Monday, February 09, 2009

Metamorfose

Por que os clássicos são pessimistas? Seria o trágico uma moda? Três mil anos de moda?
AO SER indagado se não tinha esperanças, Kafka disse, "esperanças há muitas, mas não para nós". Janouch narra um dia em que ele, com 20 anos, disse a Kafka, então com 40, "hoje não estou entendendo nada do que você diz". Kafka respondeu "deve ser a misericórdia de Deus, porque sendo você jovem, e estando eu hoje pessimista, se você me entendesse, você ficaria mal". Confessa: "o pessimismo é meu pecado".Por que os clássicos são tão pessimistas? Seria o trágico uma moda? Três mil anos de moda? Improvável. Na sua coluna de 21 de janeiro, meu colega ilustrado (velha piada entre nós) Marcelo Coelho critica "meu" pessimismo. Colunistas que "matam a esperança" são supérfluos. O bom jornalismo opinativo é pautado pelo conflito de ideias, por isso, agradeço suas críticas. Ele acha que ao duvidar do Iluminismo reforço forças regressivas na experiência humana. Eu penso que o Iluminismo é que é regressivo porque caminha sobre fantasias enquanto os homens caminham sobre tumbas. Nós modernos somos a raça mais covarde que caminhou sobre a Terra. Não escrevo para tornar a vida do meu leitor melhor. Escrevo e leio para não me sentir só. Quando olho os "avanços" da nossa minúscula história, penso: como nos verão em mil anos? Como a decadência do século 17? Rirão de nós porque demos direitos aos ratos, enquanto fizemos dos bebês lixo reciclável pelo direito de gozar mais? Respondo a pergunta "o que eu acho da Revolução Francesa?" com "ainda é cedo pra dizer qualquer coisa". Imaginem dois africanos no século 19. Um vende o outro como escravo (negros vendiam negros). O escravo é levado para os Estados Unidos e lá sofre todo tipo de horror da escravidão. O outro fica livre e feliz na África. Adiantem o filme. O bisneto do escravo mora nos EUA, casa na praia, filhos na faculdade, e a esposa, bisneta de outro escravo, médica de sucesso. Voltem pra África. Muitos bisnetos do que ficou lá continuam a viver em seus buracos, matando-se do mesmo jeito (como acabou a escravidão, perderam a chance de vender seus "irmãos"). Famílias afundam na miséria. Qual é a moral desta história? Que a escravidão foi uma bênção para os afro-americanos porque os levou para os EUA? E a liberdade do outro, a maldição de seus bisnetos? Os afro-americanos, que hoje celebram a vitória do Obama, depois de muito sofrimento, diriam "ainda bem que nossos bisavós foram escravos"? Não! A escravidão é um horror. A questão é outra: qual o sentido da história humana? Nenhum. A história não é a luta entre a luz e as trevas. Não porque elas não existam, mas porque não sabemos identificar, com o microscópio das ideias claras e distintas de que dispomos, a trama infinita de suas relações. Um homem faz o que pode em meio a opacidade do mundo. Meu pecado é não fazer o marketing da democracia de massa. Falsos sentimentos são comuns nos homens, logo, quanto mais homens, maior a chance de mentira, por isso desconfio de bons sentimentos em grandes quantidades. Mais? Os índios não vivem em comunhão com a natureza, apenas ficaram na idade da pedra em técnicas de domínio da natureza, como muitos africanos que ficaram na África. A ciência e a política tampouco fazem os homens melhores. O mundo não é dividido entre elite má e pobre bom. Se a elite é cruel, o povo é violento e interesseiro. Os homens não são iguais, alguns são melhores. A igualdade ama o medíocre. É mentira que todo mundo possa julgar as coisas por si só. A propaganda desta mentira gera uma horda de invejosos que sonham em destruir quem eles julgam livres. Supérfluo? Mentira. Num mundo parasitado pelo marketing como forma de vida, ser pessimista é um método. Não se trata de dizer morbidamente "o mundo é mau", mas reconhecer que no humano a verdade é uma ferida incurável. A esperança que conta é a do animal ferido. Nada disso implica concordar com crianças mortas. O debate ao redor da esperança não é um problema do quão otimista somos, mas o que em nós nos faria colaborar com nazistas na França ocupada, além do medo. Manter o emprego? A chance de destruir alguém melhor do que eu? Tomar a mulher de alguém? Promoção pessoal? Nada mais banal, nada mais humano. Na "Metamorfose", Gregor Samsa, agora uma barata, vê a delícia que é caminhar de cabeça pra baixo com suas perninhas coladas ao teto. Sente-se finalmente feliz. A barata é a otimista em Kafka. luiz.ponde@grupofolha.com.br

