Monday, March 10, 2008

Seres complementares
Deles está cheia a minha vida.
Alguns vivem na sombra,
Outros em sonho,
pouco ou nada
tendo a ver com a realidade.
Mas esta sustentam
com mãos invisíveis
amigas
tornado-a mais suportável...

03-11-04

Sunday, March 02, 2008

Minha Terra

Em minha terra me sinto tão acolhida e integrada,
que às vezes me faltam olhos críticos
ou de justo encantamento
- a ela não pareço estar suficientemente atenta .
Se viajo, outras seguram o meu olhar curioso,
predisposto a delas gostar
- há quase sempre a intenção de voltar.
Mas é à minha terra que sempre retorno,
bendizendo o meu lugar no mundo,
aquele que reconheço como pátria
e me reconhece como filha.

Terra minha,
não apenas um espaço físico,
mas um conjunto de sentimentos,
modos de ser, posturas,
que definem sua alma,
nossa alma brasileira...

Cecília
28-02-08

Monday, February 11, 2008

Fetiche

Ah, tuas mãos...
Mãos de homem
Mãos de menino
Mãos morenas e finas
Mãos de príncipe
Tão bonitas!
Mãos que outras acariciam
Mas nunca irão me tocar
( diversos são os caminhos
não no que tange`a emoção)
Mãos com marcas da vida,
- pequenas imperfeições,
que ainda mais me cativam...
Mãos que aliso e admiro
Reflexo de alma sensível
Tuas mãos... meu fetiche...

Cecília

08-02-08

Encontro com o mar

Eu e o mar
O mar e eu
E mais uma infinidade de gente
Mas quando o frio passa
E se estabelece entre nós intimidade
Particular parece o encontro,
Puro encantamento:
De um lado gosto de sal na boca,
Olhos no azul a mergulhar
Do outro, ondas a abraçar
Usufruo o enlevo,
Depois à praia penso voltar.
Mas, seduzida, prolongo o encontro
O meu encontro com o mar
Suspiro
Me solto
Sinto a sua energia,
Agradeço o momento vivido
E então sim
Estou pronta para o mar deixar...

Cecília

05-02-08

Thursday, January 17, 2008

Despedida

Dizer adeus ao mistério daquela porta cerrada
à luz fosca desse dia abandonado.
Que severa parecias, longínqua e inviolada
flor desse inverno findando.
Recolhi-me entre os crisântemos
que te vestiam tristonhos:
tanto abandono querida uma parede dura
impermeável ao pranto à ternura
levados para te dar. Ao meu sim de desalento
nenhuma resposta ou lamento,
nada. Teu segredo, só ele persistia.
Fiquei noturna, olhando teu esquivo dia.

Dora Ferreira da Silva

Ser Juntos

Se estou só estou contigo
comigo estás e nunca a sós
assim não padecemos nós
por sermos juntos e ao mesmo tempo.
Espelha o amor longinquamente
a imagem terna e breve
mas nunca é antigamente
nossa hora dourada e leve.
Perdemos os nomes - não bastavam
para o colóquio que somos
incessantemente.
Inventamos outros nomes que também
não bastam - e os esquecemos.
Falas em mim e eu em ti
já não sabemos quem somos
imersos no mesmo sono.
Sutil, sonhas em surdina
ou entro no teu sono, retina
aberta para o que de mim
sonhas. Assim nos encontramos
e nunca nos perdemos.

Dora Ferreira da Silva
"Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamoví­vel, e te respiro inteiro."

Hilda Hilst




Thursday, January 10, 2008

Desejo

Queria ser mais bonita, sensual e jovem
para despertar em ti um desejo genuíno, forte,
independente de subterfúgios, imagens eróticas,
que te levassem a perpetrar comigo do amor o ato.
Eu também não seria por elas motivada:
só por ti seria seduzida, tendo no final meu desejo apaziguado.
Assim, no dia seguinte, me veria mais bonita,
mais mulher, plena, iluminada,
desejando por ti ser mais uma vez tomada,
acreditando que teu desejo em mim nascesse e se saciasse
e só comigo o êxtase e a plenitude alcançasses...

