternavam-se entre buscar um diagnóstico e independente de tê-lo, fazer terapias.

Com a ajuda da Andrea, sempre disposta, fomos caminhando pelas diversas formas de atividades: fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, natação, reorganização neurológica, equoterapia, enfim, tudo o que nos era sugerido.

Dedé começou a andar com 3 anos e aos 4, entrou na primeira escola (sempre optei por escolas especializadas). Mesmo antes de aprender a falar, o que aconteceu aos 5 anos, as professoras iam ensinando-lhe as letras e números. Assim, bem lentamente, ela foi aprendendo a construir frases na fala e na escrita, simultâneamente.

Quando eu percebia que o assunto estava esgotado numa escola, mudava para outra. Rotina não podia existir na vida de Dedé. Tudo tinha de ser mudado periodicamente para haver motivação. Eu percebia que a cada mudança acontecia um salto na evolução da minha pequena.

De escola em escola, acabamos conhecendo o PTI que foi o grande salto na vida dela. Aqui ela amadureceu, encontrou amigos que a compreendem, namorados e professores que lhe dão carinho, atenção e a orientam para uma vida profissional, já que esse era um grande sonho pois a colocava em pé de igualdade com os irmãos já bem sucedidos profissionalmente.

Com a persistência da Carmen Lydia em incluir os alunos do PTI na lei 8.213, “Lei de Cotas” e no projeto “SOMAR”, a Andrea acabou sendo uma das escolhidas para fazer entrevista no Citibank.

Toda arrumadinha, lá foi ela como uma verdadeira executiva, fazer testes e mais testes. Para a alegria dela, da família e dos professores, ela foi aprovada e desde dezembro de 2007 é uma respeitada e competente funcionária do Citibank.

Mas a busca pelo diagnóstico continuou e numa segunda feira, dia 18 de agosto de 200 graças ao avanço da tecnologia e às pesquisas do Instituto de Genética da USP conseguimos o que tanto queríamos: “a Andrea é portadora de uma síndrome chamada MONOSSOMIA 1P36”. É um acidente genético, que só foi identificado pelos cientistas em 1999 ou começo de 2000. O caso dela é bem leve e ao estudarmos a síndrome, percebemos que tudo o que deveria ter sido feito na infância, juventude e adolescência, foi exatamente o que fizemos. Para o futuro, também nada mudará.

Hoje, com 32 anos, Dedé superou todos os seus limites e desafios. É feliz e realizada. E eu, como mãe, mais ainda...

Selma Deluca
As lágrimas desceram lavando a alma
precisada de faxina
Agora que a solidão faça a sua parte

Amor:
Quantas vezes empreguei essa palavra em vão?

Parto
Se pudesse para sempre em direção às coisas que vivi e amei

Meu passado só existe em minha memória
Fatos compartilhados têm diferentes visões, versões e envolvimentos
Portanto :
Meu passado só a mim pertence

Ninguém roubou os meus sonhos
Eu mesma os abortei


Uma porta se fechou bem à minha frente
Ocultando tudo o que na vida vale a pena...


Hoje não me importa o isolamento
Bastam-me um teclado, uma tela, meus poemas...

Sua presença me machuca, me inquieta
Deixe-me sozinha com os meus pensamentos...

Declaração: cada vez te amo mais, minha irmã.
Enquanto tivermos uma à outra,
jamais estaremos completamente sozinhas...

Posso abrir mão de tudo
Menos da minha dose homeopática de ginástica, alegria
... e poesia


Cecília

Pássaro sem asas

Noites escuras,
fundas, fundas,
profundas.

A escuridão tem o encanto
de aproximar ruídos longínquos
e aumentar os pequenos.

Choveu,
me encharco.

Minha memória
recua, recua
até encontrar minha alma de menino.
( A escuridão
se presta para isso.)

Sou um pássaro sem asas
e não caio
porque me seguro no ar.

