Tuesday, March 22, 2011

Uma crítica do ótimo "Cópia Fiel"

“Cópia Fiel” mostra a natureza instável do amor
17/3/2011 10:32, Redação, com Reuters - de São Paulo

Melhor atriz no Festival de Cannes 2010, Juliette Binoche resplandece em Cópia Fiel, novo filme do diretor iraniano Abbas Kiarostami. Refletindo uma preocupação presente ao longo da própria obra de Kiarostami e de outros cineastas iranianos, bem como particularmente num trabalho recente do brasileiro Eduardo Coutinho (Jogo de Cena), Cópia Fiel constroi um admirável jogo de verdades e mentiras de um casal, formado por Juliette Binoche e o cantor lírico britânico William Shimell, estreando no cinema.

A verdadeira natureza do relacionamento destes dois é uma das chaves da descoberta da história, cheia de camadas, climas e evocações. Filmado em belíssimos cenários da Toscana, o filme é uma joia intimista, pulsante nos rostos de seus atores e em que o uso do discurso amoroso – oscilando entre o inglês, o francês e o italiano – é movido pelas chamas, ora amortecidas, ora vibrantes, da maturidade.

Nas primeiras cenas, vê-se o escritor James Miller (Shimell) chegando a uma cidadezinha italiana para uma palestra sobre seu novo livro sobre arte, que se chama justamente Cópia Fiel. A partir de detalhes aparentemente banais, evidencia-se um dos temas do filme, sobre as contínuas interrupções do discurso, qualquer que seja. Como quando a apresentação de Miller é interrompida pelo toque de seu próprio celular e pela entrada de uma espectadora atrasada (Juliette Binoche) e seu filho (Adrian Moore).

O fato de que ela se senta entre os lugares reservados na plateia e que cochiche com o tradutor do livro, ao seu lado, parece evidenciar que ela é íntima do escritor. Mais tarde, uma conversa com o filho dá a pista de que, na verdade, ela procura essa intimidade. Quando Miller e ela finalmente se encontram, na loja de antiguidades dela, eles parecem na verdade estranhos que podem ou não querer se conhecer.

Sem querer estragar o jogo da narrativa, o relacionamento entre os dois atravessa vários climas, da tentativa de sedução ao compartilhamento de lembranças e sensações. É como se estes dois tivessem vivido algumas vidas diferentes e, em algumas, se encontrado, noutras, se perdido – sem que isso acarrete nada de sobrenatural, apenas experiências diversas ao longo dos anos.

Além da natureza instável do amor, Cópia Fiel toca outros temas – o primeiro deles, o que dá nome à obra, em torno da importância da discussão sobre o que é autêntico ou falsificado, e o valor, relativo ou absoluto, das muitas cópias encontradas no mundo da arte.

Nesta discussão, é envolvido inclusive um casal de passagem, (o famoso roteirista Jean-Claude Carrière e Agathe Natanson). Justamente quando procura engajá-los a favor de seus argumentos, a protagonista encontra no passante ocasional um intérprete ideal do que está, emocionalmente, tentando dizer a Miller – sem que este a entenda, independentemente da língua que ela fale.

Essas várias línguas que se sobrepõem são o símbolo vivo das várias camadas de incompreensão que podem se acumular entre as pessoas nesta Babel que não é só linguística, mas sobretudo emocional e amorosa. Os vários casais que aparecem no filme – os jovens noivos apaixonados que se sucedem para uma foto junto a uma estátua tida como portadora de sorte; o par maduro que conduz o filme; e uma dupla de velhinhos que eles encontram perto do final – todos se somam como retratos dos vários tempos do amor.

Essa maneira circular de expor seu tema é o grande segredo da magia do filme, que demonstra o engenho raro de sua direção e de sua dupla principal de atores, conduzindo-se esta espiral de sensações com inteligência e sutileza exemplares. Não é o tipo do filme que se vê todos os dias. Mas é certamente o tipo que se deseja imediatamente rever.

Wednesday, February 23, 2011

Será?

LUIZ FELIPE PONDÉ

"Femmes aux hommes"


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Mulher não gosta de covarde, mesmo que seja covarde em nome dos "direitos femininos"
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MUITAS LEITORAS se queixam de que nunca falo sobre os males masculinos. Hoje, vou pagar uma parte desta dívida. Como todo homem que gosta de mulher, sou um escravo do desejo de deixá-las felizes. Que inferno...
Recentemente, numa entrevista, uma jornalista me perguntou se acredito que os homens tenham medo de mulheres inteligentes. E também o que seria mais importante numa mulher, beleza ou inteligência.
Antes de tudo, um reparo. Neste assunto, não consulte as feministas porque elas não entendem nada de mulher. Tampouco pergunte aos homens que chamam as mulheres de "vítimas sociais", porque são frouxos. Pobres diabos: mulher não gosta de covarde, mesmo que seja covarde em nome dos "direitos femininos".
A segunda pergunta (o que é mais importante numa mulher, a inteligência ou a beleza?) é fácil: a beleza vem em primeiro lugar, nunca a inteligência. Quando um homem disser pra você que ele prefere mulheres inteligentes, ele quer te pegar. Ou, pior, ele tem medo do patrulhamento das feias e das chatas, que no Brasil, graças às deusas, não crescem em número porque as mulheres brasileiras são como dizem os franceses "femmes aux hommes" (mulheres para os homens).
Por que é necessário ter coragem pra dizer que a inteligência feminina não é erotizada pelos homens? Ora bolas, porque atualmente falar para as mulheres que inteligência vale mais do que a beleza é um "dever de todo cidadão".
Uma mulher poderá fazer uma queixa contra você na delegacia da mulher caso você não diga para ela que inteligência numa mulher é fundamental. Não se engane: inteligência nunca é fundamental. Mas, não exagere para o outro lado: as burrinhas enchem o saco depois de duas horas de sexo.
Quanto à primeira questão (os homens têm medo de mulheres inteligentes?), a resposta é simples: sim, sempre; só os mentirosos e medrosos negam este fato. Melhor dizendo, o homem sempre tem medo da mulher, principalmente quando está interessado nela.
Segundo os darwinistas, esta seria uma característica atávica, desde a savana africana. Medo da infidelidade, medo da impotência, medo do ridículo.
Mas há sutilezas nisso tudo. O homem prefere a beleza, mas num relacionamento de longo investimento, outras característica pesam, às vezes, mais do que a beleza pura e simples. Por exemplo, evidências de que ela seja fiel, boa mãe para seus futuros filhos, generosa, doce (coisa rara em mulheres excessivamente competitivas, como é comum em cidades do tipo São Paulo, mas menos comum em outras regiões, como Minas Gerais ou Nordeste onde elas são mais "sorridentes").
Beleza demais pode dar medo quando ela é sua mulher. Garanhões costumam rondar mulheres bonitas demais. Se você só quer "pousar de poderoso" com uma gostosa, tudo bem, mas se quiser viver com ela, aí a coisa pega. Para pilotar um Boeing você tem que ser competente em muita coisa, e nem sempre dá, num cenário violento e volátil como o mundo contemporâneo, onde as mulheres têm mais opção de escolha afetiva e profissional.
Por que, muitas vezes, é tão difícil para as mulheres aceitarem que a inteligência numa mulher não seja essencial? Porque, ao contrário dos homens (esses seres primitivos, insensíveis e promíscuos... risadas...), as mulheres erotizam a inteligência no homem, às vezes, mais do que a beleza pura e simples.
Eu arriscaria dizer que a inteligência quando associada à coragem (virilidade) pode ser um afrodisíaco imbatível para as mulheres numa noite de calor.
Resumo da ópera: a inteligência numa mulher é um risco interno à relação porque o homem pode se sentir "menor" do que ela.
Já a beleza feminina é sempre um risco externo porque o cara sente medo de perdê-la porque sabe como os outros caras pensam.
Já a inteligência num homem nunca é um risco interno à relação porque as mulheres dão nó em qualquer homem. Mas, é sempre um risco externo porque as mulheres sabem como suas parceiras pensam: se, além da inteligência, o cara tiver "atitude" (a soma disso dá em charme), aí, meu bem, se prepare para a cobiça de suas amigas.

A experiência que eu tenho lhe dá razão... (Cecília)

Thursday, February 10, 2011

Escrevendo simplesmente...

Bem-estar presente (a que devo)

Um lexapro... e mais meio
Grupo de amigos
Duas amigas mais íntimas
Filhos de longe dando força
Duas cachorrinhas a fazer companhia
Um objetivo alcançado,
outros ao seu tempo definidos
Olhar, portanto, à frente
e mais importante:
reconhecimento do bem–estar presente
Um pensamento amoroso
( não mais que isso para não perturbar a mente)
Vontade de escrever, criar, aprender
Amor às meninas
Regozijo pela volta do amigo,
Movimento
Esforço para vencer meus medos
Propósito de viver cada dia plenamente
do alvorecer ao anoitecer
... e de aprender com a noite
que iluminamos para prorrogar o dia,
mas que é perfeita em si mesma,
favorecendo a contemplação, o descanso
e uma certa inquietação de alma,
necessária para nos reconhecermos únicos,
donos das nossas vivências, emoções e pensamentos.
Valorização do tempo
(com ele, passamos, como os que nos antecederam),
evitando frustração, se não vejo na vida maior sentido...

Cecília (09-02-11)

Thursday, February 03, 2011

Vou retocando a poesia,
quem dera a vida...
Corto, acrescento,
mudo o que não gosto
Filosofo
E ela fica quase como eu queria,
entregando o que penso, sinto
fechando, agora sim,
com a minha assinatura, data,
peça acabada
transparente, clara...


Cecília

02-02-11

Friday, January 07, 2011

Pequeno mundo

Na imensidão de tudo o que existe
um pequeno ser se move
num espaço também mínimo.
É um ponto quase invisível
feito de intensidade, contradições,
deslumbramentos e medos,
descobertas, reformulações e criações.
Ciente de sua transitoriedade,
tenta deixar marcas de sua passagem.
Para isso procura se superar,
deixar descendência,
fazer brilhar a sua luz,
propagar energia,
que tira da alma, da inteligência e do corpo que as abriga...
Olhando para si, se percebe um mundo
tão complexo como o outro maior em que vive,
sendo dele quase o reflexo ...
E então se conforma com a brevidade da sua existência,
com a essência transitória de todas as coisas...
E passa... levando consigo
... um obstinado flerte com a eternidade...

Cecília

Wednesday, December 15, 2010

Susto
De amar e não ser amada
De deixar a vida passar em branco
De nada realizar
De ser diferente
Ter um destino diferente
E não aceitá-lo,
Não compreendê-lo
Medo
De ser deixada às traças
De a ninguém agradar
De ficar só
Eternamente
De me sentir tão só
Que a minha dor pareça única, total, incurável,
Incomunicável
Medo,
Que me faz seguir caminhos que não quero
Que parece não me deixar escolha
A não ser fingir ser outra pessoa
Mais aberta, mais solta
Mais firme em suas escolhas,
Tudo entendendo:
O que passou, o que se passa agora;
Dona do futuro, da própria vida,
um ser livre, em paz, vivendo conscientemente...

Cecília

Para tantas pessoas, frágeis em sua humanidade...


