Friday, August 27, 2010

Visita à casa dos fantasmas

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Não foi para isso que caminharia tanto na vida. Aliás, eu caminhei tanto para não sair do lugar
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APROVEITANDO a tarde chuvosa, decidi dar uma volta. Geralmente, costumo ir à praia, passear pela orla, mas caía uma garoa miúda e irritante, resolvi me embrenhar em outros bairros, distantes bairros de minha infância, que há muitos anos não visito, em parte por preguiça, em parte (ou no todo) por fastio. Peguei o carro e, sem saber o que fazer, fiz o que não devia.
Quando dei por mim, já estava naquele roteiro que inclui algumas ruas do Maracanã, de Vila Isabel, do Cabuçu e do Lins de Vasconcelos, cabeça, tronco e membros da antiga zona norte. Ali, a igreja onde me casei. Numa biografia bastante acidentada, com alguns casamentos incompletos, foi a única convolação de núpcias a que me submeti. Antigamente, os doutos usavam a expressão "convolar núpcias" para designar o casamento.
As recordações que ficaram não são necessariamente boas nem más, mas indiferentes. Foi um outro que convolou núpcias naquela igreja que tem um anjo São Miguel imitado da estátua do mesmo anjo na praça Saint Michel, em Paris: com sua espada de bronze, afasta um demônio de chifres e rabo em forma de seta.
Depois, o apartamento onde morei alguns anos, confortável apartamento com uma boa cobertura, ali minhas filhas brincaram e eu próprio soltei meus últimos balões de São João.
Depois, a rua da primeira escola, no enorme terreno ergueram um imenso hospital da Marinha e eu fugi daquele gigante que abriga os heróis da Armada de Guerra -segundo as palavras gravadas no pórtico "art noveau" do hospital. Penso no nenhum sentido que delas resulta: armada de guerra. Um pleonasmo? Ou apenas uma bobagem?
De repente, dobro uma esquina e esbarro com a casa, milagrosamente intacta: a fachada de pó de pedra está bastante estragada, da última vez que ali estive, dez ou onze anos atrás, o aspecto era menos decadente. Sim, ali está a casa: ali nasceu o Tutuca, numa tarde de domingo, domingo de março, de um ano cada vez mais distante.
As recordações são poucas. Num início de noite, o pai foi àquele portão e apanhou um balão apagado e silencioso que vinha caindo, caindo, alguns moleques se juntaram do lado de fora para tascá-lo com seus varapaus homicidas, mas respeitaram o domínio do dono da casa, o balão é dele. Depois, ainda na época dos balões, o irmão mais velho de pelerine azul marinho por causa do frio de junho, armando sua barraquinha de fogos.
Uma lanterna vermelha avisava que um menino ali vendia fogos -e eu era vidrado no estranho cheiro de pólvora e papel colado que sua barraquinha desprendia. Prometeram-me que eu também teria uma barraquinha igual quando crescesse -eu cresci inutilmente, nunca mereci uma barraquinha daquelas, com a lanterna vermelha acesa no meio da noite, bolas-, não foi para isso que caminharia tanto na vida. Aliás, caminhei tanto para não sair do lugar.
Agora, a casa está meio decomposta pelos anos, dois enormes vira-latas se aproximam, latindo. Quando dão comigo, param de latir, metem os focinhos pelas grades (as mesmas de antigamente) e me fuçam, como que me recebendo, eu, o Tutuca que nasceu naquela casa. Parece que sabem ou adivinham isso e eu me sinto importante -ao menos para os cachorros.
O atual dono da casa vem saber por que os cachorros estão latindo. Não gosta de ver o estranho parado em seu portão. É homem meio gordo, usa camisa de malha branca sem mangas, está suado pela tarde abafada e chuvosa.
Pergunta o que desejo. Tenho vergonha de confessar o motivo que me levara ali, aliás, não tinha nenhum motivo para estar ali. Indago se o cidadão conhece um tal de Tutuca. Não, o homem não conhece Tutuca algum.
Eu insisto, afirmo que o tal Tutuca ali morou, era um garoto bochechudo e palerma. O homem faz uma cara escandalizada e me despacha, dizendo que tem mais o que fazer -eu o invejo, nada tinha para fazer.
Atravessei a rua e peguei o carro. O homem olhou admirado, pois me supunha um pedestre reles e enxerido. E nem adivinhou que o Tutuca nunca saiu daquela casa, aderente àquelas paredes descascadas e inarredável como um fantasma sem futuro.