Luiz Felipe Pondé

Sunday, January 25, 2009

O Poema

O poema é fruto de uma inquietação,
que no peito parece não caber
de uma vontade incontrolável de escrever
de sentimentos que não só o seu criador espelham,
pois vêm do âmago, de sua condição humana,
voz da alma se tornando;
sensibilizando com palavras instintivas,
mas com esmero distribuídas - substituídas se preciso -
para que sejam verdadeiros e belos os versos,
cativando, retendo a emoção por algum tempo...


Cecília

Tuesday, January 06, 2009

Em teus braços

quero viver toda a delícia deste amor antigo
a plenitude deste sentimento único
o prazer de ter à flor da pele os meus sentidos
de me sentir ausente e tão dentro deste mundo...

União completa: concreta, mas permitindo vôos
- pois sou poeta -
só que daqui pra frente, prometo, te levando junto...

Cecília

Saturday, January 03, 2009

Alternância

Quero me livrar de todos meus demônios,
tirar de mim tudo o que minh’alma angustia:
pensamentos e lembranças hoje em preto e branco,
refletindo só o meu lado negativo.

Não sei se dou um tempo e hiberno,
para acordar depois em plena primavera,
pois sei que esta é a dança do universo,
sol brilhando depois de rigoroso inverno.

Cecília

Wednesday, December 24, 2008

O Presépio

A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança
MENINO, LÁ EM MINAS , eu tinha inveja dos católicos. Eu era protestante sem saber o que fosse isso. Sabia que, pelo Natal, a gente armava árvores com flocos de algodão imitando neve que não sabíamos o que fosse. Já os católicos faziam presépios.Os pinheiros eram bonitos, mas não me comoviam como o presépio: uma estrela no céu, uma cabaninha na terra coberta de sapé, Maria, José, os pastores, ovelhas, vacas, burros, misturados com reis e anjos numa mansa tranqüilidade, os campos iluminados com a glória de Deus, milhares de vaga-lumes acendendo e apagando suas luzes, tudo por causa de uma criancinha. A contemplação de uma criancinha amansa o universo. O Natal anuncia que o universo é o berço de uma criança.Até os católicos mais humildes faziam um presépio. As despidas salas de visita se transformavam em lugares sagrados. As casas ficavam abertas para quem quisesse se juntar aos reis, pastores e bichos. E nós, meninos, pés descalços, peregrinávamos de casa em casa, para ver a mesma cena repetida e beijar a fita.Nós fazíamos os nossos próprios presépios. Os preparativos começavam bem antes do Natal. Enchíamos latas vazias de goiabada com areia, e nelas semeávamos alpiste ou arroz. Logo os brotos verdes começavam a aparecer. O cenário do nascimento do Menino Jesus tinha de ser verdejante.Sobre os brotos verdes espalhávamos bichinhos de celulóide. Naquele tempo ainda não havia plástico. Tigres, leões, bois, vacas, macacos, elefantes, girafas. Sem saber, estávamos representando o sonho do profeta que anunciava o dia em que os leões haveriam de comer capim junto com os bois e as crianças haveriam de brincar com as serpentes venenosas. A estrebaria, nós mesmos a fazíamos com bambus. E as figuras que faltavam, nós as completávamos artesanalmente com bonequinhos de argila.Tinha também de haver um laguinho onde nadavam patos e cisnes, que se fazia com um pedaço de espelho quebrado. Não importava que os patos fossem maiores que os elefantes. No mundo mágico tudo é possível. Era uma cena "naif". Um presépio verdadeiro tem de ser infantil.E as figuras mais desproporcionais nessa cena tranqüila éramos nós mesmos. Porque, se construímos o presépio, era porque nós mesmos gostaríamos de estar dentro da cena. (Não é possível estar dentro da árvore!).Éramos adoradores do Menino, juntamente com os bichos, as estrelas, os reis e os pastores.Será que essa estória aconteceu de verdade? Foi daquele jeito descrito pelas escrituras sagradas? As crianças sabem que isso é irrelevante. Elas ouvem a estória e a estória acontece de novo. Não querem explicações. Não querem interpretações. A beleza da estória lhes basta. O belo é verdadeiro. Os teólogos que fiquem longe do presépio. Suas interpretações complicam o mundo.O presépio nos faz querer "voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Estamos encantados. Adivinhamos que somos de um outro mundo." (Octávio Paz )Seria tão bom se os pais contassem essa estória para os seus filhos!