15-06-09

Sunday, December 12, 2010

Gênesis

Fernanda Torres

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Mann criou segunda Bíblia para entender a primeira, enquanto Robert Crumb idolatra as mulheres
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O FUNDO do poço já rendeu uma canção belíssima de Caetano Veloso, mas, de todas as obras baseadas em narrativas bíblicas, nenhuma alcança a profundidade de "José e Seus Irmãos".
A saga da família de Jacó, narrada de maneira seca e objetiva no livro sagrado, se transforma, nas mãos do alemão Thomas Mann, em três volumes fartos e detalhados a respeito dos sentimentos de pastores do Crescente Fértil e de faraós do Egito.
"José e Seus Irmãos" abre os trabalhos com uma parábola a respeito do milagre da encarnação e de como a força amalgamadora do amor uniu a carne ao espírito.
Mann, fiel ao prólogo, faz do amor o norte de sua criação, seja na paixão de Jacó por Raquel, que o leva a 14 anos de servidão a Labão, seja na predileção de Jacó por José, primogênito tardio de Raquel, ou na inveja dos irmãos de José, filhos das outras mulheres de Jacó.
Mann segue rigidamente o argumento sagrado, enquanto preenche de alma a carne enxuta das escrituras. As razões íntimas dos personagens, inexistentes no original, desabrocham na sua releitura, é de enlouquecer de tão belo. "José e Seus Irmãos" é leitura obrigatória, uma segunda Bíblia para entender a primeira.
Recentemente, dei cabo do "Gênesis" do artista americano Robert Crumb. Crumb, ao contrário de Mann, não acrescenta nem uma vírgula ao texto bíblico; é através da volúpia de seus traços que a carnalidade da obra se revela ao leitor.
As coxas grossas, as bundas duras e os bicos tesos dos peitos fartos de Crumb parecem ter nascido para ilustrar a ânsia dos hebreus de fazer valer as palavras de Deus: crescei e multiplicai-vos!
Os homens se deitam como touros com suas esposas, concubinas e escravas; para a atingir o mesmo fim, as mulheres se valem das mais impensáveis artimanhas. Um bom exemplo é o das duas filhas de Ló, sobreviventes de Sodoma e Gomorra, que embriagam o próprio pai e emprenham do progenitor para servir aos desígnios de Deus. Que mal há no incesto diante da ordem suprema de fundar uma nação populosa? O resultado é uma fornicação furiosa que faria ruborizar a mais liberta das devassas e deliciar o mais blasfemo dos cartunistas.
Crumb idolatra as mulheres. Se o amor foi o ponto de partida de Mann, o matriarcado velado da Bíblia foi a pedra fundamental da obra de Crumb. O americano se serviu de um livro chamado "Sarah, the Priestness", de Sevina Teubal, para compreender passagens obscuras para a moral de um ocidental hoje.
Como explicar que o nômade Abraão ofereça a própria mulher aos chefes poderosos de cada cidade que visite, dizendo se tratar de sua irmã? Seria Abraão o primeiro cafetão da história? E como entender o comportamento de Tamar, viúva de Er, filho de Judá, que, ao não ser dada como mulher ao cunhado, se vestiu de prostituta para ser possuída pelo sogro? A resposta estaria, segundo Sevina, em resquícios de um matriarcado ainda latente 3.000 anos antes de Cristo.
Talvez a crença de que o matriarcado seria uma versão mais humana do belicoso patriarcado tenha fundamento. Pode ser que a ideia de posse não fosse tão importante em uma sociedade dominada pelas mulheres. Depois de tantos anos de vitória masculina, é difícil projetar o que teria sido feito de nós se o matriarcado tivesse vingado.
Minhas ilusões a respeito da doce dominação feminina foram por água abaixo no dia em que assisti a um documentário sobre o comportamento das hienas. As fêmeas são o sexo forte nessa sociedade animal. A brutalidade e a feroz virilidade masculina cedem seu posto a uma hierarquia libidinosa, baseada em dominação por servidão lingual. As mais fortes tem a genitália lambida pelas mais fracas, até chegar a uma pobre hiena que satisfaz a todas e não é satisfeita por ninguém.
Dá o que pensar... Seríamos nós mais sensuais se as sacerdotisas da fertilidade estivessem no poder?
As taras de Crumb, sua devoção às curvas apetitosas das filhas de Eva, produziram a mais feminista das interpretações do Gênesis. Senti falta da delicadeza de Mann no trecho final de "José", mas devorei com volúpia as liberdades das Saras, Rebecas, Tâmaras, Lias e Raquéis.
Aconselho ler a Bíblia com o auxílio luxuoso de Crumb e Mann. A mulher e o homem. A carne e o espírito.
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Saturday, December 04, 2010

“Encontro doméstico”

A pequena lagartixa me encara, assustada.
Não me conhece.
Não sabe que não sou de nada,
que não faria mal a uma barata.
Antes, a olho com pena, pensando:
Poderia ser o inverso: eu lagartixa,
e ela este ser grande pensante.
Será que ela pensa?
Parece que sim, pois permanece
me encarando paralisada.
Eu, que tantas vezes me senti assim acuada,
tento ajudá-la a partir:
abro-lhe a janela, mas ela não sai...
Lá fora está frio, é noite.
Por mim, tudo bem,
desde que não invada meu espaço...
Pobrezinha, tão branca!
Parece até transparente.
Volto a pensar:
se fosse eu, assim tão frágil,
que desgraça!
Agora apago a luz, esperando que ela parta.
Acendo-a de novo e nada...
Então, tendo que sair,
deixo-a ali mesmo, no alumínio grudada
E tchau
Boa noite, boa sorte.
E até outra hora.
Mas recomendo aos que ficam,
que não a maltratem
Como é fácil comigo fazer amizade!...

Será que estou ficando louca?
Ou vazia de emoção é a minha vida?
Daqui a pouco estarei fazendo verso pra baratas!!!

Cecília

Friday, November 19, 2010

Escolhas

Silêncio

Que dá margem a interpretações diferentes
Cômodo, esperto, um jeito de ganhar tempo
Fugir da raia
Ou conservar em banho-maria o sentimento
Mas há que se ter cuidado com o contrário:
Indiferença tomando espaço
Ou emoção como a raiva efervescendo
Melhor acreditar na transparência...

Cartas na mesa

Uma a uma vou abrindo
Conhecendo teus pensamentos e segredos
Jogamos limpo:
Dos meus também terás conhecimento
Neste jogo vence o mais leal,
quem menos medo tiver de mostrar as suas cartas
Direito à desistência e prêmio à coragem:
Exposição requer bravura e sinceridade


Caminhos alternativos

Nos perdemos em curvas, estradas secundárias
Não vamos direto a nenhum assunto
E a vida se mostra cada vez mais complicada...

Cecília

Thursday, November 18, 2010

Para nós que fazemos bom uso da Internet

CARLOS HEITOR CONY

Amor virtual
RIO DE JANEIRO - Recém chegado ao universo virtual, tenho sentimentos contraditórios a respeito da nova linguagem que, aparentemente, e até aqui, está unindo homens e mulheres, velhos e crianças, doentes e sadios numa humanidade especifica, que, por não ter existido antes, agora está sendo testada.
Ouve-se falar em abusos de sexo e pornografia, de pedofilia e outras taras que encontraram um espaço surpreendente na telinha. Telinha que, por bem ou por mal, está substituindo o livro, o jornal e a própria TV, uma vez que pode condensar tudo isso num pequeno e cada vez menor retângulo iluminado.
Assim como não me atrai a pizza que a gente encomenda, paga com cartão, mas recebe fria, o sexo virtual não me deslumbra suficientemente para me dedicar a ele. Prefiro o sexo em sua tradicional versão off-line.
Contudo, sou obrigado a reconhecer a eficiência da comunicação eletrônica, notadamente o e-mail, naquilo que antigamente os caretas chamavam de paquera e hoje tem outros nomes.
Pois o que acontece comigo -e deve acontecer com todo mundo- é a assombrosa capacidade do relacionamento virtual, que, entre mortos e feridos, sempre dá para pescar uma alma solitária, ou mesmo -levando ao limite- aquelas que se intitulam "coração em chamas", colocando-se adredes para receber o jato salvador que as inunda de salvação.
Um homem terminal, não por gosto, mas por contingência histórica, já não teria esperança e muito menos direito de manter certo tipo de diálogo com a geração que anda pelos vinte e tantos anos. No início, estranhei este tipo de diálogo/envolvimento, recusei alguns, pedindo que tomassem juízo.
Que eu próprio tivesse juízo. Mas começo a me habituar. E, um pouco envergonhado, admito que estou gostando.

Wednesday, November 17, 2010

Cômico? Triste? Espelho de nossos dias

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Geisy na roda
SÃO PAULO - Levou um ano para que a roda da fortuna desse a volta completa no caso Geisy Arruda.
No final de outubro de 2009, ela foi alvo do acesso de fúria dos colegas. Teve que ser retirada da Uniban escoltada, sob humilhações e ameaças de estupro. O vestidinho, as alegações machistas de que a jovem se insinuava -tudo serviu de pretexto para respaldar a barbárie. A universidade decidiu expulsá-la, em nome do "ambiente escolar".
Estava anunciado para ontem o lançamento de "Vestida para Causar", uma biografia precoce de Geisy, 21 anos. Seu produto mais falado, no entanto, é o ensaio de capa para a revista "Sexy", que vai batendo recordes de vendas.
Com o sucesso, Geisy se vinga da sociedade (e da universidade) que a ultrajou; a sociedade, por sua vez, usa o sucesso de Geisy como oportunidade para reafirmar preconceitos que tinha desde o início sobre ela -e assim também se vinga.
Humilhação social e ascensão social não são antagônicos, mas estão misturados e submetidos à mesma lógica fulminante neste caso. Geisy parece protagonizar uma espécie de reality show na vida real.
"Passei sete dias de cama, uma dor horrível, mas para a minha autoestima foi bom, como eu te disse, minha proposta de vida é evoluir", disse ela, ao relembrar da lipoaspiração que fez em fevereiro, numa entrevista a "O Estado de S. Paulo".
A conversão da jovem da periferia em celebridade segue um roteiro bem conhecido: fazer plástica (mais peito, menos barriga), ser destaque no Carnaval, participar de programas de auditório, lançar sua grife, enfim posar nua. Geisy completou o ciclo, que lembra menos a roda da fortuna do que a roda-viva.
Como quem intui que essa fantasia cobra um preço alto demais e pode evaporar num estalo, ela diz:
"Hoje mesmo fui atrás de um tapete de Cinderela, já tenho copos de Cinderela, lençol, toalha, meu quarto na casa nova vai ser todo de Cinderela -porque eu sou a Cinderela, você sabe, não é?".

Wednesday, November 03, 2010

Uma idosa pede passagem

ANNA VERONICA MAUTNER


Quanto treino é exigido do homem urbano para passar do útil, do produtivo, para o à toa, o fazer por fazer?



O AUMENTO da proporção de idosos na população vem preocupando governos de todo o mundo. Atender os de mais idade demanda revisão da distribuição orçamentária, assunto bem complicado para legisladores e executivos. Difícil chegar a consenso.
Lendo sobre o assunto e mesmo vivendo na própria pele, eu queria falar sobre o uso, pelos idosos, não dos recursos econômicos, mas do tempo e do espaço.
Não há a menor dúvida entre especialistas de que a qualidade de vida do idoso relaciona-se com a atividade tanto mental quanto corporal. Mudar de ser planejante, sempre cheio de objetivos e intenções, para um ser capaz de atividades com vistas não para o "amanhã" e sim para o "aqui agora" demanda treino, consciência e empenho.
As instituições voltadas à saúde do idoso preocupam-se com gastos, prevenção, orçamento, sem dúvida parte importante do problema.
Mas eu pergunto: quanto treino é exigido do homem urbano para passar do útil para o à toa, o só por fazer, pelo simples prazer de realizar e se aperfeiçoar?
A aposentadoria muitas vezes pode parecer precoce, e o tempo de vida, depois de terminada a chamada etapa produtiva, foi se tornando, felizmente, cada vez mais longo. Deveríamos cuidar do projeto para o bem viver nessa faixa etária bem antes de a aposentadoria ocorrer.
É necessário desenvolver aptidão para o fazer por fazer, o estar por estar, sem qualquer ligação com fins outros que não o instante que se está vivendo.
Isso é mais ou menos familiar com crianças antes de entrarem na escola propriamente dita. No pré e no jardim, tudo é espontâneo e à toa. Mas não há nenhuma possibilidade de retorno a essa etapa na terceira idade.
Toda uma outra história já se inseriu nas nossas vidas, marcando as mentes a ferro e fogo, como tatuagem.
Já escrevi sobre a importância da praça neste mesmo espaço de jornal. Retomo a ideia. Cabe aos urbanistas e a eles dirijo o pedido de prever muitos espaços de convivência -esportivos, artísticos, culturais ou de mero convívio.
Lugares que não existam para despertar desejos, como shoppings, mas sim espaços públicos de uso voluntário, isto é, onde não se precise ter carteirinha nem dinheiro.
Quero ir, voltar, ficar só ou em companhia. Quero ser objeto de trabalho de urbanistas e promotores culturais, não só de médicos e economistas.