Cecília
09-01-08

Thursday, December 20, 2007

Humores

Nos teus humores viajo
Vou da tristeza à felicidade,
como se vontade própria não tivesse
e a tua fosse a minha alegria.
Sou, pois, movida por emoções alheias,
que no fundo desconheço.
Indícios me guiam
talvez por falsos caminhos,
do teu coração mais me afastando
enquanto penso que te conquisto.

Se incapaz sou de ler a tua alma,
mereço que te afastes
ou saias de uma vez da minha vida

Cecília

20-12-07

Presentes para as festas

Nossas tentativas de entender o mundo sempre oscilam entre "zoom in" e "zoom out"
TENHO UM carinho especial pelos livros de imagens de Istvan Banyai. Dois estão disponíveis no Brasil: "Zoom", em sua 16ª reimpressão (Brinque-Book), e "O Outro Lado", que acaba de ser publicado (Cosac Naify). São livros sem palavras, em que a série de imagens constitui uma história e, ao mesmo tempo, uma reflexão.Nesta época de amigos secretos e de propósitos para o Ano Novo, esses dois pequenos livros são o brinde que mais gosto de oferecer. Além de agradar (espero) a adultos e crianças, eles dizem algo essencial sobre minha maneira de pensar e de viver, ou melhor, sobre como gostaria de conseguir pensar e viver. "O Outro Lado" é, dos dois, o mais fantasioso e, talvez, o mais complexo. À força de folheá-lo, cheguei a este resumo de sua sabedoria: 1) sempre há um outro lado; 2) vale a pena, em cada situação, olhar para nós mesmos do ponto de vista daqueles que estamos observando; 3) esse esforço não é apenas um jogo no qual brincaríamos de passar de um lado ao outro do espelho; 4) tampouco trata-se apenas de saber se colocar nos sapatos dos outros (o que já não seria mal); 5) os desenhos revelam que, quando a gente se desloca para o lugar dos outros, quando a gente se mexe para "o outro lado", algo muda: o resultado final não é só a mesma cena vista de ângulos opostos, mas é, de repente, uma nova cena. Veja se você concorda. "Zoom" é de uma leitura mais imediata, mas não por isso é menos rico. Para não estragar o prazer dos leitores, invento uma seqüência parecida com a do livro, mas diferente dela: no começo, você vê alguém de costas, sentado à frente de uma tela de computador, e imagina que esse seja o cenário da história que começa. O zoom, afastando seu olhar, amplia o campo visual, e eis que aparece o seguinte: aquele cenário inicial é uma propaganda de informática numa revista que está nas mãos de alguém sentado na sala de espera do dentista. Antes de decidir que esse seria, então, o cenário da história, espere: o zoom vai recuar de novo. E por aí vai. "Zoom" pode ser lido do começo ao fim (sucessão de ampliações do campo visual - "zoom out") ou do fim ao começo ("zoom in": aproximação progressiva do nosso olhar, que, portanto, enxerga de maneira cada vez mais detalhada, mas também com cada vez menos compreensão do conjunto, que se perde a cada aproximação). Para quem lê do começo ao fim, o livro vale como uma meditação apaziguadora sobre a pouca relevância das pequenas coisas nas quais encalha o narcisismo da gente -a começar pela nossa própria pessoa. Ele lembra um pouco aquelas fantasias por meio das quais as crianças tentam aliviar o fardo do olhar dos pais, que permanentemente tenta convencê-las de que elas são seres únicos e extraordinários. Nessas fantasias, as crianças imaginam, por exemplo, que nosso "universo" seja apenas um viveiro de bactérias no ventre de um gigante -os terremotos e as inundações sendo, respectivamente, acessos de tosse ou bebedeiras de nosso hóspede desmedido. E não acaba assim: o gigante, por sua vez, sem se dar conta, poderia ser um vírus no corpo de um supergigante, que, por sua vez... Mas, fora esse exercício salutar, que encolhe o narcisismo (ele sim, gigantesco) do qual sofremos normalmente, "Zoom" é também uma espécie de meditação, por assim dizer, cognitiva. Explico. Nossas tentativas de entender e explicar o mundo estão sempre oscilando entre um "zoom in" e um "zoom out". Ou seja, entre a aproximação máxima que nos permite encontrar a causa de nossos males no microscópio (invasores invisíveis, genes, cromossomos etc.) e a distância máxima que nos leva a procurar a explicação do que acontece, por exemplo, na disposição dos astros na hora de nosso nascimento ou no dia de hoje. Com isso, alimentamos oposições, quase sempre estéreis, entre explicações pelo infinitamente pequeno e explicações pelo quadro mais amplo -no meu campo, entre a descrição da química invisível que regula nossa mente e a consideração de eventos externos que nos afetam. Meu propósito, para o ano que vem, é que a gente não fique travado carregando na mão apenas duas objetivas separadas, uma macro e uma teleobjetiva, mas que estejamos dispostos a acionar constantemente o nosso zoom -"zoom in" e "zoom out". E também, quase ia esquecer, que sejamos capazes de enxergar sempre "o outro lado".