Carlos Heitor Cony

Thursday, July 15, 2010

Theresa





“Cheguei para arrasar,
derreter corações,
para romper medos, barreiras,
resistências que não se explicam (razões obscuras)
e com meu olhar direto, cativante, demolidor
deixá-lo(a) completamente rendido(a) aos meus encantos”

É isso o que você diz sem palavras complicadas,
sem necessidade de adjetivos,
só olhos nos olhos de quem a contempla hipnotizado,
derretido, tomado por estranha alegria, apaixonado...


Tetê, sereia,
Seu canto é seu olhar que enreda,
arrasta para inconcebíveis profundezas
...mata

Cecília
15-07-10

Saturday, June 12, 2010

Soneto XVII (do livro Cien Sonetos de Amor)

No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y la alma.

Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.

Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo proque no sé amar de otra manera,

sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.

Pablo Neruda

Friday, June 11, 2010

O direito de buscar a felicidade

O ARTIGO SEXTO da Constituição Federal declara que "são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados".
O Movimento Mais Feliz (www.maisfeliz.org) promove uma emenda constitucional pela qual o artigo seria modificado da seguinte forma: "São direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde etc." (segue inalterado até o fim).
É claro que, se eu dispuser de casa, emprego, assistência médica, segurança, terei mais tempo e energia para buscar minha felicidade. No entanto o respeito a esses direitos sociais básicos não garante a felicidade de ninguém; como se diz, ter comida e roupa lavada é bom e ajuda, mas não é condição suficiente nem absolutamente necessária para a busca da felicidade.
Em suma, implico um pouco com o adjetivo "essencial" no texto da emenda, mas, fora isso, gosto da iniciativa porque, como a Declaração de Independência dos EUA, ela situa a busca da felicidade como um direito do indivíduo, anterior a todos os direitos sociais.
Por que a busca da felicidade não seria apenas mais um direito social na lista? Simples.
A felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua.
Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros.
Invento e procuro minha versão da felicidade, com apenas um limite: minha busca não pode impedir os outros de procurar a felicidade que eles bem entendem. Por isso, obviamente, por mais que eu pense que isto me faria muito feliz, não posso dirigir bêbado, assaltar bancos ou escutar música alta depois da meia-noite. Por isso também não posso exigir que, para eu ser feliz, todos busquem a mesma felicidade que eu busco.
Por exemplo, você procura ser feliz num casamento indissolúvel diante de Deus e dos homens. A sociedade deve permitir que você se case, na sua igreja, e nunca se divorcie. Mas, se, para ser feliz, você exigir que todos os casamentos sejam indissolúveis, você não será fundamentalmente diferente de quem, para ser feliz, quer estuprar, assaltar ou dirigir bêbado.
Não ficou claro? Pois bem, imagine que, para ser feliz, você ache necessário que todos queiram ser felizes do jeito que você gosta; inevitavelmente, você desprezará a busca da felicidade de seus concidadãos exatamente como o bandido ou o estuprador a desprezam.
Em matéria de felicidade, os governos podem oferecer as melhores condições possíveis para que cada indivíduo persiga seu projeto -por exemplo, como sugere a emenda constitucional proposta, garantindo a todos os direitos sociais básicos. Mas o melhor governo é o que não prefere nenhuma das diferentes felicidades que seus sujeitos procuram.
Não é coisa simples. Nosso governo oferece uma isenção fiscal às igrejas, as quais, certamente, são cruciais na procura da felicidade de muitos. Mas as escolas de dança de salão ou os clubes sadomasoquistas também são significativos na busca da felicidade de vários cidadãos. Será que um governo deve favorecer a ideia de felicidade compartilhada pela maioria? Ou, então, será que deve apoiar a felicidade que teria uma mais "nobre" inspiração moral?
Antes de responder, considere: os governos totalitários (laicos ou religiosos) sempre "sabem" qual é a felicidade "certa" para seus sujeitos. Juram que eles querem o bem dos cidadãos e garantem a felicidade como um direito social -claro, é a mesma felicidade para todos. É isso que você quer?
Enfim, introduzir na Constituição Federal a busca da felicidade como direito do indivíduo, aquém e acima de todos os direitos sociais, é um gesto de liberdade, quase um ato de resistência.