Wednesday, October 13, 2010

Homem comum

(Semelhança)


Será pelos teus olhos castanhos,
como aqueles outros
pelo nariz fino, cor morena,
ou ainda pela linha dos teus cabelos negros,
pelo jeito franco, espontâneo
de quem nada deve
e pode dormir o sono dos justos
... ou dos anjos...


Será pela lealdade, constância,
ou por seres quem és,
sem interpretar papel nenhum?...
Não vou dizer que és único
porque me lembras um outro
de quem me orgulho,
talvez por não ter querido ser senão...
... um ser comum...

Cecília
05/10/10

Sunday, October 10, 2010

O que se foi

O que se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.


Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.


Então por que me faz
o coração bater tão forte?


Ferreira Gullar

Friday, October 08, 2010

Jogo da Vida

Em torno de mim peças de um quebra-cabeça se encaixam,
Movidas por mãos... divinas?
Mínimo se torna meu espaço.
De que me queixo?
São peças pra lá de bonitas,
Verdadeiro presente da vida.
Por que a gana de briga? Anseio de liberdade?
Não sei...
Vesti um casaco apertado,
E me sinto nele entalada,
Comprimida, sufocada...
Sim, sou presa de cotidiana felicidade

Cecília

Tuesday, October 05, 2010

Entreato

Não me vejo mais em lugares
antes tão familiares...
Mudei eu, ou mudou a casa?
Mesmo minha imagem parece desfocada,
pois toda luz está em ti centrada.
Não mais pertenço, não pertenço ainda...
Solta, minha alma voa...
E o sonho não deixa espaço para nada.
Lá vou eu... só amor (ou fantasia?)
embalada por palavras de carinho.
Sopro de vida em meu coração quase adormecido,
Fogueira acesa, onde antes só havia cinzas...

Cecília

Saturday, October 02, 2010

A vida passada a limpo

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A poesia é compatível com uma infinidade de formas e de temas. Nenhuma opção é vedada ao poeta a priori
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NA VÉSPERA das eleições, é natural que praticamente não se fale senão de política: e às vezes com uma histeria tanto maior quanto menos importante é o que se diz. Para variar, voltarei a escrever sobre um dos meus assuntos favoritos e inesgotáveis: "Que é a poesia?"
Outro dia, para tentar responder a essa pergunta, vali-me de um poema de Manuel Bandeira, "O Rio". Hoje aproveito o extraordinário título de um livro de Carlos Drummond de Andrade: "A Vida Passada a Limpo".
Passar a limpo um texto é retirar-lhe tudo o que não lhe pertence por direito, modificar o que deve ser modificado, adicionar o que falta, reduzi-lo ao que deve ser e apenas ao que deve ser. No caso de um poema, faz-se isso até o impossível, isto é, até que ele resplandeça. O que resplandece é o que vale por si: o que merece existir.
Para tentar chegar a esse ponto, o poeta necessita pôr em jogo, até aonde não possam mais ir, todos os recursos de que dispõe: todo seu intelecto, sua sensibilidade, sua intuição, sua razão, sua sensualidade, sua experiência, seu vocabulário, seu conhecimento, seu senso de humor etc. E entre os "cetera" encontra-se a capacidade de, a cada momento, intuir o que interessa e o que não interessa naquilo que o acaso e o inconsciente ofereçam.
Em princípio, tudo num poema é arbitrário. O poeta sabe que a poesia é compatível com uma infinidade de formas e temas. Ele tem o direito de usar qualquer das formas tradicionais do verso, o direito de modificá-las e o direito de inventar novas formas para os seus poemas. Nenhuma opção lhe é vedada a priori; em compensação, nenhuma opção lhe confere garantia alguma de que sua obra venha a ter qualquer valor.
O poema se desenvolve a partir de alguma decisão ou de algum acaso inicial. Por exemplo, ocorre ao poeta, em primeiro lugar, uma frase que ouviu no metrô; a partir dela, esboça-se uma ideia: e ele começa a fazer um poema. Ou então ocorre-lhe uma ideia e ele tenta desdobrá-la e realizá-la. A cada passo, é preciso fazer escolhas. Em algum momento -seja no início, seja no meio do trabalho- impõe-se decidir a estrutura global do poema: se será longo ou curto; se será dividido em estrofes; se seus versos serão livres ou metrificados; se serão rimados ou brancos; se o poema como um todo terá um formato tradicional, como um soneto, ou uma forma "sui generis" etc. Às vezes, uma primeira decisão parece impor todas as demais, que vêm como que natural e impensadamente; às vezes, certos momentos se dão como crises que aguardam soluções.
Cada escolha que o poeta faz limita a liberdade vertiginosa de que ele dispunha antes de começar a escrever. As restrições devidas a formas autoimpostas são importantes, porque exatamente o esforço consciente e obsessivo para tentar resolver a tensão entre elas e o impulso expressivo é um dos fatores que mais propiciam a ocorrência de intervenções felizes do acaso e do inconsciente: o que, de certo modo, dissolve a dicotomia tradicional entre a inspiração, por um lado, e a arte ou o trabalho, por outro.
Assim, numa época em que "tempo é dinheiro", a poesia se compraz em esbanjar o tempo do poeta. Mas o poema em que a poesia esbanjou o tempo do poeta é aquele que também dissipará o tempo do leitor ideal, que se deleita ao flanar pelas linhas dos poemas que mereçam uma leitura ao mesmo tempo vagarosa e ligeira, reflexiva e intuitiva, auscultativa e conotativa, prospectiva e retrospectiva, linear e não linear, imanente e transcendente, imaginativa e precisa, intelectual e sensual, ingênua e informada. Ora, é por essa temporalidade concreta, que se põe no lugar da temporalidade abstrata do cotidiano, que se mede a grandeza de um poema.
Dizer que a poesia é a vida passada a limpo é dizer que a vida é o rascunho da poesia. Isso significa que o fim da vida é virar poesia. Por essa razão, longe de ser um meio (por exemplo, um meio de "expressão" ou de "comunicação") para o poeta, a poesia é o seu fim. Dado que o fim subordina os meios, e não vice-versa, o poeta é um servo -um servo voluntário e apaixonado, é verdade, mas um servo- da poesia. Nessa relação, não é ela que se inclina às conveniências dele, mas é ele que deve dobrar-se às exigências e aos caprichos -inclusive aos silêncios- dela.

Antonio Cicero


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Thursday, September 23, 2010

A felicidade nas telas

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A necessidade de mostrar ao mundo um semblante feliz é uma das grandes fontes de infelicidade
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UMA AMIGA inventou um jeito de curtir sua fossa. Depois de um dia de trabalho, de volta em casa, ela se enfia na cama, abre seu laptop e entra no Facebook.
Ela não procura amigos e conhecidos para aliviar o clima solitário e deprê do fim do dia. Essa talvez tenha sido a intenção nas primeiras vezes, mas, hoje, experiência feita, ela entra no Facebook, à noite, como disse, para curtir sua fossa. De que forma?
Acontece que, visitando as páginas de amigos e conhecidos, ela descobre que todos estão muito bem: namorando (finalmente), prestes a se casar, renovando o apartamento que sempre desejaram remodelar, comprando a casa de praia que tanto queriam, conseguindo a bolsa para passar dois anos no exterior, sendo promovidos no emprego ou encontrando um novo "job" fantasticamente interessante. E todos vivem essas bem-aventuranças circundados de amigos maravilhosos, afetuosos, alegres, festeiros e sempre presentes, como aparece nas fotografias postadas.
Minha amiga, em suma, sente-se excluída da felicidade geral da nação facebookiana: só ela não foi promovida, não encontrou um namorado fabuloso, não mudou de casa, não ganhou nesta rodada da loto. É mesmo um bom jeito de aprofundar e curtir a fossa: a sensação de um privilégio negativo, pelo qual nós seríamos os únicos a sofrer, enquanto o resto do mundo se diverte.
Numa dessas noites de fossa e curtição, minha amiga, ao voltar para sua própria página no Facebook, deu-se conta de que a página não era diferente das outras. Ou seja, quem a visitasse acharia que minha amiga estava numa época de grandes realizações e contentamentos. Ela comentou: "As fotos das minhas férias, por exemplo, esbanjam alegria; elas não passaram por nenhum photoshop, acontece que são três ou quatro fotos "felizes" entre as mais de 500 que eu tirei".
Logo nestes dias, acabei de ler "Perché Siamo Infelici" (porque somos infelizes, Einaudi 2010, organizado por P. Crepet). São seis textos de psiquiatras e psicanalistas (e um de um geneticista), tentando nos explicar "por que somos infelizes" e, em muitos casos, por que não deveríamos nos queixar disso.
Por exemplo, a infelicidade é uma das motivações essenciais; sem ela nos empurrando, provavelmente, ficaríamos parados no tempo, no espaço e na vida. Ou ainda, a infelicidade é indissociável da razão e da memória, pois a razão nos repete que a significação de nossa existência só pode ser ilusória e a memória não para de fazer comparações desvantajosas entre o que alcançamos e o que desejávamos inicialmente.
Não faltam no livro trivialidades moralistas sobre o caráter insaciável de nosso desejo ou evocações saudosistas do sossego de algum passado rural. Em matéria de infelicidade, é sempre fácil (e um pouco tolo) culpar a sociedade de consumo e sua propaganda, que viveriam às custas de nossa insatisfação.
Anotei na margem: mas quem disse que a infelicidade é a mesma coisa que a insatisfação? E se a infelicidade fosse, ao contrário, o efeito de uma saciedade muito grande, capaz de estancar nosso desejo? Que tal se a infelicidade não tivesse nada a ver com a ansiedade das buscas frustradas, mas fosse uma espécie de preguiça do desejo, mais parecida com o tédio de viver do que com a falta de gratificação? Em suma, você é infeliz porque ainda não conseguiu tudo o que você queria, ou porque parou de querer, e isso torna a vida muito chata?
Seja como for, lendo o livro e me lembrando da fossa de minha amiga no Facebook, ocorreu-me que talvez uma das fontes da infelicidade seja a necessidade de parecermos felizes. Por que precisaríamos mostrar ao mundo uma cara (ou uma careta) de felicidade?
1) A felicidade dá status, como a riqueza. Por isso, os sinais aparentes de felicidade podem ser mais relevantes do que a íntima sensação de bem-estar;
2) além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.
O resultado dessa necessidade de parecermos felizes é que a felicidade é este paradoxo: uma grande impostura da qual receamos não fazer parte e que, por isso mesmo, não conseguimos denunciar.


Contardo Calligaris

Monday, September 20, 2010

Angústia

Que me toma
Cola
Transforma o meu olhar
Entorta o meu caminhar
Me faz respirar curto
Temer a vida, a falta dela, o mundo,
Dele me apartando
Para logo depois nele me recolocar
Com a mesma força , sem se dissipar ...

Angústia
Que aperta o meu coração
Me desconcentra
Me apequena
Na busca de um porto seguro... angústia...