Contardo Calligaris

Monday, December 17, 2007

Cecília

Quantos artistas
Entoam baladas
Para suas amadas
Com grandes orquestras
Como os invejo
Como os admiro
Eu, que te vejo
E nem quase respiro

Quantos poetas
Românticos, prosas
Exaltam suas musas
Com todas as letras
Eu te murmuro
Eu te suspiro
Eu, que soletro
Teu nome no escuro

Me escutas, Cecília
Mas eu te chamava em silêncio
Na tua presença
Palavras são brutas

Pode ser que entreabertos
Meus lábios de leve
Tremessem por ti
Mas nem as sutis melodias
Merecem, Cecília, teu nome
Espalhar por aí
Como tantos poetas
Tantos cantores
Tantas Cecílias
Com mil refletores
Eu, que não digo
Mas ardo de desejo
Te olho
Te guardo
Te sigo
Te vejo dormir

Chico Buarque

Friday, December 14, 2007

Escolha

Escolhi a felicidade.
Uma felicidade relativa, possível, sem fantasias.
Existe?
Sem me rachar por dentro para alcançar alturas,
para as quais não tenho asas;
ou se as tenho, falta coragem, empenho.
Então me contento com o pouco,
que não é tão pouco,
pois me acalma por um tempo.
Só que ao menor sinal de problema,
solta-se a imaginação novamente,
a fim de aquietar com fantasias
o coração sensível e exigente,
que à razão tantas vezes se submete,
não na essência.
Coração rebelde,
carro-chefe da minha vida,
que minhas ilusões carrega,
me leva para frente,
difere, distingue,
se insinua em olhares, sorrisos e gestos,
que só os iguais captam e compreendem...
Escolhi esse jeito de ser meio escondido,
vivendo talvez a metade do que poderia,
mas em paz... talvez apenas sobrevivendo...


Cecília

Colcha de retalhos ( 2 )

Pedaço por pedaço,
como noiva, costuro minha colcha de retalhos.
Ligo sonhos, momentos passados, inesquecíveis olhares,
diálogos, que em minha memória permanecem gravados,
tudo formando uma história única, sem igual:
história de amor e amizade, carinho e lealdade.
Cada pedaço dessa colcha tem seu colorido, beleza, significado
e o todo é o meu, o seu, o nosso retrato,
ainda sem marcas do tempo, que tudo desgasta.
Muitas águas sobre ela rolarão;
deveremos, pois, lhe dispensar muito cuidado.
Só assim permanecerão suas cores originais:
o vermelho da paixão, o verde da esperança,
o azul da pureza e todas as outras cores
a representar a amizade, que a tudo deu início,
e deve ser cuidadosamente preservada.
Amizade: sentimento que traz em si paz e permanência,
anseio maior da humanidade...

Com afeto, serenamente,
costuro nossa colcha de retalhos...