CONTARDO CALLIGARIS

Um grande escritor

COMPOSIÇÃO ESCOLAR (Da "Folha de São Paulo")


ERA UMA noite solitária do mês de abril dos anos mais antigos do passado. Eu estava na janela olhando a rua, e entre a janela e a rua havia um jardim.
O pai costumava, tão logo a noite caía, regar os nossos canteiros de tinhorões e avencas, os pés de roseira que ficavam do outro lado, costeando o muro que dividia a nossa casa de um palacete -o único palacete da rua e do bairro.
Verdade: o palacete era enorme, tinha uma escadaria de mármore que subia pela fachada principal -mas não havia jardins, nem sequer um tinhorão aveludado, nem sequer um pé de manacá como o nosso, que ali estava cheirando, molhado pelo anoitecer daquele solitário abril dos anos mais antigos do passado.
Eu olhava a noite e sentia o perfume que vinha do jardim umedecido. A rua não tinha cheiros, era apenas um espaço cor de cimento e pedra, naquele tempo quase não havia movimento, o bonde passava pontualmente de 15 em 15 minutos, era um bonde verde como um bicho de seda comprido, à noite ele vinha iluminado, vazio e inútil, levando ninguém para lugar nenhum.
Além do bonde, um ou outro carro deslizava pela rua vazia. Todas as noites, lembro que, pelas nove horas, passava um carro branco, último modelo na época; se a noite era quente, a capota estava arriada e dentro dele um homem vestido de branco, todo de branco, e houve noite em que, ao lado do homem vestido de branco, havia uma mulher também vestida de branco, um chapéu branco e enorme com enormes fitas brancas.
Anos depois, quando assisti pela primeira vez a "La Traviata", no segundo ato, cheirando a jardim e a flor, lá estava a mesma mulher vestida de branco, com seu chapéu e suas fitas brancas.
Não entendi nada, mas guardei para sempre aquele encontro mágico que era tão meu. Na ópera, o pai se emocionava com a despedida da mulher que abandonava o amante, e eu tinha a certeza de que aquela mulher ali estava só para mim e para sempre. E passava pela minha rua num carro branco e nupcial.
Mas isso foi há muito tempo. Há tanto tempo que já não gosto mais daquele segundo ato, nem da ópera em si e, mesmo que gostasse, de nada me adiantaria: a rua foi asfaltada, perdeu a cor de cimento e pedra, ficou escura como uma enorme tira de fita isolante, os bondes foram arquivados e o palacete foi demolido, em seu lugar subiu um espigão sem forma nem cor.
E o jardim de nossa casa não mais existe, nem os tinhorões nem as avencas, o menino que ficava ali, olhando a noite e o jardim molhado, também ele não existe mais.
De tudo, o que restou foi o silêncio do menino olhando a noite e sentindo o perfume do jardim, esperando o carro branco e nupcial, a mulher com seu chapéu de fitas brancas que parecia ter saído do segundo ato de uma ópera. Além da noite e do jardim estava o mundo, a vida que se desdobrou para o menino, uma vida nem boa nem má, apenas vida -e bastante.
E onde está o carro branco que passava lentamente pelo meio da noite, aquele casal vestido de branco que vinha não sei de onde e se perdia naquela noite silenciosa do mundo?
Ficaram na memória do menino, com os cheiros e os tinhorões aveludados, o pé de manacá molhado, o bonde iluminado e vazio, o garoto olhando a solitária noite dos anos mais antigos do passado.
Mais tarde, o menino precisou fazer aquilo que os outros chamavam de "ganhar a vida". Ele não sabia direito o que era aquilo, já tinha uma vida que lhe fora dada de graça, não precisava de outra, de ganhar outra.
Quando as coisas se complicavam para o lado dele, recorria àquela imagem distante, a rua deserta e perfumada pelo manacá, de repente o carro branco e silencioso passando devagar, a mulher com seu enorme chapéu de tiras brancas deslizando na noite do passado.
Os anos mais antigos também passaram, parece que nem tinham acontecido. O que acontecia agora era muito colorido, berrantemente colorido, o mundo é em cores e faz muito barulho, som e fúria que nada significam.
Mas o menino gosta de pensar neles, embora o homem tenha um pouco de vergonha em falar neles.

CARLOS HEITOR CONY


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Thursday, May 06, 2010

Erotikós

Puedo romperme a un simple toque
De tus dientes blancos,
inundando tu boca con el dulce fluido
de que soy hecha, néctar de los dioses.
Y me voy: dejando deseo, dulzura de un beso,
despertando tu hambre, tus ganas y tu sensualidad.
Ah! Deseo que a mi dedicas...
Como lo retribuo! Me muestro solo tuya,
Soy puro azucar, soy más que miel.
Tu cielo alcanzo, en tu lengua descanso,
Y después...deslizo por tu garganta.