Humberto Ak'abal

Saturday, September 13, 2008

A jangada

Te vejo
Linda, simples, vela estirada pelo vento,
exibindo singelo desenho: mulher em vermelho.
É teu descanso e na praia permaneces.
Cheiras a mar, madeira, suor dos homens que te manejam.
Te abres para mim e me surpreendo com o exíguo espaço
em que descansam teus marinheiros:
tosco, suficiente apenas para um sono rápido
antes da volta ao trabalho, a busca pelo peixe
-de vigília fica sempre um jangadeiro
a zelar pelo sono dos companheiros.
Descansam confiantes,
pois já leram o céu, as nuvens e as estrelas.
Depois é revezar, voltar a pescar,
reparar, remendar, trabalho árduo, solidário,
protegido pela reza das namoradas ou companheiras.
Sei que quando chegam e os peixes descarregam
agradecem a Deus a sobrevivência,
a boa pesca, e o seu quinhão nas vendas,
pois a jangada, com amor guiada mar adentro
quase sempre não lhes pertence...

Fim de tarde,
Vela com destreza enrolada,
Mãos rudes, pele maltratada
Não sei o que mais me toca
Se o pescador ou a jangada...

Cecília

Friday, September 12, 2008

Promessa

Leves, alegres, hoje atraímos o belo,
o luminoso, o que dá sentido à vida.
Sorrimos e, como reflexo,
rostos à nossa volta estampam
sorrisos de simpatia, compreensão e afeto.
O coração, mais enternecido,
se desdobra então em sentimentos puros;
e se não dá para de imediato endireitar o mundo,
que amostra, que promessa, nesta manhã de sol,
em que lépidos e leves estamos juntos...

Cecília

Thursday, September 04, 2008

Movimento

Ando para a frente,
para os lados,
para dentro
em direção ao meu centro.

Ando às vezes distraidamente;
outras, tão concentrada,
que nem sinto o passar do tempo.
E então me sinto espoliada...

Ando também em círculo,
para preservar meu espaço,
como animal, a vigiar sua caça...

Ando mesmo, quando penso estar parada.
O tempo passa, me arrasta,
e o espelho mostra um certo ar de cansaço,
pois estafante é a caminhada,
mesmo se tudo se mostra favorável.

Cansa o corpo, cansa a alma,
ainda mais, se houver intensidade.
Mas não param ( corpo e alma )
pois ali na frente,
parece estar sempre a Felicidade,
ou simplesmente,
uma nova e estimulante fase...


Para Dr. Luís e Eleonora

Cecilia

A empregada

A casa parecia pequena, mas enganava - o terreno era estreito, mas comprido - e ela se estendia quase até o muro dos fundos. Tínhamos escritório, sala de música, de jantar e três quartos, um dos quais não era ocupado, pois ficava um tanto isolado, depois da copa, banheiro e cozinha. Localizava-se num bairro privilegiado, rodeada de casas bonitas, perto de uma praça e do Ginásio. Alegrava-a um pequeno jardim e o céu sempre claro da cidade; também o movimento da família, as músicas ouvidas no rádio, o som do piano, as escalas. Além da família circulava pela casa uma empregada, ajudando minha mãe, sempre atarefada. Meu irmão pequeno, o Fábio, ainda dava muito trabalho.
Tinha eu naquela época cerca de dez anos e minha irmã mais velha doze e começávamos a perceber as diferenças de classe. Os adultos trabalhavam, nós crianças estudávamos, mas parece que tínhamos retorno: futuro, bens, conforto, o que não era o caso das empregadas. Lembro que mamãe era exigente, as substituía com freqüência e assim elas iam passando. Com o tempo, rostos e identidades apagados.
Assim foi com uma delas, que se empregou, pedindo para ocupar o quarto dos fundos, pois sua família residia num sítio distante da cidade. Como era jovem e tinha namorado, lhe foi permitido sair à noite, mediante a condição de ser silenciosa e não voltar muito tarde (meu irmão tinha sono leve, e qualquer ruído o acordava). Ela respeitou o trato.Mesmo assim, todas as noites eu e minha irmã Helina ouvíamos os seus passos no corredor externo e o girar da chave.
Uma manhã, bem cedinho, fui até seu quarto - não me lembro o motivo: só sei que todos ainda dormiam - e deparei com uma cena inesquecível, que muito me perturbou: na cama bem junto dela, aconchegada, havia uma criança, provavelmente da idade do meu irmão pequeno. Pega de surpresa, a moça me olhou com olhos assustados, mas não disse e não me pediu nada. Eu também nada falei e saí rápido, fugindo do constrangimento e sentindo muita pena. Apesar da pouca idade, compreendi instantaneamente suas saídas e o que aquela criança significava.
Naquela época havia muito preconceito em relação às mães-solteiras e às empregadas - seus defeitos eram o assunto predileto das comadres.
Guardei segredo do que vira, pensando na criança e na mãe que ternamente a abraçava, na minha própria mãe e no Fábio. Sentia que a ninguém traía, afinal havia em casa aquele quarto desocupado.
Hoje vejo que em meu longo silêncio, quase até os dias de hoje, havia não somente pena, mas também pudor: não queria mostrar generosidade à custa da coitada...