Cecília

19-09-10

Sunday, September 12, 2010

A vida e a história

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Foi então que um colega, também tresnoitado, olhou pela janela e viu um enorme abacate pendurado
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É O FINAL de um dos romances de Émile Zola, "A Fecundidade". Ao terminar o gigantesco projeto dos Rougon-Macquart ("História Natural e Social de uma Família sob o Segundo Império"), Zola escreveria o que chamou de seus quatro evangelhos: a fecundidade, o trabalho, a justiça e a verdade. O primeiro deles termina com o grito de uma jovem camponesa varando a tarde e o campo: "A vaca pariu um bezerro!"
Felizmente -digo eu, que não sou camponês nem pertenço a nenhuma família sob o segundo ou qualquer outro império. No romance de Zola, o grito da camponesa começa, encerra e sublima a maravilhosa rotina do viver, a terra parindo seus frutos e os habitantes da terra parindo seus filhos. Inclusive as vacas.
A garantia dessa rotina, afinal, é o que nos salva. Lembro uma de nossas crises políticas, das mais "brabas", a que provocou o suicídio de Getulio Vargas em 1954. Eu trabalhava então num jornal aqui do Rio de Janeiro e passara duas noites sem ir para casa, sem fazer barba, sem mudar de roupa. Substituía em certas horas o repórter destacado para cobrir a crise dentro do próprio palácio.
O mundo parecia ter vindo abaixo. Na altura do terceiro dia de vigília, caí numa poltrona das mais anônimas e modestas do Palácio do Catete. Ali tirava alguns cochilos, interrompidos por novidades sempre dramáticas.
Curioso: durante aqueles dias e noites, enquanto ninguém poderia prever o desfecho, surgiam dramas paralelos que, embora não confirmados, explodiam entre os jornalistas como novo e incontrolável incêndio: Juarez Távora enforcou-se no apartamento do Brigadeiro Eduardo Gomes! Lutero Vargas foi assassinado por um oficial da Aeronáutica! Lacerda foi sequestrado por operários fieis a Vargas! O marechal Mascarenhas de Moraes morreu de enfarte! Coisas assim.
Bem, na altura do terceiro dia, as emoções iniciavam o longo caminho do retrocesso e tudo ia quase voltando à normalidade de uma crise. Mais boatos do que fatos e todo mundo torcendo por um ou outro lado. Foi então que um colega, também tresnoitado, olhou pela janela e viu um enorme abacate pendurado de seu galho (hoje, não acredito que existam abacateiros nos jardins do Palácio do Catete, mas naquele tempo havia, tenho certeza).
O colega olhou atentamente o abacate, silencioso fruto caindo de seu galho, verde e necessário, feito em silêncio e em trabalho vegetal de sua espécie. De repente, comentou em voz alta:
- Felizmente, tudo continua!
Eu não entendi logo. Na fadiga daqueles dias, o "tudo" para mim era a crise em si, o Brasil atravessando o vendaval. Tão grave era a crise que nada seria como antes e nada mais continuaria. Um apocalipse em plena rua do Catete, com suas lojas de móveis baratos, seus botequins cheios de mosquitos. Foi preciso que eu olhasse na direção da janela e também visse o abacate ali, verde, inchado em sua carne verde-amarelada.
Aquele abacate havia sido apenas uma flor semanas antes, e Vargas provavelmente a olhou com seus olhos periféricos de inseto, soprando a fumaça de seus imensos havanas. Agora, Vargas dera um tiro no peito e a flor tornara-se fruto, e ali estava oferecendo-se à janela e aos nossos olhos vermelhos de sono e doídos de cansaço e estupor.
Sim, tudo continuava, o mundo daria outras voltas, outras crises maiores ou menores viriam, mas os abacates continuariam sendo abacates e Vargas, bem, o que seria Vargas dali a dez, 20 ou dali a 60 anos? Um nome na enciclopédia, nas praças e placas das cidades brasileiras?
Crianças e jovens passariam nessas ruas e nem se incomodariam em saber quem fora Getulio Vargas. Um homem de 71 anos dera um tiro no peito, soldados cercavam o palácio presidencial e eu passara dois dias sem poder ir para casa. Enquanto isso, os abacateiros davam flor e fruto. A vida continuaria. A natureza é arrogante em sua fecundidade, os homens é que são estéreis em sua finitude.
Volto ao romance de Zola. A vaca pariu um bezerro. Um abacate, qualquer abacate, vale mais do que uma crise política. A vida é mais importante do que a história.

CARLOS HEITOR CONY

Friday, August 27, 2010

Visita à casa dos fantasmas

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Não foi para isso que caminharia tanto na vida. Aliás, eu caminhei tanto para não sair do lugar
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APROVEITANDO a tarde chuvosa, decidi dar uma volta. Geralmente, costumo ir à praia, passear pela orla, mas caía uma garoa miúda e irritante, resolvi me embrenhar em outros bairros, distantes bairros de minha infância, que há muitos anos não visito, em parte por preguiça, em parte (ou no todo) por fastio. Peguei o carro e, sem saber o que fazer, fiz o que não devia.
Quando dei por mim, já estava naquele roteiro que inclui algumas ruas do Maracanã, de Vila Isabel, do Cabuçu e do Lins de Vasconcelos, cabeça, tronco e membros da antiga zona norte. Ali, a igreja onde me casei. Numa biografia bastante acidentada, com alguns casamentos incompletos, foi a única convolação de núpcias a que me submeti. Antigamente, os doutos usavam a expressão "convolar núpcias" para designar o casamento.
As recordações que ficaram não são necessariamente boas nem más, mas indiferentes. Foi um outro que convolou núpcias naquela igreja que tem um anjo São Miguel imitado da estátua do mesmo anjo na praça Saint Michel, em Paris: com sua espada de bronze, afasta um demônio de chifres e rabo em forma de seta.
Depois, o apartamento onde morei alguns anos, confortável apartamento com uma boa cobertura, ali minhas filhas brincaram e eu próprio soltei meus últimos balões de São João.
Depois, a rua da primeira escola, no enorme terreno ergueram um imenso hospital da Marinha e eu fugi daquele gigante que abriga os heróis da Armada de Guerra -segundo as palavras gravadas no pórtico "art noveau" do hospital. Penso no nenhum sentido que delas resulta: armada de guerra. Um pleonasmo? Ou apenas uma bobagem?
De repente, dobro uma esquina e esbarro com a casa, milagrosamente intacta: a fachada de pó de pedra está bastante estragada, da última vez que ali estive, dez ou onze anos atrás, o aspecto era menos decadente. Sim, ali está a casa: ali nasceu o Tutuca, numa tarde de domingo, domingo de março, de um ano cada vez mais distante.
As recordações são poucas. Num início de noite, o pai foi àquele portão e apanhou um balão apagado e silencioso que vinha caindo, caindo, alguns moleques se juntaram do lado de fora para tascá-lo com seus varapaus homicidas, mas respeitaram o domínio do dono da casa, o balão é dele. Depois, ainda na época dos balões, o irmão mais velho de pelerine azul marinho por causa do frio de junho, armando sua barraquinha de fogos.
Uma lanterna vermelha avisava que um menino ali vendia fogos -e eu era vidrado no estranho cheiro de pólvora e papel colado que sua barraquinha desprendia. Prometeram-me que eu também teria uma barraquinha igual quando crescesse -eu cresci inutilmente, nunca mereci uma barraquinha daquelas, com a lanterna vermelha acesa no meio da noite, bolas-, não foi para isso que caminharia tanto na vida. Aliás, caminhei tanto para não sair do lugar.
Agora, a casa está meio decomposta pelos anos, dois enormes vira-latas se aproximam, latindo. Quando dão comigo, param de latir, metem os focinhos pelas grades (as mesmas de antigamente) e me fuçam, como que me recebendo, eu, o Tutuca que nasceu naquela casa. Parece que sabem ou adivinham isso e eu me sinto importante -ao menos para os cachorros.
O atual dono da casa vem saber por que os cachorros estão latindo. Não gosta de ver o estranho parado em seu portão. É homem meio gordo, usa camisa de malha branca sem mangas, está suado pela tarde abafada e chuvosa.
Pergunta o que desejo. Tenho vergonha de confessar o motivo que me levara ali, aliás, não tinha nenhum motivo para estar ali. Indago se o cidadão conhece um tal de Tutuca. Não, o homem não conhece Tutuca algum.
Eu insisto, afirmo que o tal Tutuca ali morou, era um garoto bochechudo e palerma. O homem faz uma cara escandalizada e me despacha, dizendo que tem mais o que fazer -eu o invejo, nada tinha para fazer.
Atravessei a rua e peguei o carro. O homem olhou admirado, pois me supunha um pedestre reles e enxerido. E nem adivinhou que o Tutuca nunca saiu daquela casa, aderente àquelas paredes descascadas e inarredável como um fantasma sem futuro.

Carlos Heitor Cony

Thursday, July 15, 2010

Theresa





“Cheguei para arrasar,
derreter corações,
para romper medos, barreiras,
resistências que não se explicam (razões obscuras)
e com meu olhar direto, cativante, demolidor
deixá-lo(a) completamente rendido(a) aos meus encantos”

É isso o que você diz sem palavras complicadas,
sem necessidade de adjetivos,
só olhos nos olhos de quem a contempla hipnotizado,
derretido, tomado por estranha alegria, apaixonado...


Tetê, sereia,
Seu canto é seu olhar que enreda,
arrasta para inconcebíveis profundezas
...mata

Cecília
15-07-10

Saturday, June 12, 2010

Soneto XVII (do livro Cien Sonetos de Amor)

No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y la alma.

Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.

Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo proque no sé amar de otra manera,

sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.

Pablo Neruda

Friday, June 11, 2010

O direito de buscar a felicidade

O ARTIGO SEXTO da Constituição Federal declara que "são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados".
O Movimento Mais Feliz (www.maisfeliz.org) promove uma emenda constitucional pela qual o artigo seria modificado da seguinte forma: "São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde etc." (segue inalterado até o fim).
É claro que, se eu dispuser de casa, emprego, assistência médica, segurança, terei mais tempo e energia para buscar minha felicidade. No entanto o respeito a esses direitos sociais básicos não garante a felicidade de ninguém; como se diz, ter comida e roupa lavada é bom e ajuda, mas não é condição suficiente nem absolutamente necessária para a busca da felicidade.
Em suma, implico um pouco com o adjetivo "essencial" no texto da emenda, mas, fora isso, gosto da iniciativa porque, como a Declaração de Independência dos EUA, ela situa a busca da felicidade como um direito do indivíduo, anterior a todos os direitos sociais.
Por que a busca da felicidade não seria apenas mais um direito social na lista? Simples.
A felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua.
Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros.
Invento e procuro minha versão da felicidade, com apenas um limite: minha busca não pode impedir os outros de procurar a felicidade que eles bem entendem. Por isso, obviamente, por mais que eu pense que isto me faria muito feliz, não posso dirigir bêbado, assaltar bancos ou escutar música alta depois da meia-noite. Por isso também não posso exigir que, para eu ser feliz, todos busquem a mesma felicidade que eu busco.
Por exemplo, você procura ser feliz num casamento indissolúvel diante de Deus e dos homens. A sociedade deve permitir que você se case, na sua igreja, e nunca se divorcie. Mas, se, para ser feliz, você exigir que todos os casamentos sejam indissolúveis, você não será fundamentalmente diferente de quem, para ser feliz, quer estuprar, assaltar ou dirigir bêbado.
Não ficou claro? Pois bem, imagine que, para ser feliz, você ache necessário que todos queiram ser felizes do jeito que você gosta; inevitavelmente, você desprezará a busca da felicidade de seus concidadãos exatamente como o bandido ou o estuprador a desprezam.
Em matéria de felicidade, os governos podem oferecer as melhores condições possíveis para que cada indivíduo persiga seu projeto -por exemplo, como sugere a emenda constitucional proposta, garantindo a todos os direitos sociais básicos. Mas o melhor governo é o que não prefere nenhuma das diferentes felicidades que seus sujeitos procuram.
Não é coisa simples. Nosso governo oferece uma isenção fiscal às igrejas, as quais, certamente, são cruciais na procura da felicidade de muitos. Mas as escolas de dança de salão ou os clubes sadomasoquistas também são significativos na busca da felicidade de vários cidadãos. Será que um governo deve favorecer a ideia de felicidade compartilhada pela maioria? Ou, então, será que deve apoiar a felicidade que teria uma mais "nobre" inspiração moral?
Antes de responder, considere: os governos totalitários (laicos ou religiosos) sempre "sabem" qual é a felicidade "certa" para seus sujeitos. Juram que eles querem o bem dos cidadãos e garantem a felicidade como um direito social -claro, é a mesma felicidade para todos. É isso que você quer?
Enfim, introduzir na Constituição Federal a busca da felicidade como direito do indivíduo, aquém e acima de todos os direitos sociais, é um gesto de liberdade, quase um ato de resistência.