Cecília

Ressonar ( 2 )

Pousa
sobre meu braço
tua cabeça,
e dorme.
faz como o viajante
que longamente andou,
cansado,
e encontra afinal,
em meu porto,
o seu abrigo.
Ao lado do meu,
estende o teu corpo,
e como a criança,
abandonada ao calor da mãe,
cerra teus olhos sobre o dia,
e dorme.
com teu afeto,
faz-me sentir de novo um menino,
quando mais pareço homem.
faz reviver, dentro de mim,
o ser antigo.
Sobre meu braço
pousa tua cabeça,
e docemente, amiga,
dorme.

Sérgio Paolozzi

Amanhecer

24 horas.
Inumeráveis gotas de infinito
que eu devo, uma a uma,
devotamente,
apalpar, saborear, sorver.
O dia está entrando
pela janela,
ou está saindo, de mim,
prá fora dela?

Sérgio Paolozzi

Friday, November 30, 2007

"E ainda que as janelas se fechem, meu pai, é certo que amanhece"

Hilda Hilst

Thursday, November 22, 2007

Vida

Ao longo da vida
a gente se perde, se acha,
se fere, se abraça
erra, acerta,
se perdoa, se amaldiçoa
segue, persegue
algo distante,
que não tem tamanho
talvez Felicidade,
Paz ou algo mais....
Voltar? Só em sonho
ou pensamento
Nunca se tem uma chance,
de no passado mexer.
Pelo caminho deixamos
marcas, plantas,
que um dia hão de crescer:
nossos filhos, nossos amigos,
um pouco de nossa alegria
nosso jeito de viver
(e quem sabe também
o gosto de escrever)...
Deixamos portas abertas,
caminho um pouco mais livre
de pedras, poeira e espinhos.
Talvez esteja aí
O porquê de existirmos,
a razão do nosso viver
Parece tão simples...
E é...
O que nos cabe provar?
Erros...
São parte deste sofrido,
por vezes alegre,
apaixonante caminhar...

Cecília

"Day After"

O que fiz hoje do meu dia?
Andei meio às cegas e às tontas pela casa,
passando por tudo indiferente, apática
Depois me atirei aos braços de “ Morfeu”,
sem nada perder ou ganhar,
nem um sonho a explicar esta entrega absoluta,
inusitada, sem remorsos:
um nada noutro nada se perdendo...
E assim o banho (de banheira) logo a seguir
- o silêncio me envolvendo como a água quente...
Eu tão ausente, me dando um tempo, trancada em mim...
Só então, corpo aquecido e relaxado,
desponta o pensamento que explica o dia, a preguiça o cansaço, a ressaca:
“Em boca fechada não entra mosca”,
única lição do drama que vivi (ressalvado o direito de sentir)
Silenciosos, em sintonia com meu estado de espírito, continuam:
as filhas caninas, a tv, os telefones, a casa, o quarto.
E penso: palavras, hoje, só escritas, sujeitas ao “delete”
... ou à borracha.

Cecília

29-10-07

Sunday, November 18, 2007

Yoko Ono

CONTARDO CALLIGARIS


Ela defende a pequena liberdade íntima e concreta do fazer -a mais difícil e preciosa