Cecilia

Thursday, August 21, 2008

Levando...

Há um quê de tristeza no meu canto,
na minha solitária dança.

Há um quê de espanto ante este imutável
cotidiano.

Parece que da última vez, já se passaram anos.

De você, esperava tanto...
Troca, aceitação, confiança.

Como nos escravizamos,
ou nos deixamos escravizar.
E mais fundo mergulhamos
até a luz do sol não mais enxergar.
E assim a sagrada vida atravessamos,
sem sustos, desafios, e sem mudanças,
pois acima de tudo respeitamos:
os outros, nós mesmos, nossos limites.
Até nos enganamos, nos convencendo
de que há outra chance: outra vida,
novo par, uma outra dança...

Cecília

Wednesday, August 13, 2008

Não merecemos nos intitular artistas:
ignoramos o valor daquele brilho em nosso espírito
Não merecemos nos considerar poetas:
nossos versos têm quimeras, não têm entrega.
Somos tão cheios de reservas...
Somos falsos poetas.
Não buscamos plenitude, completude
Passamos incólumes por este deserto
Ignoramos sede e fome:
de viver - sabes o que eu quero dizer.
E vivemos tão bem aqui, plantados no chão.
E que se dane a paixão...

Cecília

De flores e bonecas de louça...

Meu piano está mudo,
também não escuto a voz do meu coração.
Ignoro meu lado sensual e mouro,
sou só boneca de louça vazia de desejo e emoção.

Triste, procuro para mim uma outra imagem
e sou agora flor única, rosa solitária,
só em outra árvore encontrando a alma irmã.
De resto, sou admirada por meu tom suave,
não me foi dado o vermelho intenso da paixão.
Tento por você manter o frescor, a luminosidade,
ainda que só para preencher um sonho, uma idealização...


Cecília

Tudo

Tudo
Palavra - veludo
Que intriga
Assusta
Despe meu pensamento
Sugere caminhos
Tomada de consciência
Tudo
Que vence,
engana censura
Auto-censura
Amor maduro


Tudo
Agora tão transparente
Busca de transcendência
Envolvimento
Pleno....

Cecília

Liberdade

O poema é
A liberdade


Um poema não se programa
porém a disciplina
- sílaba por sílaba-
o acompanha


Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos

Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, August 09, 2008

Não fomos amantes
Não nos perdemos em beijos e abraços apaixonados.
Não nos sentimos fragmentados se distantes.

Não fomos amigos
Faltou cumplicidade, apoio, carinho,
quando pedras interceptaram nosso caminho.

Não fomos companheiros
Não desfrutamos juntos de uma hora inteira.

O que fomos senão necessária fantasia
matéria para a criação de um quadro ou de uma poesia.

Alma sem rosto, que a memória apaga,
tão rápida a passagem, vazia de significado.
Só uma valsa em sonho juntos dançada.