CONTARDO CALLIGARIS

Um grande escritor

COMPOSIÇÃO ESCOLAR (Da "Folha de São Paulo")


ERA UMA noite solitária do mês de abril dos anos mais antigos do passado. Eu estava na janela olhando a rua, e entre a janela e a rua havia um jardim.
O pai costumava, tão logo a noite caía, regar os nossos canteiros de tinhorões e avencas, os pés de roseira que ficavam do outro lado, costeando o muro que dividia a nossa casa de um palacete -o único palacete da rua e do bairro.
Verdade: o palacete era enorme, tinha uma escadaria de mármore que subia pela fachada principal -mas não havia jardins, nem sequer um tinhorão aveludado, nem sequer um pé de manacá como o nosso, que ali estava cheirando, molhado pelo anoitecer daquele solitário abril dos anos mais antigos do passado.
Eu olhava a noite e sentia o perfume que vinha do jardim umedecido. A rua não tinha cheiros, era apenas um espaço cor de cimento e pedra, naquele tempo quase não havia movimento, o bonde passava pontualmente de 15 em 15 minutos, era um bonde verde como um bicho de seda comprido, à noite ele vinha iluminado, vazio e inútil, levando ninguém para lugar nenhum.
Além do bonde, um ou outro carro deslizava pela rua vazia. Todas as noites, lembro que, pelas nove horas, passava um carro branco, último modelo na época; se a noite era quente, a capota estava arriada e dentro dele um homem vestido de branco, todo de branco, e houve noite em que, ao lado do homem vestido de branco, havia uma mulher também vestida de branco, um chapéu branco e enorme com enormes fitas brancas.
Anos depois, quando assisti pela primeira vez a "La Traviata", no segundo ato, cheirando a jardim e a flor, lá estava a mesma mulher vestida de branco, com seu chapéu e suas fitas brancas.
Não entendi nada, mas guardei para sempre aquele encontro mágico que era tão meu. Na ópera, o pai se emocionava com a despedida da mulher que abandonava o amante, e eu tinha a certeza de que aquela mulher ali estava só para mim e para sempre. E passava pela minha rua num carro branco e nupcial.
Mas isso foi há muito tempo. Há tanto tempo que já não gosto mais daquele segundo ato, nem da ópera em si e, mesmo que gostasse, de nada me adiantaria: a rua foi asfaltada, perdeu a cor de cimento e pedra, ficou escura como uma enorme tira de fita isolante, os bondes foram arquivados e o palacete foi demolido, em seu lugar subiu um espigão sem forma nem cor.
E o jardim de nossa casa não mais existe, nem os tinhorões nem as avencas, o menino que ficava ali, olhando a noite e o jardim molhado, também ele não existe mais.
De tudo, o que restou foi o silêncio do menino olhando a noite e sentindo o perfume do jardim, esperando o carro branco e nupcial, a mulher com seu chapéu de fitas brancas que parecia ter saído do segundo ato de uma ópera. Além da noite e do jardim estava o mundo, a vida que se desdobrou para o menino, uma vida nem boa nem má, apenas vida -e bastante.
E onde está o carro branco que passava lentamente pelo meio da noite, aquele casal vestido de branco que vinha não sei de onde e se perdia naquela noite silenciosa do mundo?
Ficaram na memória do menino, com os cheiros e os tinhorões aveludados, o pé de manacá molhado, o bonde iluminado e vazio, o garoto olhando a solitária noite dos anos mais antigos do passado.
Mais tarde, o menino precisou fazer aquilo que os outros chamavam de "ganhar a vida". Ele não sabia direito o que era aquilo, já tinha uma vida que lhe fora dada de graça, não precisava de outra, de ganhar outra.
Quando as coisas se complicavam para o lado dele, recorria àquela imagem distante, a rua deserta e perfumada pelo manacá, de repente o carro branco e silencioso passando devagar, a mulher com seu enorme chapéu de tiras brancas deslizando na noite do passado.
Os anos mais antigos também passaram, parece que nem tinham acontecido. O que acontecia agora era muito colorido, berrantemente colorido, o mundo é em cores e faz muito barulho, som e fúria que nada significam.
Mas o menino gosta de pensar neles, embora o homem tenha um pouco de vergonha em falar neles.

CARLOS HEITOR CONY


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Thursday, May 06, 2010

Erotikós

Puedo romperme a un simple toque
De tus dientes blancos,
inundando tu boca con el dulce fluido
de que soy hecha, néctar de los dioses.
Y me voy: dejando deseo, dulzura de un beso,
despertando tu hambre, tus ganas y tu sensualidad.
Ah! Deseo que a mi dedicas...
Como lo retribuo! Me muestro solo tuya,
Soy puro azucar, soy más que miel.
Tu cielo alcanzo, en tu lengua descanso,
Y después...deslizo por tu garganta.

Cecília

Thursday, April 22, 2010

Liberdade




Ser apenas um cachorrinho branco, livre e solto
"ciscando" folhas secas sob árvores e arbustos verdes,
transgredindo as leis rigorosas do parque,
lá escondidinha, livre de guia, correndo à vontade,
tendo como pretexto para a brincadeira um osso branco como ela,
que aos poucos vai se tornando cor de terra,
do barro que ela pisa sem dó nem piedade pelo banho da véspera
que a deixou linda, escovada, com lacinhos na cabeça,
cachorrinha de madame...
Banho de boutique , agora sem nenhuma importância
devido ao espírito livre e travesso de sua dona
e de suas lembranças de infância...

Didi, te amo
Cecília

manhã de sol em abril

Sunday, February 21, 2010

Outono

Há mais lembranças do que planos
Há mais andante, largo, do que presto
Há mais silêncio do que vozes, risos
Denso é o olhar, busca de entendimento...
Longas são as tardes, as madrugadas
(tantas vezes insones)
Breve (assim parece) a manhã de nossa vida...
Reflexo de outras são as alegrias,
em seu antigo berço não mais encontrando abrigo.
É triste o anoitecer da vida,
quando só se tem estrelas distantes, fugidias
e o sol é promessa que pode ou não cumprir-se...


Viver o outono é exercer a nostalgia
Respirar quase sempre melancolia...

Cecília
18-02-10

Wednesday, December 09, 2009

Declaração de amor

Carol,
O amor que tenho por você não se explica,
sente-se
Plenamente, sem culpa,
naturalmente
Não importa o tempo curto que passamos juntas,
as diferenças.
Você está em meu coração ... sempre
Amo sua voz, seu sorriso
o dourado que só você irradia
a brancura de sua pele, seu corpo esguio,
os cabelos quase louros.
Amo (não ria) suas pintas, principalmente as do rosto,
aquelas que vejo quando afasto seus cabelos castanhos,
quase louros
Razão para amá-la, tenho todas,
a começar pelo seu coração, tão generoso.
Mas como disse antes, o amor dispensa razões
méritos, explicações, presença física
- às vezes temos tudo isso e não o sentimos,
não adianta esforço.
Filha, para mim você é belíssima
de alma e corpo
o fruto que justifica a árvore,
o meu tesouro

Cecília

Friday, August 21, 2009

Histórias e rituais de família e identidade ( título meu)

[...] QUANDO UMA NOVA FAMÍLIA SE CONSTITUI, UM GRUPO FAMILIAR ORIGINAL PASSA A SER CONSTRUÍDO; ENTRETANTO, ELE NÃO COMEÇA SUA MISSÃO DO ZERO
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De vez em quando, surgem palavras ou expressões que viram mania nacional, e muitas delas carregam um complexo conceito teórico de alguma disciplina do conhecimento. Assim foi, por exemplo, com a expressão "quebra de paradigmas", lembra-se dela? Cansei de ouvi-la em escolas.
Muitos professores queriam quebrar paradigmas diariamente -não havia uma reunião em que a expressão não fosse utilizada. Logo percebi que muitos docentes haviam se apropriado apenas do sentido linguístico da expressão e a usavam só para mostrar que estavam devidamente conectados com os estudos da época.
Depois disso, tivemos a época da qualidade total, da resiliência, da sinergia e de muitas outras. Agora, a palavra da vez é sustentabilidade, que tem sido usada das mais diversas maneiras para justificar qualquer tipo de ação, projeto, ideologia etc.
E não é que, recentemente, após uma reunião com pais de uma escola em que o tema foi a importância da transmissão dos valores, dos costumes, das virtudes e da moral familiar na educação dos filhos, uma mãe veio me contar que associara a nossa conversa com o conceito de sustentabilidade?
Devo dizer que, de início, ouvi com preconceito a ideia dela, já que não gosto muito desses modismos conceituais e linguísticos. Mas admito que ela construiu seu pensamento com muita propriedade.
O conceito de sustentabilidade é complexo: diz respeito à continuidade de aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais das diferentes sociedades humanas. Sustentabilidade tem estreita relação, portanto, com preservação.
Quando uma nova família se constitui, um grupo familiar original passa a ser construído.
Entretanto, essa nova família não começa sua missão do zero.
Cada adulto que se propõe a formar esse novo agrupamento leva sua herança familiar e a usa como referência.
Gosto muito da imagem construída por um colega: quando uma pessoa recebe uma casa de herança, ou ela reforma ou vende para comprar outra. O mesmo ocorre com a herança familiar.
Quando duas pessoas vindas de famílias diferentes começam uma nova, negociam, combinam, fazem sínteses do que trouxeram e, claro, inovam também. Além disso, mantêm contato com suas famílias de origem, e é desse modo que as novas gerações se reconhecerão na questão familiar.
Se os pais não transmitem suas tradições e as de suas famílias de origem aos filhos -estimulando o contato entre eles, contando suas histórias, comparecendo aos rituais existentes-, criam uma geração órfã de família. É como se a existência do sobrenome não fizesse sentido, pois não há diferenciação nem características próprias do grupo familiar.
É preciso lembrar que família e sociedade são agrupamentos interdependentes: se um vai mal, o outro também vai. Desse modo, educar os filhos considerando a preservação da família, sua continuidade e manutenção, é trabalhar também a favor da sustentabilidade da sociedade.



Roseli Sayão

Wednesday, August 05, 2009

Em terra árida não nascem flores
Estações se sucedem
E a despeito da rega,
Não se tem nenhum retorno.
A aridez contamina
E a Alma se vê...
Vazia de ardores , amores
Perde-se o sentido da vida
E tudo é cinza, sem cores...

Para meu marido

Cecília
Da vida quero toda a vibração, quero o delírio,
um amor que excite todos os meus sentidos,
mas que tenha na alma seu maior afrodisíaco...

Não esperamos tanto para almejarmos
a sombra de uma árvore,
a contemplação das águas de um regato,
suavemente cumprindo seu caminho,
ou de nuvens brancas no céu deslizando,
a desenhar figuras delicadas...

Não nos satisfazemos mais,
apenas com o etéreo, os mistérios da vida,
os sonhos distantes, a ausência física...

Queremos ser de uma estória de amor
os heróis, os principais protagonistas;
talvez o centro do mundo,
ainda que na visão deturpada
de dois apaixonados...

Que um turbilhão nos engolfe, nos arraste...
É fim de festa, vale tudo: pés descalços
e rostos sem nenhuma máscara...

Cecília Quadros

Saturday, July 25, 2009

Atração

Esquivo é o olhar,
tímido
Poucas palavras,
gestos contidos,
coração meio perdido.
O encanto tem mão dupla?
É pelo outro sentido?
O olhar para mim mesma
é crítico
Interesse do outro?
Impossível
A guardar na memória
a simpatia
e um nome se repetindo
associado à uma figura bonita....

Um leve beijo na despedida
À distância te olho:
fim da história,
que agora recrio...

Cecília

Friday, July 17, 2009

Urubici

Debaixo de muitas mantas
no calorzinho da cama
-está tão frio lá fora-
demoradamente nos olhamos.
A sensação é de aconchego,
pertencimento.
Longe de tudo,
muito além do nosso mundo,
nos acariciamos.
Nos damos as mãos
e nos sentimos seguros,
cúmplices,
contentes por termos caminhado juntos
por tantos anos...
O abraço renova o pacto
há muito tempo firmado.
Brincamos um com o outro,
nenhuma solenidade...
Mas sentimos o marco:
inesperado
naquela cama deitados...

Cecília
14-07-09

Thursday, July 16, 2009

Com poetas não se fala de arranjos terrenos,
mas de vôos de pássaros, flores,
bonecas de louça, versos e estrelas
de madrugadas longas, noites frias
ou manhãs com orvalho, tardes lentas...
de olhares perdidos, apáticos ou apaixonados
ou sorrisos amplos e serenos
( se o Amor é certo e se faz pleno.)

Fala-se de destino, impaciência e desejo
(desse sutilmente),
quando o Amor ainda é mistério ou recente...

É assim que amam os poetas:
sonham, suspiram, tateiam
e tudo é verso,“Festa”e encantamento...
Se do devaneio algo os desperta,
Languidamente vão transpondo
a linha imaginária, que só o sonhador conhece.

Há que se ter paciência com os sonhos, as quimeras,
pois é assim que amam os poetas...