Rubem Alves

Thursday, December 18, 2008

O Rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refletí-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

Manuel Bandeira

Wednesday, December 17, 2008

Momento (sem retorno)

Encontro rápido,
há muito esperado.
Depois, sensação de desperdício:
impressão de momento não plenamente vivido,
sentidos adormecidos.
Fica: lembrança pálida do acontecido
e o desejo impossível de vivê-lo novamente...


Cecília

Friday, December 05, 2008

Independente de mim

Independente de mim
o vento sopra
balança as folhas nas árvores
o céu se enche de nuvens
o sol, desviando delas,
projeta sua luz nas janelas
os pássaros voam
as pessoas andam apressadas pela rua...
Independente de mim,
a Terra se move
a natureza segue o seu curso...
O mundo é mundo,
quer eu adoeça, me entristeça,
quer amanheça alegre e disposta,
quer meu humor mude,
me sinta assustada ou segura,
ou apenas carente,
ou ainda contente com alguma pequena vitória
(talvez ilusória)
Dentro de mim a certeza da minha fragilidade,
impermanência e desamparo...

Cecília

04-12-08

Wednesday, December 03, 2008

A FESTA

A casa
Ontem enfeitei minha casa,
tirei os talheres de prata,
usei as melhores toalhas,
copos, taças, porta-retratos.
Cuidei de cada detalhe,
da sala até o jardim.

Eu
Vesti um vestido preto
pra combinar com os cabelos,
perfumei meu corpo inteiro,
passei um batom carmim.
Costas nuas, salto alto,
para dar aquele toque
e te orgulhares de mim.

O desenrolar
Desci alegre e faceira,
ri, brinquei a noite inteira,
pois tudo corria perfeito,
das canções de George Gershwin,
ao buquê de rosas vermelhas,
que comprara pensando em ti.
Sabia que tu não vinhas,
que cumprias outro destino,
não o de estar ao meu lado.
Mas dei conta do recado,
mantive a paixão bem guardada,
ela que tudo inspirara,
da roupa à decoração
E festejei, e brinquei, e dancei,
até cair de exaustão...

Cecília

Monday, November 24, 2008

Para isso temos que viver tanto
Para sermos mais despojados e magnânimos
Para descomplicar a vida
Para compreendermos os semelhantes
Para amar os animais
Para curtir com mais intensidade a natureza
Para melhor nos conhecermos
Para nos sentir plenos
Para aceitar mudanças
(fora e dentro de nós mesmos)
Para termos o nosso canto
(questão de merecimento)
Para sermos dignos
- sendo ou não a Deus tementes
Para aceitar a vida
ou até amá-la,
sem nos arrependermos de tê-la transmitido
aos nossos descendentes...

Cecília

23-11-08

Thursday, November 20, 2008

Abençoado dia de sol
Pássaros que vejo da minha janela
ruidosos e alegres a passear no céu
(até eles me parecem mais leves e soltos, nesse dia)
Nuvens ausentes, tendo levado meus dissabores,
sombras que povoam a minha vida...
Verde das árvores ainda mais verde
(nada de cores esmaecidas)
Impossível não se alegrar, não ter esperança,
festejar tudo de bom que tenha acontecido.
Manhã tão linda, a quem agradeço esse presente?
A Deus, à vida ?...

Cecília
20-11-08

Monday, November 17, 2008

Amor

"O que será: este labirinto de perguntas e resposta alguma, este insistente rugir de pássaros, este abrir as jaulas, soltar o bicho novelo que há em nós, delicado/feroz morder (deixa sangrar) o outro bicho (deixa, deixa) e toda esta parafernália a parecer truque enquanto obsidiante você mente embora acreditando nas mentiras e eu use os piores estratagemas para cobrir-me a retirada desse vicioso campo de batalha."