Cecília

Friday, August 08, 2008

O círculo em torno de mim se fecha,
mas não deixo que a angústia me alcance.
Abro para a vida uma outra janela,
para que entrem a luz, a alegria e a esperança.

Entra também o amor de contrabando,
no coração e na alma se instalando.
Bendita hora em que abri aquela fresta,
com a tristeza e a escuridão não me conformando.

Rompido o cerco, vejo preservada minha chama,
no meu e em seu amor se alimentando.
Então rio, brinco, canto, danço,
abro caminhos, sou novamente alegre viajante.

Cecília

Tuesday, August 05, 2008

Quero com você subir e descer as ladeiras da minha cidade,
sentar ao seu lado naquele banco, na praça.
Passar pelo colégio, pelo cinema, pela farmácia.
Resgatar aquela alegria juvenil,
aquele amor nascente, adolescente,
não entendido, talvez até invejado.
Rever paisagens, tantas vezes congeladas em quadros,
de um pintor pela vida apaixonado.
Descobrir o lugar, onde você morava,
imaginar seus primeiros desenhos, seu quarto,
e aquela escultura no clube, que nem conheço,
e da qual tanto me orgulho.
E admitir que me importo,
que lhe abro minha porta,
que o guardo na memória,
mais que isso, na alma, agora...

Cecília

Procura-se

Alegria perdida,
motivação para a vida,
brilho, que em meus olhos vivia,
sorrisos, risos, sorrisos.

Chama que na alma ardia,
desejos, que nada escondia,
que nas faces coradas se via,
no andar, no dançar,
no ato de escrever poesias.

De que se nutria a alegria?
Talvez só de fantasia;
de qualquer forma existia,
e tantas montanhas movia...

Cecília Quadros

Monday, August 04, 2008

Homenagem ao amigo

Rua Dona Carolina, 88


Vi passar todos os circos do mundo
pela minha janela.
Do outro lado do rio, eles vomitavam pregões
e exalavam músicas.
Naquele mundo de sonho e ilusão,
conheci também o vento, que carregava para outros
cantos, os sons que entravam pela minha janela.

Elvio Santiago ( EAS)

Sunday, August 03, 2008

Não deveria ficar nada...
Ilusão não mata
Nem faz tanto estrago
Nada que um gesto leve não afaste

Fantasias são breves...leves...
Chegam, afagam,
Inspiram às vezes versos
E partem

Outras vêm, burlam vigilância,
Cuidado.
Pegam a alma desavisada,
Entediada
E se instalam,
Dando uma falsa sensação
De perene felicidade.
Mas são volúveis, frágeis
E como nuvens se esvaem...

Não era para ter ficado.... nada...

Cecília

Saturday, August 02, 2008

"Rituais" de Paulo Bomfim e Dudu Santos

Exercício com ilustrações de Dudu Santos


1. Nudez: corpo e alma se mostram: você inteira

2. Movimento: graça instintiva, distraída, inconsciente...

3. O corpo fala e o pincel capta...

4. Contornos: tua beleza captada em rápidas pinceladas

5. Você, sugerida...adivinhada

6. Costas: linha perfeita, apoio para teus negros cabelos


7. Vento: te despenteia e me desmorona...

8. Pernas coxas nádegas... Deslumbrado, faço teu retrato...

9. Poucos traços e do nada surge a mulher dominando o universo do artista

10. Em você a casa, o abrigo, o mundo...

11. Na noite escura, destaca-se a brancura do teu corpo: neve, nuvem..

12. Jogas para trás os ombros e o movimento de teus cabelos me derruba: tombo

13. Assim de lado... meia paisagem me fascina, engole, traga

14. Mãos finas, femininas, de tua beleza só mais um item

15. Teu movimento me prende e juntos somos uma só emoção

16. Traço as linhas do teu corpo e o meu destino...

17. Mora a poesia no teu corpo alvo, saindo de total negrume




18. Preto e branco: obsessão, loucura.

19. Amazona, cavalgas o meu destino...

20. Te reverencio A quem o fazes?

21. Pés: fetiche, mais coxas... tudo...

22. De costas.. de frente... tema permanente...

23. Aberta para o amor e para a vida...

24. Teu corpo: meu pincel já te conhece. Corre sozinho...

25. Tua fragilidade captada. E o louco desejo de ampará-la...

26. Sentada: teu corpo à vista e o olhar adivinhado...

27. Tuas mãos... teus gestos...e meu olhar interrogativo...

28. Braços dobrados, dobrando meu coração

29. Nua... noite... minha...

30. Te insinuas, natural e nua na minha arte, na minha vida..

31. “Índia”... graça trocada entre amantes...