Cecília

Thursday, April 22, 2010

Liberdade




Ser apenas um cachorrinho branco, livre e solto
"ciscando" folhas secas sob árvores e arbustos verdes,
transgredindo as leis rigorosas do parque,
lá escondidinha, livre de guia, correndo à vontade,
tendo como pretexto para a brincadeira um osso branco como ela,
que aos poucos vai se tornando cor de terra,
do barro que ela pisa sem dó nem piedade pelo banho da véspera
que a deixou linda, escovada, com lacinhos na cabeça,
cachorrinha de madame...
Banho de boutique , agora sem nenhuma importância
devido ao espírito livre e travesso de sua dona
e de suas lembranças de infância...

Didi, te amo
Cecília

manhã de sol em abril

Sunday, February 21, 2010

Outono

Há mais lembranças do que planos
Há mais andante, largo, do que presto
Há mais silêncio do que vozes, risos
Denso é o olhar, busca de entendimento...
Longas são as tardes, as madrugadas
(tantas vezes insones)
Breve (assim parece) a manhã de nossa vida...
Reflexo de outras são as alegrias,
em seu antigo berço não mais encontrando abrigo.
É triste o anoitecer da vida,
quando só se tem estrelas distantes, fugidias
e o sol é promessa que pode ou não cumprir-se...


Viver o outono é exercer a nostalgia
Respirar quase sempre melancolia...

Cecília
18-02-10

Wednesday, December 09, 2009

Declaração de amor

Carol,
O amor que tenho por você não se explica,
sente-se
Plenamente, sem culpa,
naturalmente
Não importa o tempo curto que passamos juntas,
as diferenças.
Você está em meu coração ... sempre
Amo sua voz, seu sorriso
o dourado que só você irradia
a brancura de sua pele, seu corpo esguio,
os cabelos quase louros.
Amo (não ria) suas pintas, principalmente as do rosto,
aquelas que vejo quando afasto seus cabelos castanhos,
quase louros
Razão para amá-la, tenho todas,
a começar pelo seu coração, tão generoso.
Mas como disse antes, o amor dispensa razões
méritos, explicações, presença física
- às vezes temos tudo isso e não o sentimos,
não adianta esforço.
Filha, para mim você é belíssima
de alma e corpo
o fruto que justifica a árvore,
o meu tesouro

Cecília

Friday, August 21, 2009

Histórias e rituais de família e identidade ( título meu)

[...] QUANDO UMA NOVA FAMÍLIA SE CONSTITUI, UM GRUPO FAMILIAR ORIGINAL PASSA A SER CONSTRUÍDO; ENTRETANTO, ELE NÃO COMEÇA SUA MISSÃO DO ZERO
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De vez em quando, surgem palavras ou expressões que viram mania nacional, e muitas delas carregam um complexo conceito teórico de alguma disciplina do conhecimento. Assim foi, por exemplo, com a expressão "quebra de paradigmas", lembra-se dela? Cansei de ouvi-la em escolas.
Muitos professores queriam quebrar paradigmas diariamente -não havia uma reunião em que a expressão não fosse utilizada. Logo percebi que muitos docentes haviam se apropriado apenas do sentido linguístico da expressão e a usavam só para mostrar que estavam devidamente conectados com os estudos da época.
Depois disso, tivemos a época da qualidade total, da resiliência, da sinergia e de muitas outras. Agora, a palavra da vez é sustentabilidade, que tem sido usada das mais diversas maneiras para justificar qualquer tipo de ação, projeto, ideologia etc.
E não é que, recentemente, após uma reunião com pais de uma escola em que o tema foi a importância da transmissão dos valores, dos costumes, das virtudes e da moral familiar na educação dos filhos, uma mãe veio me contar que associara a nossa conversa com o conceito de sustentabilidade?
Devo dizer que, de início, ouvi com preconceito a ideia dela, já que não gosto muito desses modismos conceituais e linguísticos. Mas admito que ela construiu seu pensamento com muita propriedade.
O conceito de sustentabilidade é complexo: diz respeito à continuidade de aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais das diferentes sociedades humanas. Sustentabilidade tem estreita relação, portanto, com preservação.
Quando uma nova família se constitui, um grupo familiar original passa a ser construído.
Entretanto, essa nova família não começa sua missão do zero.
Cada adulto que se propõe a formar esse novo agrupamento leva sua herança familiar e a usa como referência.
Gosto muito da imagem construída por um colega: quando uma pessoa recebe uma casa de herança, ou ela reforma ou vende para comprar outra. O mesmo ocorre com a herança familiar.
Quando duas pessoas vindas de famílias diferentes começam uma nova, negociam, combinam, fazem sínteses do que trouxeram e, claro, inovam também. Além disso, mantêm contato com suas famílias de origem, e é desse modo que as novas gerações se reconhecerão na questão familiar.
Se os pais não transmitem suas tradições e as de suas famílias de origem aos filhos -estimulando o contato entre eles, contando suas histórias, comparecendo aos rituais existentes-, criam uma geração órfã de família. É como se a existência do sobrenome não fizesse sentido, pois não há diferenciação nem características próprias do grupo familiar.
É preciso lembrar que família e sociedade são agrupamentos interdependentes: se um vai mal, o outro também vai. Desse modo, educar os filhos considerando a preservação da família, sua continuidade e manutenção, é trabalhar também a favor da sustentabilidade da sociedade.



