Saturday, September 15, 2007

Passei ao largo
de flores, jardins, amores,
de chances de ser feliz.
Não que eu seja infeliz;
só falta cor nesta vida,
um pouco mais de paixão.
Algo, que às vezes batido,
mas deixa o poeta cheio de aflição.

Passei batido,
ignorando o meu próprio coração...

Cecília

Tuesday, September 04, 2007

Preço

Ninguém tira os pés do chão e voa impunemente
O preço... vale a pena?
Vale viver uma outra vida, à perfeição retocada,
Colorido filme em que somos protagonistas,
Vale brincar, esculpir imagens, criar roteiros,
Vida paralela ocupando da realidade quase todo o espaço?

Cecília
Silêncio
Que fala mais que mil palavras
Com força para desfazer sonhos
Mudar imagens
Esmaecer cores
Tirar da vida tantos sabores

Silêncio
Enigma que crias
E permanentemente me desafia
Devo ou não mover minha rainha
Risco
Penso, repenso, raciocino
Silenciam alma, coração, sentimentos
E me pergunto:
Vale a pena,
Jogar assim o jogo da vida?

Cecília
Meu sonho não tem um nome,
uma forma, um endereço
Meu sonho não é de glória
Não é um homem,
É ter com o que sonhar,
A minha vida inteira...

Cecília Quadros

Friday, August 24, 2007

Manhã de novembro

meu gato siamês
(de veludo
e garras,
cheio de sons)
deita-se
ao sol
(da morte,
sabemos nós)
displicente
e eterno

Ferreira Gullar

Thursday, August 23, 2007

Jogo

Nada tem a força do teu olhar
Que o meu penetra
A alma desnuda
Promete
Recua
Torna a prometer
Num jogo ininterrupto
De razão e sentimento

Entro no jogo
Sedutora
teu olhar devolvo
em meio a palavras
que nada expressam
tergiversam
em total desacordo
com a força do olhar
que te devolvo...


Cecília
22-08-07

Plenitude

Sonho:
Um canto
Nós dois nos enlaçando
Trocando carícias
Felizes
Amigos
Amantes
Únicos habitantes
Do mundo que criamos
Só um canto
Mas transbordante de desejo
e ternura
Silencioso, aconchegante...
... e nós nos entregando
Naturalmente
Plenos
Pacificados
Serenos...

Cecília

17-08-07

Friday, August 17, 2007

Poesia em outra embutida

Foste
Rasgo
Raio
Risco
Na página
Na alma
Na vida
Sem sentido
Curta permanência
Tocando fundo
Inigualável experiência
Paixão única
Da realidade fuga
Concreta?
Abstrata?
(Ainda sinto o teu perfume...)
Tudo

Cecília

Avesso

Posso”zoar” com a poesia, com o meu blog,
com a minha vida.
Para alguns serei “legal”.
“Cool” este modo “blasé” com a vida
Posso posar de inteligente, superior, culta,
fingir que não levo nada a sério,
que sou uma eterna adolescente
e assim brincar comigo, com os afins,
com desejos frustrados, insatisfações e fantasias.
E se nada há a dizer, a acrescentar,
deixar que em minha casa virtual
prevaleça o “nonsense”,
o mau gosto;
que este agrida, agite,
desperte risos, críticas,
traga matérias na mesma linha
e vire tudo... uma grande porcaria...

Cecília

Para um certo conde

Monday, July 23, 2007

Canção do rio do meio

Um rio jorra entre o porão e o sótão:
leva dores e amores e nosso último riso
há tanto tempo.
Mas numa curva qualquer, porque de novo amamos,
tudo pulsa e brilha de ousadia,
sabendo que temos pela frente
esse calor, esse rumor de águas na areia.

Passa no meio de nós, entre o sonho do sótão
e o medo dos porões, o rio da vida:
que me leve para ti ainda uma vez e muitas,
que venhas até mim antes daquela curva
com a audácia e o fervor que tínhamos perdido.

Lya Luft
Nesta casa escura e fria
só o meu corpo se encontra.
A alma, brinca de faz de conta:
que é dezembro, festa, Natal, casamento
ou que ainda é setembro:
viagem, amigos, uma terra diferente.

Eta, alma besta!
Não se conforma.
Finge que está tudo bem agora
que a vida é cor de rosa,
que tudo de uma maneira
ou outra se resolve.

Mas tem um medo da morte!...
Alma escaldada,
que não quer olhar o passado,
só por falta:
da mãe muito amada, do pai amado,
tanta gente...
Aí: foi só pensar e lá vem
a lágrima quente.
Enfim... só pede um tempo
e segue em frente,
pois como diz o outro:
atrás vem gente...

Cecília

Wednesday, June 20, 2007

Me pediste uma poesia alegre:
Ontem a fiz; dela só faltou saírem fogos de artifício,
celebração de horas de entendimento, harmonia,
coincidência de estados especialíssimos de espírito.
Quantos passarinhos verdes havíamos visto?
Hoje te olhei com outros olhos,
olhos de posse, maldita posse.
E se turvou o que era límpido, claro,
divertido, perfeito...

Inocência,
só tu seguras este sentimento de querer bem,
preenchimento,
estranha, inexplicável permanência...