32. Curvas desenham teu corpo. Retos só teus cabelos negros

33. Plenitude

34. Assim pensando, encantas e embaralhas meus pensamentos...

35. Musa... te sei de cor. Rápido é o traço, independente, fácil...



36. Sensualidade: eis aqui o teu retrato...

37. Sombras se desfazem para tua passagem..

38. Recorrente o tema, a imagem se simplifica

39. Teu corpo fala de promessas e alegrias...

40. Ressalto tua beleza em fundo escuro...

41. Bastam alguns traços e eis que surge a mais sonhada das paisagens...

42. Com um traço faço a sua boca, que fechada me intriga e guarda

43. Na intimidade, a vivência plena de um amor sem fim...

44. Em ti o resumo de todas as mulheres... de todos os amores...

45. O pincel acaricia a página, enquanto faz o caminho das tuas curvas.

46. Te refaço...te recrio... na tela te aprisiono...

47. Na tela teu corpo exposto. A alma?... privilégio de poucos.

48. Exercício, fixação... tua imagem em pastel, nanquim ou carvão...

49. Alguns traços revelam, outros escondem: puro jogo do inconsciente

50. Amor, não excluas meu olhar obsessivo, a poesia, o traço.

51. Você, sugerida... adivinhada...

Cecília

Vovó Olga dizia tudo isso e muito mais...

CARLOS HEITOR CONY

Verdades verdadeiras


RIO DE JANEIRO - Tristezas não pagam dívidas. Não adianta chorar sobre o leite derramado. Mais vale um pássaro na mão que dois voando. Diga-me com quem andas e te direi quem és. O homem é aquilo que come. A cavalo dado não se olha a boca. Um é pouco, dois é bom, três é demais. Quem pariu Mateus que o embale.Não se faz omelete sem quebrar ovos. Quem parte e reparte fica com a maior parte. Tudo como dantes no quartel de Abrantes. Vai-se o anel, mas ficam os dedos. De grão em grão a galinha enche o papo. Cão que ladra não morde. Devagar se vai ao longe. Apressado come cru. Deus ajuda a quem cedo madruga. Ri melhor quem ri por último.Quem dá esmola empresta a Deus. Águas passadas não movem moinho. Paris vale uma missa. Quem tem boca vai a Roma. Todos os caminhos levam a Roma. Roma não foi feita num dia. Os rios correm para o mar. Cavalo não sobe escada. Na terra de cegos quem tem um olho é rei. Mais vale um marido vivo do que um herói morto.Partir é morrer um pouco. Escreveu não leu, o pau comeu. Dinheiro não traz felicidade. Nada melhor do que um dia depois de outro, com uma noite no meio. Perdão foi feito pra gente pedir. Macaco, olha o teu rabo. Matou a cobra e mostrou o pau. Depois de velho, o diabo se fez monge. O peixe morre pela boca. Quem tudo quer tudo perde. Esperança é a última que morre.O inferno são os outros. Em boca fechada não entra mosquito. O bom cabrito não berra. Quem vai para a chuva é para se molhar. O bom filho à casa torna. De poeta e louco todos temos um pouco. Fiado só amanhã. Galinha velha dá bom caldo. Depois da tempestade vem a bonança. Depois da bonança vem a tempestade. Boa romaria faz quem em casa fica em paz. A mentira tem pernas curtas. Antes dos grampos, só as paredes tinham ouvidos.

Só não falava de grampos...

Cecília