Roseli Sayão

Wednesday, August 05, 2009

Em terra árida não nascem flores
Estações se sucedem
E a despeito da rega,
Não se tem nenhum retorno.
A aridez contamina
E a Alma se vê...
Vazia de ardores , amores
Perde-se o sentido da vida
E tudo é cinza, sem cores...

Para meu marido

Cecília
Da vida quero toda a vibração, quero o delírio,
um amor que excite todos os meus sentidos,
mas que tenha na alma seu maior afrodisíaco...

Não esperamos tanto para almejarmos
a sombra de uma árvore,
a contemplação das águas de um regato,
suavemente cumprindo seu caminho,
ou de nuvens brancas no céu deslizando,
a desenhar figuras delicadas...

Não nos satisfazemos mais,
apenas com o etéreo, os mistérios da vida,
os sonhos distantes, a ausência física...

Queremos ser de uma estória de amor
os heróis, os principais protagonistas;
talvez o centro do mundo,
ainda que na visão deturpada
de dois apaixonados...

Que um turbilhão nos engolfe, nos arraste...
É fim de festa, vale tudo: pés descalços
e rostos sem nenhuma máscara...

Cecília Quadros

Saturday, July 25, 2009

Atração

Esquivo é o olhar,
tímido
Poucas palavras,
gestos contidos,
coração meio perdido.
O encanto tem mão dupla?
É pelo outro sentido?
O olhar para mim mesma
é crítico
Interesse do outro?
Impossível
A guardar na memória
a simpatia
e um nome se repetindo
associado à uma figura bonita....

Um leve beijo na despedida
À distância te olho:
fim da história,
que agora recrio...

Cecília

Friday, July 17, 2009

Urubici

Debaixo de muitas mantas
no calorzinho da cama
-está tão frio lá fora-
demoradamente nos olhamos.
A sensação é de aconchego,
pertencimento.
Longe de tudo,
muito além do nosso mundo,
nos acariciamos.
Nos damos as mãos
e nos sentimos seguros,
cúmplices,
contentes por termos caminhado juntos
por tantos anos...
O abraço renova o pacto
há muito tempo firmado.
Brincamos um com o outro,
nenhuma solenidade...
Mas sentimos o marco:
inesperado
naquela cama deitados...

Cecília
14-07-09

Thursday, July 16, 2009

Com poetas não se fala de arranjos terrenos,
mas de vôos de pássaros, flores,
bonecas de louça, versos e estrelas
de madrugadas longas, noites frias
ou manhãs com orvalho, tardes lentas...
de olhares perdidos, apáticos ou apaixonados
ou sorrisos amplos e serenos
( se o Amor é certo e se faz pleno.)

Fala-se de destino, impaciência e desejo
(desse sutilmente),
quando o Amor ainda é mistério ou recente...

É assim que amam os poetas:
sonham, suspiram, tateiam
e tudo é verso,“Festa”e encantamento...
Se do devaneio algo os desperta,
Languidamente vão transpondo
a linha imaginária, que só o sonhador conhece.

Há que se ter paciência com os sonhos, as quimeras,
pois é assim que amam os poetas...

Cecília

Monday, June 15, 2009

Susto
de amar e não ser amada
de deixar a vida passar em branco
de nada realizar
de ser diferente
ter um destino diferente
e não aceitá-lo,
não compreendê-lo
Medo
de a ninguém agradar
de ficar só
eternamente...
de me sentir tão só
que a minha dor pareça
única, total, incurável,
incomunicável
Medo,
que me faz seguir caminhos que não quero
que parece não me deixar escolha
a não ser pretender ser outra pessoa,
mais aberta, mais solta
mais firme em suas escolhas,
tudo entendendo:
o que passou, o que se passa agora;
dona do futuro, da própria vida,
um ser livre, em paz,
vivendo conscientemente...