Olga Savary

Nuvens

Não há uma só coisa que não seja
nuvem. Assim são essas catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo alisa. A Odisséia, veja,
muda como o mar; há algo distinto
a cada vez que a abrimos. Seu velho
rosto já é outro, visto no espelho,
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A volumosa
nuvem que se desmancha no poente
é a nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte em outra rosa.
Você é nuvem, mar, esquecimento.
E é o que perdeu a cada momento.


Jorge Luis Borges

Friday, November 14, 2008

Somos sedentos de amor
O desejo, mesmo imperceptível,
não se extingue
Se refugia nos sonhos...
Neles amamos
Somos amados
Desejados
Quase tudo é possível,
quase tudo acontece
Mas um pouco de nossa censura
interfere
e a realização dos desejos
nunca é completa.
Se quero este ou aquele
é o sonho que revela.
E o que nele não viver
vira pó e o vento leva...

Cecília

14-11-08

Wednesday, October 22, 2008

O Amor é triste

Sim, poeta, o amor é triste, eu também sei...
Se o vivemos com intensidade, doçura, plenamente,
entre belos sentimentos se insinuam dúvida
- difícil viver felicidade – e temor de perda:
melhor se resguardar que tudo passa...

Sim, o Amor é triste...
Às vezes amamos tanto e nem sabemos,
Tão ocupados estamos,
Ou desligados de nossos próprios sentimentos.
Temos Amor, mas não o vivemos

É triste o amor...
Nele cremos, por ele ansiamos
E no entanto sempre nos parece,
que só aos outros acontece, como um prêmio...
Temos o sonho de amar, mas não vivência...

E coincidência no amor ... por que tão rara?
Dá para entender a dor quando ele acaba.
E acaba... pois nada é permanente
E então não somos mais
do que meros, cabisbaixos, sobreviventes...

Cecília

homenagem a Carlos Drummond de Andrade

Tuesday, October 21, 2008

Nuvens

Nuvens no céu
e em meu coração projetadas
Do céu não posso tirá-las
Mas de mim... Será que falta vontade?
Se removo a cortina o que acho?
Por certo uma luz ainda brilha,
é questão de captá-la
e fazê-la atravessar
nuvens chuvas tempestades
até se alojar nos olhos
e depois em outros olhos
daquele a quem chamo ‘amado”...

Enquanto divago
vão-se as nuvens e o céu agora está claro...

Cecília
19-10-08

Monday, October 20, 2008

Consciente Escolha

Reatamos
“Nada foi cortado”, você diria.
Básico
Mas sei que emendamos, refizemos, trabalho árduo...
Recompensa: o sono dos justos, a tranqüilidade
Amor, amizade?
Pouco importa, retomamos a caminhada
e muito bem acompanhados:
filhos, netos, genro, nora, amigos
Segue: trabalho, poesias, cinemas, teatros, companhia;
renovamos a casa, os votos, consciente escolha.
E seguimos juntos, não sem algum esforço,
Transformando irritação em atitude doce,
removendo espinhos e cultivando flores...

Cecília

Belo Belo II

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

Manuel Bandeira

Friday, October 17, 2008

Amando (Canto da Lua)

Não sei viver o amor de forma tranqüila
Me inquietam as ausências, os silêncios, as partidas...
Até os encontros em meio a sobressaltos são vividos:
O susto de amar, de deixar de amar
De ser só fruto de uma fantasia
Ou apenas um momento dentro de uma vida...

O coração vai à boca
e só na solidão me acalmo
e me abandono a este prazer
(o prazer de amar ) que é infinito...
“Canto da Lua ”
É lá que me refugio...

Cecília

Saturday, October 04, 2008

Que é a poesia?