Cecília

Monday, June 15, 2009

Susto
de amar e não ser amada
de deixar a vida passar em branco
de nada realizar
de ser diferente
ter um destino diferente
e não aceitá-lo,
não compreendê-lo
Medo
de a ninguém agradar
de ficar só
eternamente...
de me sentir tão só
que a minha dor pareça
única, total, incurável,
incomunicável
Medo,
que me faz seguir caminhos que não quero
que parece não me deixar escolha
a não ser pretender ser outra pessoa,
mais aberta, mais solta
mais firme em suas escolhas,
tudo entendendo:
o que passou, o que se passa agora;
dona do futuro, da própria vida,
um ser livre, em paz,
vivendo conscientemente...

Cecília

Para tantas pessoas, frágeis em sua humanidade...


15-06-09

Fuga

Não importa o que hoje somos:
se vencedores, perdedores,
seguros, inseguros ou apenas sobreviventes;
se somos ainda bonitos,
se chegamos perto dos heróis românticos
que idealizamos enquanto adolescentes...
Isso não mais importa ...
Não importa o que viveste, o que vivi,
se agora estamos
sedentos de amor e de carinho,
portando um sonho,
que aquece os nossos corações.
O abraço que nos damos é pura ternura,
um tocar de almas só possível
por jamais termos perdido a esperança de amar
e sermos amados
de dar e receber carinho
este tão sonhado, almejado,
difícil, e até então negado carinho,
presente agora em nossas mãos se entrelaçando,
enquanto viajamos...

Cecília

Tempo

Traço linhas paralelas imaginárias
Em cada uma visualizo uma figura humana
em diferente fase da vida
Todas na mesma direção
A esperá-las: chi lo sa?
Nessa linha do tempo não há volta nem antecipação
(Não posso voltar e te abraçar, mãe...)

Vida
Para a vida desenho um círculo,
abarcando até quatro gerações.
Para o outro alcançar é só estender a mão
(talvez isto explique nossa forte ligação)


Agora, a contragosto, coloco o círculo na linha
E lá vai ele de roldão: trilhando todo o caminho
que leva... ao ponto de interrogação...

Cecília

Thursday, May 14, 2009

A respeito de ausência e de sonhos

Me dei um tempo
E saí em busca de mim
Encarei meus defeitos
Me enfrentei face a face
Acertei rumos e passo
Não sou mais barreira pra mim.


Meus fantasmas transformo em palavras
Abrigo-os em versos, dou-lhes espaço
E me liberto da inquietação que me passam...


Meu sonho não tem um nome, uma forma, um endereço
Meu sonho não é de glória, não é um homem,
É ter com o que sonhar a minha vida inteira...


O Esfarrapado e o Roto

Juntamos:
A fome com a vontade de comer
A imaginação com o sonho,
Fugas, com pé na estrada
Somos o roto e o esfarrapado...

Trilhamos caminho certo,
mas deixamos uma fresta aberta
E para que não falte tesão...
damos asas à imaginação.

Seremos santos de barro?
Ou se prefere do pau oco...
Mas levamos afeto à sério
e não causamos desgosto...

Escapo... também escapas...
Ousamos?Até que bem pouco
Sonhamos de olhos abertos
Pois somos feitos da mesma matéria,
o esfarrapado e o roto...


Preço

Ninguém tira os pés do chão e voa impunemente
O preço... vale a pena?
Vale viver outra vida, à perfeição retocada,
Colorido filme em que somos protagonistas,
Vale brincar, esculpir imagens, criar roteiros,
Vida paralela ocupando da realidade quase todo o espaço?

Cecília


Ilusões

Não deveria ficar nada...
Ilusão não mata
Nem faz tanto estrago
Nada que um gesto leve não afaste

Fantasias são breves, leves
Chegam, afagam,
Inspiram às vezes versos
E partem

Outras vêm, burlam vigilância,
Cuidado.
Pegam a alma desavisada,
Entediada
E se instalam,
Dando uma falsa sensação
De perene felicidade.
Mas são volúveis, frágeis
E como nuvens se esvaem...

Não era para ter ficado.... nada...

Cecília


Sonho e Vida

Vida é sonho
Os meus procuro ansiosamente
- questão de sobrevivência -
Na pressa os perco, os esqueço
E fica um vazio de assustar
Reajo, encontro uma possibilidade,
Nela me agarro, me distraio.
Aos poucos os outros vou recuperar...

Beijo na boca

Desejo...
Fantasia travessa
Atravessando limites
Se impondo, apesar do medo

Beijo
Maroto, brejeiro
Doce, certeiro
Sonhado
Só um beijo...
Só?
Mas... se desencadeia
uma onda de desejos?

Contida,
Não deixo que nada percebas
Meu desejo adormeço,
Nem olho para tua boca,
mas em sonhos... te beijo

Louca!...


Sonhos são sonhos
Realidade é realidade

Sonho realizado: não é o mesmo sonho.
A realidade já deixou nele sua marca.
Preenche por um tempo, curto tempo,
até que a eterna insatisfação do homem,
lhe cave no peito novo buraco,
e outro sonho tenha que ser sonhado.

Aí é pôr asas no coração,
se abrir para nova emoção
E curtir outra vez desejo,
Ainda com maior grau de intensidade...



O que será que existe....


Fora desse círculo
Além daquela porta
Lá, onde o olhar não alcança
Lugares em que nunca estive
Rostos desconhecidos
Imagino...
Mas não me imagino
por outras terras vagando
Uma outra vida vivendo
Em outras águas imergindo...

Cecília
após longa ausência

Friday, May 08, 2009

Sim, aparência importa

Pam Belluck

Há mais de uma semana, pessoas em ambos os lados do Atlântico têm usado a história de Susan Boyle - a solteirona escocesa desleixada que chegou à fama cantando no programa de TV "Britain's Got Talent" - como um exemplo de quão superficiais nos tornamos.
Não há muito o que você possa fazer a respeito; é o modo como pensam; é o modo como são disse Susan Boyle, comentando a rapidez com que a sociedade julga as aparências. Antes de cantar, Boyle parecia uma mera voluntária de igreja desempregada e desmazelada de 47 anos que morava sozinha com seu gato, Pebbles, e que, segundo ela, nunca teria sido beijada (uma alegação que ela posteriormente retirou).Agora, após o vídeo de sua apresentação ter se tornado viral, uma enxurrada de comentários se concentra em como estereotipamos as pessoas em categorias, como caímos vítima de preconceitos de idade e aparência, e como temos que aprender, de uma vez por todas, a não julgar os livros pela capa.Mas muitos cientistas sociais e outros que estudam a ciência dos estereótipos dizem que há motivos para avaliarmos rapidamente as pessoas com base em sua aparência. Julgamentos rápidos a respeito das pessoas são cruciais para o modo como funcionamos, eles dizem - mesmo quando esses julgamentos são muito errados.Eles até mesmo concordam com a própria Boyle, que disse após sua apresentação que apesar da sociedade ser rápida demais em julgar as pessoas pela aparência, "não há muito o que você possa fazer a respeito; é o modo como pensam; é o modo como são".Em um nível muito básico, julgar as pessoas pela aparência significa colocá-las rapidamente em categorias impessoais, assim como decidir se um animal é um cachorro ou um gato. "Estereótipos são vistos como um mecanismo necessário para entendimento da informação", disse David Amodio, um professor assistente de psicologia da Universidade de Nova York. "Se olharmos para uma cadeira, nós podemos categorizá-la rapidamente, apesar de existirem muitos tipos diferentes de cadeiras."Eras atrás, esta capacidade era de uma importância de vida ou morte, e os seres humanos desenvolveram a capacidade de avaliar outras pessoas em segundos.Susan Fiske, uma professora de psicologia e neurociência de Princeton, disse que tradicionalmente, a maioria dos estereótipos se divide em duas dimensões amplas: se a pessoa parece ter intenção maligna ou benigna e se a pessoa parece perigosa. "Em tempos ancestrais, era importante permanecer distante de pessoas que pareciam furiosas e dominadoras", ela disse.As mulheres também são subdivididas em mulheres "tradicionalmente atraentes", que "não parecem dominadoras, têm traços de bebê", disse Fiske. "Elas não são ameaçadoras."De fato, a atração é uma coisa que reforça o estereótipo e faz com que se cumpra. Pessoas atraentes têm "crédito de serem socialmente hábeis", disse Fiske, e talvez sejam, porque "se uma pessoa é bonita ou simpática, as outras pessoas riem das piadas dela e interagem com ela de uma forma que facilita a interação social"."Se uma pessoa não é atraente, é mais difícil conseguir todas estas coisas porque as outras pessoas não a procuram", ela disse.A idade também tem um papel na criação de estereótipos, com as pessoas mais velhas tradicionalmente vistas como "inofensivas e inúteis", disse Fiske. Na verdade, ela disse, as pesquisas mostraram que os estereótipos raciais e étnicos são mais fáceis de mudar ao longo do tempo do que os estereótipos de gênero e idade, que são "particularmente aderentes".Um motivo para nosso cérebro persistir em usar estereótipos, dizem os especialistas, é por frequentemente nos dar informação precisa de modo geral, mesmo que nem todos os detalhes de encaixem. A aparência de Boyle, por exemplo, telegrafou precisamente grande parte de sua biografia, incluindo seu nível socioeconômico e falta de experiência mundana.
"Britain's Got Talent"
Seu comportamento no palco reforçou uma imagem de pessoa de fora. David Berreby, autor de "Us and Them", sobre o motivo das pessoas categorizarem umas às outras, disse que os telespectadores também podem tê-la julgado severamente porque, nas provocações com os juízes antes de cantar, ela parecia estar, desajeitadamente, tentando se encaixar."Ela tentou ser divertida, e quando lhe perguntaram a sua idade, ela fez aquela dancinha", como se ela presumisse que nesses programas "você supostamente precisa ser meio sensual e elegante, mas se deu mal", disse Berreby. "Nada provoca mais nosso desprezo do que alguém tentar ser aceitável e então fracassar."Quando as pessoas não se encaixam em nossas noções pré-concebidas, nós tendemos a ignorar as contradições, até serem dramáticas demais para ignorar. Nestes casos, disse John F. Dovidio, um professor de psicologia de Yale, nós nos concentramos na contradição - a voz de Boyle, por exemplo. Apesar disso nos fazer vê-la mais como um indivíduo, nós também "encontramos uma forma do mundo fazer sentido de novo, mesmo que para isso digamos: 'Esta é uma situação excepcional'. É mais fácil para mim manter as mesmas categorias na mente do que chegar a uma explicação para as coisas que são discrepantes".Mesmo diante de múltiplas exceções ao estereótipo, nós frequentemente mantemos a categoria geral e simplesmente criamos um subtipo, disse Dovidio.Por exemplo, o presidente Barack Obama contrariou os estereótipos negativos a respeito dos negros, mas algumas pessoas podem ter criado um subtipo de negros - profissionais negros - em vez de contestar o estereótipo geral, disse Dovidio. "Esta é a solução mais simples e que economiza energia cognitivamente."Os cientistas estão descobrindo que os estereótipos não estão simplesmente armazenados no cérebro e são recuperados por ele, mas "estão associados com regiões gerais do cérebro envolvidas na memória e no planejamento de metas", disse Amodio, sugerindo que "as pessoas recrutam estereótipos para ajudá-las a planejar um mundo consistente com a meta que possam ter".A pesquisa de Fiske sugere que as pessoas de status baixo são registradas de forma diferente no cérebro. "A parte do cérebro que normalmente é ativada quando você pensa em pessoas fica surpreendentemente silenciosa quando você olha para moradores de rua", ela disse. "É uma espécie de desumanização neural. Talvez não consigamos suportar a situação horrível em que se encontram, ou não queiramos nos envolver, ou talvez tenhamos medo de nos contaminar."Mas, ela disse, a resposta neural é restaurada quando é pedido para as pessoas se concentrarem em que sopa os moradores de rua possam querer comer, algo que as faz pensar na pessoa como alguém com desejos ou metas.
O fato de podermos mudar nossas reações em relação às pessoas - o status de Boyle passou instantaneamente de baixo para alto - também tem raízes em nossa psicologia, disseram os cientistas.Dovidio disse que encontrar discrepâncias nos estereótipos provavelmente "cria um tipo de estímulo autonômico" em nosso sistema nervoso periférico, provocando picos de cortisol e outros indicadores de estresse. "O estímulo autonômico nós motivará a fazer algo naquela situação", ele disse, especialmente se a situação é perigosa.Helen Fisher, uma professora de antropologia da Rutgers, teoriza que no caso de Boyle, os telespectadores também passaram por uma "onda de dopamina" com a surpresa agradável de ouvir a voz dela. "A novidade aumenta a dopamina no cérebro e faz você se sentir bem", ela disse.Isto pode ajudar a explicar por que tantas pessoas foram atraídas pela história de Susan Boyle. Mas o fato de aceitarem a ela e outros azarões subestimados dificilmente mudará nosso gosto pelo estereótipo.A sociedade moderna, com sua consciência dos preconceitos ao longo da história e sua capacidade sem precedente de apresentar tantos tipos diferentes de pessoas umas às outras, pode diluir ou mesmo neutralizar algumas noções pré-concebidas. Mas outras persistirão e novas surgirão, dizem os especialistas.Este pode ser o motivo para, mesmo após ter expressado a esperança de que "talvez isso possa tê-los ensinado uma lição, ou dado um exemplo", Boyle ter começado a mudar sua aparência nos últimos dias, usando maquiagem, tingindo seu cabelo grisalho e vestindo roupas mais elegantes."A matéria-prima de dizer que você está comigo e ela não está é algo que está sempre presente", disse Berreby. "Não é algo que inventamos por causa da TV ou do carro. Também não é algo ligado à vida moderna. É algo inerente à mente."Tradução: George El Khouri Andolfato