Cecília

Para tantas pessoas, frágeis em sua humanidade...


15-06-09

Fuga

Não importa o que hoje somos:
se vencedores, perdedores,
seguros, inseguros ou apenas sobreviventes;
se somos ainda bonitos,
se chegamos perto dos heróis românticos
que idealizamos enquanto adolescentes...
Isso não mais importa ...
Não importa o que viveste, o que vivi,
se agora estamos
sedentos de amor e de carinho,
portando um sonho,
que aquece os nossos corações.
O abraço que nos damos é pura ternura,
um tocar de almas só possível
por jamais termos perdido a esperança de amar
e sermos amados
de dar e receber carinho
este tão sonhado, almejado,
difícil, e até então negado carinho,
presente agora em nossas mãos se entrelaçando,
enquanto viajamos...

Cecília

Tempo

Traço linhas paralelas imaginárias
Em cada uma visualizo uma figura humana
em diferente fase da vida
Todas na mesma direção
A esperá-las: chi lo sa?
Nessa linha do tempo não há volta nem antecipação
(Não posso voltar e te abraçar, mãe...)

Vida
Para a vida desenho um círculo,
abarcando até quatro gerações.
Para o outro alcançar é só estender a mão
(talvez isto explique nossa forte ligação)


Agora, a contragosto, coloco o círculo na linha
E lá vai ele de roldão: trilhando todo o caminho
que leva... ao ponto de interrogação...

Cecília

Thursday, May 14, 2009

A respeito de ausência e de sonhos

Me dei um tempo
E saí em busca de mim
Encarei meus defeitos
Me enfrentei face a face
Acertei rumos e passo
Não sou mais barreira pra mim.


Meus fantasmas transformo em palavras
Abrigo-os em versos, dou-lhes espaço
E me liberto da inquietação que me passam...


Meu sonho não tem um nome, uma forma, um endereço
Meu sonho não é de glória, não é um homem,
É ter com o que sonhar a minha vida inteira...


O Esfarrapado e o Roto

Juntamos:
A fome com a vontade de comer
A imaginação com o sonho,
Fugas, com pé na estrada
Somos o roto e o esfarrapado...

Trilhamos caminho certo,
mas deixamos uma fresta aberta
E para que não falte tesão...
damos asas à imaginação.

Seremos santos de barro?
Ou se prefere do pau oco...
Mas levamos afeto à sério
e não causamos desgosto...

Escapo... também escapas...
Ousamos?Até que bem pouco
Sonhamos de olhos abertos
Pois somos feitos da mesma matéria,
o esfarrapado e o roto...


Preço

Ninguém tira os pés do chão e voa impunemente
O preço... vale a pena?
Vale viver outra vida, à perfeição retocada,
Colorido filme em que somos protagonistas,
Vale brincar, esculpir imagens, criar roteiros,
Vida paralela ocupando da realidade quase todo o espaço?

Cecília


Ilusões

Não deveria ficar nada...
Ilusão não mata
Nem faz tanto estrago
Nada que um gesto leve não afaste

Fantasias são breves, leves
Chegam, afagam,
Inspiram às vezes versos
E partem

Outras vêm, burlam vigilância,
Cuidado.
Pegam a alma desavisada,
Entediada
E se instalam,
Dando uma falsa sensação
De perene felicidade.
Mas são volúveis, frágeis
E como nuvens se esvaem...

Não era para ter ficado.... nada...

Cecília


Sonho e Vida

Vida é sonho
Os meus procuro ansiosamente
- questão de sobrevivência -
Na pressa os perco, os esqueço
E fica um vazio de assustar
Reajo, encontro uma possibilidade,
Nela me agarro, me distraio.
Aos poucos os outros vou recuperar...

Beijo na boca

Desejo...
Fantasia travessa
Atravessando limites
Se impondo, apesar do medo

Beijo
Maroto, brejeiro
Doce, certeiro
Sonhado
Só um beijo...
Só?
Mas... se desencadeia
uma onda de desejos?

Contida,
Não deixo que nada percebas
Meu desejo adormeço,
Nem olho para tua boca,
mas em sonhos... te beijo

Louca!...


Sonhos são sonhos
Realidade é realidade

Sonho realizado: não é o mesmo sonho.
A realidade já deixou nele sua marca.
Preenche por um tempo, curto tempo,
até que a eterna insatisfação do homem,
lhe cave no peito novo buraco,
e outro sonho tenha que ser sonhado.