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Eis a diferença entre o poema e demais entes: não olvida a natureza líquida de todas as coisas
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PARA DIZER o que penso ser a poesia, recorro, em primeiro lugar, ao poema "O Rio", de Manuel Bandeira: "Ser como o rio que deflui/ Silencioso dentro da noite./ Não temer as trevas da noite./ Se há estrelas nos céus, refleti-las./ E se os céus se pejam de nuvens,/ Como o rio as nuvens são água,/ Refleti-las também sem mágoa/ Nas profundidades tranqüilas". Desde o título, "O Rio", torna-se inevitável pensar no famoso rio do filósofo grego Heráclito, em que não é possível pisar duas vezes. O primeiro verso reforça essa impressão: "Ser como o rio"... Mas a sentença de Heráclito -aparte certas interpretações recherchées- enfatiza o mobilismo universal, o fato de que coisa nenhuma jamais permanece a mesma. O rio de Bandeira, ao contrário, é em primeiro lugar a própria imagem da constância e até de um certo estoicismo: "Ser como o rio que deflui/ Silencioso dentro da noite./ Não temer as trevas da noite".
O rio a defluir silenciosamente dentro da noite não teme as trevas da noite porque ele é também o rio da noite, isto é, a noite enquanto rio. O infinitivo aqui é implicitamente desiderativo: ele manifesta um desejo. Mas quem é que aqui deseja? Talvez se possa dizer que aquele que deseja é o poeta, ou talvez o "eu" lírico, o heterônimo, o personagem em que o poeta se transforma para escrever o poema; mas o infinitivo excede qualquer subjetividade, qualquer "eu". A rigor, não interessa quem deseja, mas apenas o próprio desejo, que se identifica com o ser. Feito um fenômeno da natureza, feito o próprio rio silencioso dentro da noite e feito a própria noite, o desejo, o ser, os versos do poema e o próprio poema estão lá, no infinitivo, silenciosos como o rio e como a noite. Fundem-se no poema o leitor, o poeta, a noite, o rio, as estrelas: "Se há estrelas nos céus, refleti-las./ E se os céus se pejam de nuvens,/ Como o rio as nuvens são água,/ Refleti-las também sem mágoa / Nas profundidades tranqüilas".
Se há estrelas nos céus, o poema as tem na superfície. Se há nuvens que o impedem de refletir as estrelas, aquelas são refletidas na profundidade do seu ser, pois as nuvens são feitas da mesma água que ele. Aqui é de Tales, o primeiro filósofo grego, para quem tudo vem da água e tudo volta para a água, mais do que de Heráclito, que me lembro.
E me lembro sobretudo do poeta Jorge Luis Borges, para quem, segundo o poema "Nuvens (I)", do qual faço a seguir uma tradução literal, recomendando, porém, veementemente ao leitor que não deixe de consultar o belíssimo original castelhano: "Não haverá uma só coisa que não seja/ uma nuvem. São nuvens as catedrais/ de vasta pedra e bíblicos cristais/ que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia/ que muda como o mar. Algo há distinto/ cada vez que a abrimos. O reflexo/ de tua cara já é outro no espelho/ e o dia é um duvidoso labirinto./ Somos os que se vão. A numerosa/ nuvem que se desfaz no poente/ é nossa imagem. Incessantemente/ a rosa se converte noutra rosa./ És nuvem, és mar, és olvido./ És também aquilo que perdeste".
As nuvens são as transformações da água originária, isto é, são todos os entes que o tempo aplanará. Também são nuvens os versos do poema de Homero. Há entretanto uma diferença: os entes em geral perderam a memória de sua origem aquática e se esqueceram de que são nuvens. A "Odisséia", porém -o poema por excelência-, muda como o mar. Algo há distinto cada vez que a abrimos. Eis a diferença entre o poema e os demais entes: o poema jamais olvida, no fluxo de sua superfície significante, morfológica, sintática, melódica, rítmica e de suas submersas correntes semânticas, a natureza líquida de todas as coisas e, principalmente, de si próprio.
Lembro que outro dos primeiros filósofos gregos, Anaximandro, dizia que todos os entes determinados provêm do indeterminado (que ele chamava "ápeiron") e têm como causa o indeterminado -que podemos entender como o movimento, a mudança, a vida, o tempo- do qual provêm. Em cada um deles, porém, o indeterminado se transformou em algum ente determinado. Também o poema é um ente determinado, mas um ente determinado que, refletindo o seu oposto, porta em si a marca d'água do movimento originário. Não apenas, cada vez que o lemos, ele se torna diferente do que era na leitura anterior, mas se torna diferente de si próprio no exato instante em que o estamos a ler. Chamo "poesia" essa propriedade do poema.


Antonio Cicero