Artigo publicado pela "Folha de São Paulo"após ter saído no New York Times

Friday, March 20, 2009

Atravesso portas e mais portas
Percorrendo curiosa empoeiradas áreas,
Prolongamento desconhecido da minha própria casa.
Por que só agora o acho?
- Sensação de desperdício de tempo e espaço...

No sonho
as portas que nunca abri,
Os mistérios que não tentei desvendar,
Tudo o que podia e não tive ousadia para conquistar...

Cecília Quadros

Tuesday, March 10, 2009

Tenho gana de vida
Se adoeço, me trato
Se caio, me levanto rápido
Se a tristeza me prende, escapo
Não me importam as muletas,
desde que suportem meu peso
pois liberam minha alma,
deixando-a inteira,
livre para a felicidade.
Venço desânimo, distância,
Tudo em nome da afinidade...
Vivo o dia de hoje
não por desapego ao passado,
desencanto ou desesperança.
Só não quero desperdício,
jogar fora um momento
sequer da minha vida.
E assim vou levando,
mais do que sendo levada:
vivendo meu tempo, meu momento,
minha hora... que de resto,
queira ou não queira,
um dia vou ter que ir embora.
Passo eu, passa a vida,
e tudo o que foi,
não será senão história...

Cecília

Friday, March 06, 2009

Quando o inverno chegar

Para esconder a realidade da velhice, diz-se, elegantemente, que se trata de uma pessoa "idosa" ou da "terceira idade"
EU ESTAVA ASSENTADO no palco e observava o auditório lotado. Muitas cabeleiras brancas, muitas cabeleiras grisalhas e muitas calvas brilhantes. Era um público de gente velha. Estavam lá para me ouvir. Havia sido anunciado que eu faria uma fala sobre a terceira idade. Mas eu teria preferido que tivessem anunciado uma conversa sobre velhice... Acho a palavra "velhice" mais poética que a expressão "terceira idade"...Mas essa palavra "velhice" não aparecia no convite. A "linguagem politicamente correta" a havia proibido. Referir-se a alguém como um "velho" era grosseria, ainda que ele ou ela, por força dos anos já vividos, fosse na realidade um velho. Por vezes, a realidade ofende e é preciso criar máscaras e disfarces para escondê-la. Para esconder a realidade da velhice, diz-se, de forma elegante, que se trata de uma pessoa "idosa" ou da "terceira idade".Eu não me considerava idoso e nem me colocava dentro do conjunto da terceira idade, muito embora um repórter de um jornal da minha cidade tenha chamado de "ancião" um senhor de 50 anos que fora atropelado. Segundo os critérios desse jovem, se eu fosse atropelado seria imediatamente promovido à categoria de "ancião"...Feitas as introduções e apresentações preliminares, chegou a minha vez. Fiz silêncio. Olhei demoradamente para os idosos que esperavam de mim um elogio à terceira idade e comecei:"Então os senhores e as senhoras chegaram finalmente a esse glorioso momento da sua vida em que podem se entregar à felicidade de serem totalmente inúteis...".Aí aconteceu o que eu sabia que aconteceria. Não me deixaram continuar. Fui imediatamente interrompido por protestos indignados. Todos queriam provar a sua utilidade. Um dos idosos contou sobre a sua horta. Um senhora descreveu as colchas de retalhos que fazia. Um outro contou sobre o hobby que desenvolvera fazendo brinquedos artesanalmente...Deixei que falassem à vontade. Eu os havia provocado de propósito. Falavam movidos pela ideologia da nossa sociedade, que julga as pessoas da mesma forma como julga as lâminas de barbear, as esferográficas e os filtros de café...Uma lâmina de barbear rombuda, uma esferográfica esgotada, um filtro de café usado deixaram todos de ter utilidade e vão para o lixo. O mesmo acontece com os seres humanos que deixaram de ser úteis.Esgotada a indignação contra mim, acalmados os ânimos, a palavra me foi devolvida: "A Nona Sinfonia de Beethoven é absolutamente inútil. Não há coisa alguma que se possa fazer com ela. Mas uma vassoura, ao contrário, é muito útil. Serve para varrer, tirar o lixo, eliminar as teias de aranha... Vocês estão me dizendo que preferem a vassoura útil à Nona Sinfonia inútil...Vejam esse poeminha da Cecília Meireles: "No mistério do Sem-Fim equilibra-se um planeta. No planeta, um jardim. No jardim, um canteiro. No canteiro, uma violeta. E na violeta, entre o mistério do Sem-Fim e o planeta, o dia inteiro, a asa de uma borboleta".Prá que serve esse poema? Prá nada. É inútil. Já o papel higiênico é muito útil... Vocês estão me dizendo que, no seu julgamento, o papel higiênico vale mais que o poema...Repentinamente os rostos indignados se abriram em sorrisos. E aprenderam a sabedoria dos poetas e artistas, tão bem resumida no aforismo de William Blake: "No tempo de semear, aprender. No tempo de colher, ensinar. E quando o inverno chegar, gozar...".

Rubem Alves

Wednesday, March 04, 2009

Voltei

Deixei minha camisola sob o travesseiro,
o livro de versos na mesma prateleira,
e é como se nunca tivesse partido.
Não quebrei todos os laços,
preservei o meu espaço,
só não estou mais dividida.

Quero diante do espelho
me ver, corpo desnudo
esquadrinhando meu rosto,
analisando meu corpo,
atrás das marcas da vida,
e daquela paixão... finita,
que foi céu, inferno, estorvo.

Despida a veste bonita,
tal qual vestido de noiva,
fica a mulher, mãe, esposa,
e a poesia sem asas, sem vôos...


Cecília

Inquietação

Hoje não sei se gosto, se não gosto,
de quem gosto
Se vou, se não vou, se escrevo, se leio,
se ando, me deito, se saio ou se fico,
com quem saio, com quem fico,
se choro, se rio, se me explico,
se me entendo, se me ignoro,
se me contenho.
Não sei o que faço de mim mesma,
que hoje para mim eu sou só peso,
sem o outro ver e sem nenhum espelho...

Cecília Quadros

Saturday, February 14, 2009

Regressarei

Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas

Sophia de Mello Breyner Andresen

Wednesday, February 11, 2009

Carinho Inesquecível

Nós dois, camas separadas
em quarto tão simples... na praia
estendendo os braços
nos dando as mãos...
Era verão?
Quantos filhos tínhamos?
Nem tudo era paz...
Mas...
No gesto espontâneo,
tanto carinho,
que a memória
envolve, guarda, eterniza...


Cecília
16-01-03

( Fomos tão felizes...)

Tuesday, February 10, 2009

O Último Retalho

Aqui termina o livro.Uma colcha de retalhos, como diz o título. Fala a correr do menino da "tia"Judite, todo ele em estilo coloquial, de quem está conversando com ele próprio. E havia tanto a falar desse tempo. Fala de Lisboa, também correndo, como se quisesse chegar depressa a algum lugar. Acho que fui sempre assim na vida.
Vivendo os momentos, como se a vida fosse terminar no outro dia. Com a intensidade possível; como alguém que espera um sonho maior ao acordar no dia seguinte. E o encontra e o realiza com toda a paixão e fogo de que é possuidor, mas também com a pressa urgente de chegar ao sonho novo, que o amanhã lhe trará.
Fui assim com tudo. Odiando o tédio da coisa repetida; procurando em cada dia a garantia de um amanhã diferente. E talvez só isso possa explicar o porquê de tantas testemunhas, presenças na minha vida.
É a outra imagem de mim, a que me habituei a chamar de Marcos Leal. Poeta, caçador de sensações. Que é feliz hoje em África, enquanto sonha estar amanhã no outro lado do mundo. Que viveu correndo, sem se fixar a coisa nenhuma, nem a ninguém.Esse é que foi o que amou as tempestades, que ia sempre procurar mais longe. Sofrendo com a dor de perder o amor que sentia, mas que partia à procura do amor que adivinhavaestar esperando por ele, no dia seguinte.
Talvez fosse ele que devesse ter escrito a história da sua vida e não eu. A vida dele foi sem dúvida mais interessante, mais cheia de aventura, mais cheia de mulheres bonitas. Enquanto eu, sou um chato. Que ama seus amigos com uma imensa devoção. Que ama a sua família e é fiel a quem ama. Que ama a Pátria onde nasceu um dia, e tudo faz para a honrar e engrandecer, onde quer que esteja.
O Marcos Leal não tem família e não tem Pátria. Ama a quem ama, com imensa intensidade. e se ama a Portugal, da forma como ama, não é porque o sinta Pátria, mas porque o sinta amante. E a família é para ele só e exclusivamente cumplicidade Eu que me preocupe com as regras do não mentir, do cumprir tudo o que se promete, de não falhar com os amigos, de estudar, de ler, tomar banho todos os dias, tirar os cotovelos de cima da mesa às refeições. A relação dele com os filhos é só cumplicidade.
E foi, nesta dualidade entre a responsabilidade e a procura, que fui percorrendo a estrada que estava à minha espera, desde o princípio do sonho e da vida. Com altos e baixos, como costuma acontecer com as estradas. Mas também com muita coerência.
_ Se fui feliz? Se ser feliz é juntar todos os momentos de felicidade, então eu diria que sim; fui muito feliz. Fui feliz, até, quantas vezes, na própria dor, já que até para ser feliz é preciso ter vocação. Todos nós conhecemos pessoas que já nasceram com 200 anos de idade, incapazes de sonhar ou realizar coisas novas. Que se sentam a uma mesa na noite de Natal e começam: - "Será que o peru não vai fazer-me mal? E essa fafofa, não irá provocar-me azia?"
São todos aqueles que toma calmante na noite de núpcias, com medo de ter insônia. Não poderão ser felizes nunca, até porque lhes falta vocação.
A minha mãe é que estava certa:
_ Filho, agradece sempre a Deus o teres nascido. Ele foi tão bom para ti.
E foi.