Aí é pôr asas no coração,
se abrir para nova emoção
E curtir outra vez desejo,
Ainda com maior grau de intensidade...



O que será que existe....


Fora desse círculo
Além daquela porta
Lá, onde o olhar não alcança
Lugares em que nunca estive
Rostos desconhecidos
Imagino...
Mas não me imagino
por outras terras vagando
Uma outra vida vivendo
Em outras águas imergindo...

Cecília
após longa ausência

Friday, May 08, 2009

Sim, aparência importa

Pam Belluck

Há mais de uma semana, pessoas em ambos os lados do Atlântico têm usado a história de Susan Boyle - a solteirona escocesa desleixada que chegou à fama cantando no programa de TV "Britain's Got Talent" - como um exemplo de quão superficiais nos tornamos.
Não há muito o que você possa fazer a respeito; é o modo como pensam; é o modo como são disse Susan Boyle, comentando a rapidez com que a sociedade julga as aparências. Antes de cantar, Boyle parecia uma mera voluntária de igreja desempregada e desmazelada de 47 anos que morava sozinha com seu gato, Pebbles, e que, segundo ela, nunca teria sido beijada (uma alegação que ela posteriormente retirou).Agora, após o vídeo de sua apresentação ter se tornado viral, uma enxurrada de comentários se concentra em como estereotipamos as pessoas em categorias, como caímos vítima de preconceitos de idade e aparência, e como temos que aprender, de uma vez por todas, a não julgar os livros pela capa.Mas muitos cientistas sociais e outros que estudam a ciência dos estereótipos dizem que há motivos para avaliarmos rapidamente as pessoas com base em sua aparência. Julgamentos rápidos a respeito das pessoas são cruciais para o modo como funcionamos, eles dizem - mesmo quando esses julgamentos são muito errados.Eles até mesmo concordam com a própria Boyle, que disse após sua apresentação que apesar da sociedade ser rápida demais em julgar as pessoas pela aparência, "não há muito o que você possa fazer a respeito; é o modo como pensam; é o modo como são".Em um nível muito básico, julgar as pessoas pela aparência significa colocá-las rapidamente em categorias impessoais, assim como decidir se um animal é um cachorro ou um gato. "Estereótipos são vistos como um mecanismo necessário para entendimento da informação", disse David Amodio, um professor assistente de psicologia da Universidade de Nova York. "Se olharmos para uma cadeira, nós podemos categorizá-la rapidamente, apesar de existirem muitos tipos diferentes de cadeiras."Eras atrás, esta capacidade era de uma importância de vida ou morte, e os seres humanos desenvolveram a capacidade de avaliar outras pessoas em segundos.Susan Fiske, uma professora de psicologia e neurociência de Princeton, disse que tradicionalmente, a maioria dos estereótipos se divide em duas dimensões amplas: se a pessoa parece ter intenção maligna ou benigna e se a pessoa parece perigosa. "Em tempos ancestrais, era importante permanecer distante de pessoas que pareciam furiosas e dominadoras", ela disse.As mulheres também são subdivididas em mulheres "tradicionalmente atraentes", que "não parecem dominadoras, têm traços de bebê", disse Fiske. "Elas não são ameaçadoras."De fato, a atração é uma coisa que reforça o estereótipo e faz com que se cumpra. Pessoas atraentes têm "crédito de serem socialmente hábeis", disse Fiske, e talvez sejam, porque "se uma pessoa é bonita ou simpática, as outras pessoas riem das piadas dela e interagem com ela de uma forma que facilita a interação social"."Se uma pessoa não é atraente, é mais difícil conseguir todas estas coisas porque as outras pessoas não a procuram", ela disse.A idade também tem um papel na criação de estereótipos, com as pessoas mais velhas tradicionalmente vistas como "inofensivas e inúteis", disse Fiske. Na verdade, ela disse, as pesquisas mostraram que os estereótipos raciais e étnicos são mais fáceis de mudar ao longo do tempo do que os estereótipos de gênero e idade, que são "particularmente aderentes".Um motivo para nosso cérebro persistir em usar estereótipos, dizem os especialistas, é por frequentemente nos dar informação precisa de modo geral, mesmo que nem todos os detalhes de encaixem. A aparência de Boyle, por exemplo, telegrafou precisamente grande parte de sua biografia, incluindo seu nível socioeconômico e falta de experiência mundana.
"Britain's Got Talent"