NO SÁBADO passado, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, foi aberta a exposição retrospectiva de Yoko Ono. Não deixe de visitá-la (até 3 de fevereiro de 2008), mas escolha bem o momento: a abertura foi um desastre. Para ver uma obra que fala de liberdade, houve filas, barreiras e distribuição de fichas.
Na quinta-feira anterior, no Teatro Municipal, Yoko Ono fez uma performance que foi constrangedora. Como foi a única, sorte de quem não esteve lá.
Yoko Ono já era uma artista relevante quando ela encontrou John Lennon. A lenda conta que Lennon se apaixonou por ela por causa de uma obra, "Ceiling Painting" (pintura no teto), de 1966. Trata-se de uma escada branca no topo da qual você encontra uma lupa, com que é possível ler uma inscrição: "Yes". É um apelo bonito à nossa capacidade de viver e de mudar o mundo: "sim", é permitido desejar, basta se dar a pena de subir a escada.
O espírito da contracultura americana poderia ser resumido pelo "Yes" de Yoko Ono ou pelo "Do It" (faça-o) de Jerry Rubin. Não é só um enfrentamento com a autoridade; é a luta contra as resistências internas que nos impedem de agir (e desobedecer, se for preciso).
No CCBB, é proibido tocar na escada de "Ceiling Painting". O que fazer? No espírito da exposição, subir a escada encarando os seguranças?
Ou negar o sentido da exposição e acatar a proibição?
Nos anos 60, eu teria subido e armado um barraco, mas os tempos mudaram. Na época, se comprasse uma briga, a metade dos visitantes me apoiaria, e talvez a coisa terminasse na demolição do CCBB por uma turma de revoltados, até a chegada da polícia. Hoje, eu seria um vândalo isolado.
Por causa dessa mudança dos tempos, na exposição, as peças interativas (quadros para pintar ou para encher de pregos, cacos que podemos rejuntar com cola etc.) são tristes pela modéstia bem comportada de quem aceita o convite a se expressar. Por exemplo, somos convidados a escrever um desejo num papel que penduraremos na "Árvore do Desejo", a qual, no fim da exposição, ficará carregada de sonhos e aspirações.
Escutei duas mulheres comentando que seria legal montar uma árvore dessas para o Natal. Pendurar desejos é mais divertido do que pendurar anjinhos e bolinhas, mas que desejos serão confessados no espaço familiar e meloso da festa natalina?
Enfim, o conjunto da obra de Yoko Ono é forte e corajoso; é difícil não ser tocado por trabalhos como "Espécies em Extinção" ou "Objetos de Sangue". Mas tenho um carinho especial pelas "Instruções". São "receitas" para criar uma "obra de arte", que pode ser um objeto ou um comportamento.
Desde os anos 60, as "instruções" são a marca registrada da arte conceitual, pela qual a obra pode ser reduzida ao seu "conceito", ou seja, às instruções necessárias para que cada um possa criá-la. As instruções de Yoko Ono, escritas em japonês ou, quando são em inglês, numa caligrafia cuneiforme lindíssima, são breves poemas para um domingo de manhã em que você está sozinho, em paz e com vontade de tentar algo que você nunca fez: pintar uma aquarela, seguir um desconhecido na rua, olhar para o céu pelo buraco que você se permitiu fazer na cortina da sala. Yoko Ono defende a pequena liberdade íntima e concreta do fazer. É a liberdade mais difícil, mais verdadeira e mais preciosa.
Com o tempo, vários artistas conceituais, em vez de praticar a redução da obra às instruções para produzi-la, entenderam que, por eles serem "conceituais", deviam roubar a cena aos filósofos e pensar nas "grandes questões" do mundo. De repente, muitas obras conceituais se transformaram em lugares comuns primários.
É o que aconteceu na performance de quinta-feira. Aprendemos, por exemplo, que é ruim bombardear cidades, que as guerras matam pessoas e não é legal jogar vitríolo na cara das mulheres, as quais se libertam parando de usar sutiã. São coisas que eu já suspeitava -eu e todas as torcidas do país. Revisar esses "pensamentos" graças a imagens-clichês num telão e músicas cantadas num clima de show pop, com lançamento de beijinhos e lembrançinhas para o público... haja paciência.
Para esquecer esse mau momento, basta visitar a exposição do CCBB e seguir uma instrução qualquer da própria Yoko Ono. Por exemplo (estou escrevendo no domingo): "Disponha seu quarto do jeito que você deseja que esteja sua mente".

Wednesday, October 31, 2007

Suavíssima

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma . . .
Fica-se longe, quase morta, como ausente . . .
Sem ter certeza de ninguém . . . de coisa alguma . . .
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,
De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tão para lá! . . . No fim da tarde . . . além da bruma . . .
E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma . . .
Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

Cecília Meireles