Rodrigo Leal Rodrigues

( aquele que não canso de homenagear - Cecília)

Monday, February 09, 2009

Metamorfose

Por que os clássicos são pessimistas? Seria o trágico uma moda? Três mil anos de moda?
AO SER indagado se não tinha esperanças, Kafka disse, "esperanças há muitas, mas não para nós". Janouch narra um dia em que ele, com 20 anos, disse a Kafka, então com 40, "hoje não estou entendendo nada do que você diz". Kafka respondeu "deve ser a misericórdia de Deus, porque sendo você jovem, e estando eu hoje pessimista, se você me entendesse, você ficaria mal". Confessa: "o pessimismo é meu pecado".Por que os clássicos são tão pessimistas? Seria o trágico uma moda? Três mil anos de moda? Improvável. Na sua coluna de 21 de janeiro, meu colega ilustrado (velha piada entre nós) Marcelo Coelho critica "meu" pessimismo. Colunistas que "matam a esperança" são supérfluos. O bom jornalismo opinativo é pautado pelo conflito de ideias, por isso, agradeço suas críticas. Ele acha que ao duvidar do Iluminismo reforço forças regressivas na experiência humana. Eu penso que o Iluminismo é que é regressivo porque caminha sobre fantasias enquanto os homens caminham sobre tumbas. Nós modernos somos a raça mais covarde que caminhou sobre a Terra. Não escrevo para tornar a vida do meu leitor melhor. Escrevo e leio para não me sentir só. Quando olho os "avanços" da nossa minúscula história, penso: como nos verão em mil anos? Como a decadência do século 17? Rirão de nós porque demos direitos aos ratos, enquanto fizemos dos bebês lixo reciclável pelo direito de gozar mais? Respondo a pergunta "o que eu acho da Revolução Francesa?" com "ainda é cedo pra dizer qualquer coisa". Imaginem dois africanos no século 19. Um vende o outro como escravo (negros vendiam negros). O escravo é levado para os Estados Unidos e lá sofre todo tipo de horror da escravidão. O outro fica livre e feliz na África. Adiantem o filme. O bisneto do escravo mora nos EUA, casa na praia, filhos na faculdade, e a esposa, bisneta de outro escravo, médica de sucesso. Voltem pra África. Muitos bisnetos do que ficou lá continuam a viver em seus buracos, matando-se do mesmo jeito (como acabou a escravidão, perderam a chance de vender seus "irmãos"). Famílias afundam na miséria. Qual é a moral desta história? Que a escravidão foi uma bênção para os afro-americanos porque os levou para os EUA? E a liberdade do outro, a maldição de seus bisnetos? Os afro-americanos, que hoje celebram a vitória do Obama, depois de muito sofrimento, diriam "ainda bem que nossos bisavós foram escravos"? Não! A escravidão é um horror. A questão é outra: qual o sentido da história humana? Nenhum. A história não é a luta entre a luz e as trevas. Não porque elas não existam, mas porque não sabemos identificar, com o microscópio das ideias claras e distintas de que dispomos, a trama infinita de suas relações. Um homem faz o que pode em meio a opacidade do mundo. Meu pecado é não fazer o marketing da democracia de massa. Falsos sentimentos são comuns nos homens, logo, quanto mais homens, maior a chance de mentira, por isso desconfio de bons sentimentos em grandes quantidades. Mais? Os índios não vivem em comunhão com a natureza, apenas ficaram na idade da pedra em técnicas de domínio da natureza, como muitos africanos que ficaram na África. A ciência e a política tampouco fazem os homens melhores. O mundo não é dividido entre elite má e pobre bom. Se a elite é cruel, o povo é violento e interesseiro. Os homens não são iguais, alguns são melhores. A igualdade ama o medíocre. É mentira que todo mundo possa julgar as coisas por si só. A propaganda desta mentira gera uma horda de invejosos que sonham em destruir quem eles julgam livres. Supérfluo? Mentira. Num mundo parasitado pelo marketing como forma de vida, ser pessimista é um método. Não se trata de dizer morbidamente "o mundo é mau", mas reconhecer que no humano a verdade é uma ferida incurável. A esperança que conta é a do animal ferido. Nada disso implica concordar com crianças mortas. O debate ao redor da esperança não é um problema do quão otimista somos, mas o que em nós nos faria colaborar com nazistas na França ocupada, além do medo. Manter o emprego? A chance de destruir alguém melhor do que eu? Tomar a mulher de alguém? Promoção pessoal? Nada mais banal, nada mais humano. Na "Metamorfose", Gregor Samsa, agora uma barata, vê a delícia que é caminhar de cabeça pra baixo com suas perninhas coladas ao teto. Sente-se finalmente feliz. A barata é a otimista em Kafka. luiz.ponde@grupofolha.com.br

Luiz Felipe Pondé

Sunday, January 25, 2009

O Poema

O poema é fruto de uma inquietação,
que no peito parece não caber
de uma vontade incontrolável de escrever
de sentimentos que não só o seu criador espelham,
pois vêm do âmago, de sua condição humana,
voz da alma se tornando;
sensibilizando com palavras instintivas,
mas com esmero distribuídas - substituídas se preciso -
para que sejam verdadeiros e belos os versos,
cativando, retendo a emoção por algum tempo...


Cecília

Tuesday, January 06, 2009

Em teus braços

quero viver toda a delícia deste amor antigo
a plenitude deste sentimento único
o prazer de ter à flor da pele os meus sentidos
de me sentir ausente e tão dentro deste mundo...

União completa: concreta, mas permitindo vôos
- pois sou poeta -
só que daqui pra frente, prometo, te levando junto...

Cecília

Saturday, January 03, 2009

Alternância

Quero me livrar de todos meus demônios,
tirar de mim tudo o que minh’alma angustia:
pensamentos e lembranças hoje em preto e branco,
refletindo só o meu lado negativo.

Não sei se dou um tempo e hiberno,
para acordar depois em plena primavera,
pois sei que esta é a dança do universo,
sol brilhando depois de rigoroso inverno.

Cecília

Wednesday, December 24, 2008

O Presépio

A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança
MENINO, LÁ EM MINAS , eu tinha inveja dos católicos. Eu era protestante sem saber o que fosse isso. Sabia que, pelo Natal, a gente armava árvores com flocos de algodão imitando neve que não sabíamos o que fosse. Já os católicos faziam presépios.Os pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranqüilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vaga-lumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança.Até os católicos mais humildes faziam um presépio. As despidas salas de visita se transformavam em lugares sagrados. As casas ficavam abertas para quem quisesse se juntar aos reis, pastores e bichos. E nós, meninos, pés descalços, peregrinávamos de casa em casa, para ver a mesma cena repetida e beijar a fita.Nós fazíamos os nossos próprios presépios. Os preparativos começavam bem antes do Natal. Enchíamos latas vazias de goiabada com areia, e nelas semeávamos alpiste ou arroz. Logo os brotos verdes começavam a aparecer. O cenário do nascimento do Menino Jesus tinha de ser verdejante.Sobre os brotos verdes espalhávamos bichinhos de celulóide. Naquele tempo ainda não havia plástico. Tigres, leões, bois, vacas, macacos, elefantes, girafas. Sem saber, estávamos representando o sonho do profeta que anunciava o dia em que os leões haveriam de comer capim junto com os bois e as crianças haveriam de brincar com as serpentes venenosas. A estrebaria, nós mesmos a fazíamos com bambus. E as figuras que faltavam, nós as completávamos artesanalmente com bonequinhos de argila.Tinha também de haver um laguinho onde nadavam patos e cisnes, que se fazia com um pedaço de espelho quebrado. Não importava que os patos fossem maiores que os elefantes. No mundo mágico tudo é possível. Era uma cena "naif". Um presépio verdadeiro tem de ser infantil.E as figuras mais desproporcionais nessa cena tranqüila éramos nós mesmos. Porque, se construímos o presépio, era porque nós mesmos gostaríamos de estar dentro da cena. (Não é possível estar dentro da árvore!).Éramos adoradores do Menino, juntamente com os bichos, as estrelas, os reis e os pastores.Será que essa estória aconteceu de verdade? Foi daquele jeito descrito pelas escrituras sagradas? As crianças sabem que isso é irrelevante. Elas ouvem a estória e a estória acontece de novo. Não querem explicações. Não querem interpretações. A beleza da estória lhes basta. O belo é verdadeiro. Os teólogos que fiquem longe do presépio. Suas interpretações complicam o mundo.O presépio nos faz querer "voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Estamos encantados. Adivinhamos que somos de um outro mundo." (Octávio Paz )Seria tão bom se os pais contassem essa estória para os seus filhos!

Rubem Alves

Thursday, December 18, 2008

O Rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

Manuel Bandeira

Wednesday, December 17, 2008

Momento (sem retorno)

Encontro rápido,
há muito esperado.
Depois, sensação de desperdício:
impressão de momento não plenamente vivido,
sentidos adormecidos.
Fica: lembrança pálida do acontecido
e o desejo impossível de vivê-lo novamente...


Cecília

Friday, December 05, 2008

Independente de mim

Independente de mim
o vento sopra
balança as folhas nas árvores
o céu se enche de nuvens
o sol, desviando delas,
projeta sua luz nas janelas
os pássaros voam
as pessoas andam apressadas pela rua...
Independente de mim,
a Terra se move
a natureza segue o seu curso...
O mundo é mundo,
quer eu adoeça, me entristeça,
quer amanheça alegre e disposta,
quer meu humor mude,
me sinta assustada ou segura,
ou apenas carente,
ou ainda contente com alguma pequena vitória
(talvez ilusória)
Dentro de mim a certeza da minha fragilidade,
impermanência e desamparo...

Cecília

04-12-08

Wednesday, December 03, 2008

A FESTA

A casa
Ontem enfeitei minha casa,
tirei os talheres de prata,
usei as melhores toalhas,
copos, taças, porta-retratos.
Cuidei de cada detalhe,
da sala até o jardim.

Eu
Vesti um vestido preto
pra combinar com os cabelos,
perfumei meu corpo inteiro,
passei um batom carmim.
Costas nuas, salto alto,
para dar aquele toque
e te orgulhares de mim.

O desenrolar
Desci alegre e faceira,
ri, brinquei a noite inteira,
pois tudo corria perfeito,
das canções de George Gershwin,
ao buquê de rosas vermelhas,
que comprara pensando em ti.
Sabia que tu não vinhas,
que cumprias outro destino,
não o de estar ao meu lado.
Mas dei conta do recado,
mantive a paixão bem guardada,
ela que tudo inspirara,
da roupa à decoração
E festejei, e brinquei, e dancei,
até cair de exaustão...

Cecília

Monday, November 24, 2008

Para isso temos que viver tanto
Para sermos mais despojados e magnânimos
Para descomplicar a vida
Para compreendermos os semelhantes
Para amar os animais
Para curtir com mais intensidade a natureza
Para melhor nos conhecermos
Para nos sentir plenos
Para aceitar mudanças
(fora e dentro de nós mesmos)
Para termos o nosso canto
(questão de merecimento)
Para sermos dignos
- sendo ou não a Deus tementes
Para aceitar a vida
ou até amá-la,
sem nos arrependermos de tê-la transmitido
aos nossos descendentes...

Cecília

23-11-08

Thursday, November 20, 2008

Abençoado dia de sol
Pássaros que vejo da minha janela
ruidosos e alegres a passear no céu
(até eles me parecem mais leves e soltos, nesse dia)
Nuvens ausentes, tendo levado meus dissabores,
sombras que povoam a minha vida...
Verde das árvores ainda mais verde
(nada de cores esmaecidas)
Impossível não se alegrar, não ter esperança,
festejar tudo de bom que tenha acontecido.
Manhã tão linda, a quem agradeço esse presente?
A Deus, à vida ?...

Cecília
20-11-08

Monday, November 17, 2008

Amor

"O que será: este labirinto de perguntas e resposta alguma, este insistente rugir de pássaros, este abrir as jaulas, soltar o bicho novelo que há em nós, delicado/feroz morder (deixa sangrar) o outro bicho (deixa, deixa) e toda esta parafernália a parecer truque enquanto obsidiante você mente embora acreditando nas mentiras e eu use os piores estratagemas para cobrir-me a retirada desse vicioso campo de batalha."

Olga Savary

Nuvens

Não há uma só coisa que não seja
nuvem. Assim são essas catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo alisa. A Odisséia, veja,
muda como o mar; há algo distinto
a cada vez que a abrimos. Seu velho
rosto já é outro, visto no espelho,
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A volumosa
nuvem que se desmancha no poente
é a nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte em outra rosa.
Você é nuvem, mar, esquecimento.
E é o que perdeu a cada momento.


Jorge Luis Borges

Friday, November 14, 2008

Somos sedentos de amor
O desejo, mesmo imperceptível,
não se extingue
Se refugia nos sonhos...
Neles amamos
Somos amados
Desejados
Quase tudo é possível,
quase tudo acontece
Mas um pouco de nossa censura
interfere
e a realização dos desejos
nunca é completa.
Se quero este ou aquele
é o sonho que revela.
E o que nele não viver
vira pó e o vento leva...

Cecília

14-11-08