Seu comportamento no palco reforçou uma imagem de pessoa de fora. David Berreby, autor de "Us and Them", sobre o motivo das pessoas categorizarem umas às outras, disse que os telespectadores também podem tê-la julgado severamente porque, nas provocações com os juízes antes de cantar, ela parecia estar, desajeitadamente, tentando se encaixar."Ela tentou ser divertida, e quando lhe perguntaram a sua idade, ela fez aquela dancinha", como se ela presumisse que nesses programas "você supostamente precisa ser meio sensual e elegante, mas se deu mal", disse Berreby. "Nada provoca mais nosso desprezo do que alguém tentar ser aceitável e então fracassar."Quando as pessoas não se encaixam em nossas noções pré-concebidas, nós tendemos a ignorar as contradições, até serem dramáticas demais para ignorar. Nestes casos, disse John F. Dovidio, um professor de psicologia de Yale, nós nos concentramos na contradição - a voz de Boyle, por exemplo. Apesar disso nos fazer vê-la mais como um indivíduo, nós também "encontramos uma forma do mundo fazer sentido de novo, mesmo que para isso digamos: 'Esta é uma situação excepcional'. É mais fácil para mim manter as mesmas categorias na mente do que chegar a uma explicação para as coisas que são discrepantes".Mesmo diante de múltiplas exceções ao estereótipo, nós frequentemente mantemos a categoria geral e simplesmente criamos um subtipo, disse Dovidio.Por exemplo, o presidente Barack Obama contrariou os estereótipos negativos a respeito dos negros, mas algumas pessoas podem ter criado um subtipo de negros - profissionais negros - em vez de contestar o estereótipo geral, disse Dovidio. "Esta é a solução mais simples e que economiza energia cognitivamente."Os cientistas estão descobrindo que os estereótipos não estão simplesmente armazenados no cérebro e são recuperados por ele, mas "estão associados com regiões gerais do cérebro envolvidas na memória e no planejamento de metas", disse Amodio, sugerindo que "as pessoas recrutam estereótipos para ajudá-las a planejar um mundo consistente com a meta que possam ter".A pesquisa de Fiske sugere que as pessoas de status baixo são registradas de forma diferente no cérebro. "A parte do cérebro que normalmente é ativada quando você pensa em pessoas fica surpreendentemente silenciosa quando você olha para moradores de rua", ela disse. "É uma espécie de desumanização neural. Talvez não consigamos suportar a situação horrível em que se encontram, ou não queiramos nos envolver, ou talvez tenhamos medo de nos contaminar."Mas, ela disse, a resposta neural é restaurada quando é pedido para as pessoas se concentrarem em que sopa os moradores de rua possam querer comer, algo que as faz pensar na pessoa como alguém com desejos ou metas.
O fato de podermos mudar nossas reações em relação às pessoas - o status de Boyle passou instantaneamente de baixo para alto - também tem raízes em nossa psicologia, disseram os cientistas.Dovidio disse que encontrar discrepâncias nos estereótipos provavelmente "cria um tipo de estímulo autonômico" em nosso sistema nervoso periférico, provocando picos de cortisol e outros indicadores de estresse. "O estímulo autonômico nós motivará a fazer algo naquela situação", ele disse, especialmente se a situação é perigosa.Helen Fisher, uma professora de antropologia da Rutgers, teoriza que no caso de Boyle, os telespectadores também passaram por uma "onda de dopamina" com a surpresa agradável de ouvir a voz dela. "A novidade aumenta a dopamina no cérebro e faz você se sentir bem", ela disse.Isto pode ajudar a explicar por que tantas pessoas foram atraídas pela história de Susan Boyle. Mas o fato de aceitarem a ela e outros azarões subestimados dificilmente mudará nosso gosto pelo estereótipo.A sociedade moderna, com sua consciência dos preconceitos ao longo da história e sua capacidade sem precedente de apresentar tantos tipos diferentes de pessoas umas às outras, pode diluir ou mesmo neutralizar algumas noções pré-concebidas. Mas outras persistirão e novas surgirão, dizem os especialistas.Este pode ser o motivo para, mesmo após ter expressado a esperança de que "talvez isso possa tê-los ensinado uma lição, ou dado um exemplo", Boyle ter começado a mudar sua aparência nos últimos dias, usando maquiagem, tingindo seu cabelo grisalho e vestindo roupas mais elegantes."A matéria-prima de dizer que você está comigo e ela não está é algo que está sempre presente", disse Berreby. "Não é algo que inventamos por causa da TV ou do carro. Também não é algo ligado à vida moderna. É algo inerente à mente."Tradução: George El Khouri Andolfato

Artigo publicado pela "Folha de São Paulo"após ter saído no New York Times