Cecília

16-06-05

Tuesday, June 12, 2007

Namorados

Palavra mágica, que salta da página,
me extasia, me amarra,
tão cheia de significado...

Palavra com gosto de beijo
perfume de amor-perfeito,
singeleza.

Palavra doce... açucarada,
palavra que nos retrata,
que é dengo, feitiço, desejo,
Amor a desenhar letra por letra...

Cecília

Tuesday, June 05, 2007

Fecho

Estou para encerrar meu caderno
Anos de poesia e descoberta
Viagens para dentro e caminho inverso
Expressão de tudo: da primavera
Ao mais rigoroso inverno.

Luz sombra
Vida ausência dela

Tudo menos ver a vida só da janela.
E você a permear todos os meus versos.
Amor: única certeza neste mundo incerto...

Cecília
Cabelos pretos
cabelos de seda
grudados na alma
na palma da minha mão.

Com eles brinco, os assopro,
deposito num envelope,
e dentro do meu coração.

Cabelos lustrosos
fetiche, amuleto, sorte,
ou apenas uma lembrança,
de quem escolhi pra gostar.

Não que eu queira me afastar.
Só quero brincar de tesouro,
poder esconder o meu ouro,
o curtir ...e nada mais...


Cecília Quadros

Tuesday, May 01, 2007

Sonho meu

Um terraço
Um ou muitos gatos
Cachorros, papagaio
Perfume de trepadeiras
Jasmim do cabo
Flores do campo nos canteiros
Para lembrar a infância,
Uma amoreira
Sala de tábuas largas
Lareira
Riso de crianças
Nos fins de semana
Cheiro de bolo assando
Livros nas mãos e nas prateleiras
Sons normais de uma casa
Plantas sendo aguadas
Alguém varrendo, movimento!
Jornal de manhã e pão quente
Mais tvs, dvds, computer,cd player.
Na cabeça Prozac, você ao meu lado
Assim dá para envelhecer contente...

Para Fauze

Cecília

Monday, April 30, 2007

CONTARDO CALLIGARIS

"Pecados Íntimos"
O filme, tocante e verdadeiro, é sobre como nosso desejo encalha e se solta
"PECADOS ÍNTIMOS", de Todd Field, estreou no dia 9 de fevereiro. Parecia ser mais um filme sobre a vida nos subúrbios americanos de classe média, tipo "Beleza Americana" (vencedor do Oscar em 2000), e fiquei com preguiça. Sempre acho um pouco fácil satirizar uma maneira de viver, como se o jeito da gente fosse o certo: "Aponto o vazio na vida dos outros para me convencer de que a minha é autêntica e plena".
Vários leitores me escreveram estranhando que não comentasse o filme. Graças a eles, assisti, enfim, a "Pecados Íntimos", que NÃO é um filme sobre a vida nos subúrbios americanos (a não ser que você considere que "Hamlet" é uma peça sobre a vida na corte da Dinamarca durante a Idade Média).
"Pecados Íntimos" é um filme tocante e verdadeiro sobre os caminhos forçados de nosso desejo e sobre como ele encalha (quase sempre) e se solta (aos trancos).
Quando ensinava "Cultural Studies" na New School, começava dizendo a meus estudantes que eles eram livres para tirar todas as notas
A que quisessem, mas, para entender a subjetividade moderna, eles teriam que passar por três letras B: Brummel, Byron e Bovary. Não era só uma piada de professor: as três figuras em questão, afinal, falam todas de nossa impossibilidade de conseguir, na vida, a nota máxima.
Um B já é de bom tamanho. Brummel (o primeiro dandy, no fim do século 18) lembra que a nobreza não é efeito do berço em que a gente nasce; ela é fruto da "elegância" (não tanto das maneiras e da roupa, mas do espírito). O hábito, na modernidade, faz o monge, e somos livres para escolhê-lo. Mas essa liberdade tem um custo: o desconforto de apenas parecer o que somos e, claro, a aflição de parecer o que não somos ou não queremos ser. O hábito faz e aprisiona o monge.
Byron (o poeta romântico) lembra que, na vida moderna, o que importa é a intensidade e a variedade de experiências. A fome de viver e o anseio de aventuras levam alguns a lutar pela independência da Grécia, a pular de skate quando mal sabem andar ou a perder-se nas sarjetas do mundo. E nos levam a sonhar com o que não ousamos empreender.
Emma Bovary (a heroína do romance de Flaubert) lembra que o amor é o grande operador moderno da mudança. Descobrimos que podíamos inventar nossa vida quando começamos a casar por amor (e não para preservar a casta, a família e o patrimônio). Portanto, esperamos do amor que ele nos transforme e nos leve para uma "outra" vida (e toda vida tem uma "outra" vida com a qual sonhar).
Numa cena de "Pecados Íntimos", "Madame Bovary" é comentado por um grupo de mulheres. Elas descobrem (a contragosto) que são todas, de um jeito ou de outro, Emma Bovary: inconformadas com sua vida e desejosas de um amor que as salve.
Mas "Pecados Íntimos" é mais que uma adaptação de "Madame Bovary": é um pequeno "tratado" da subjetividade moderna. Até porque, justamente, Emma Bovary sentia que ela era muito mais do que parecia pela "rotina" de sua vida. E seus sonhos de amor eram sonhos de experiência e aventura. Ou seja, os três "B" estão sempre juntos, dentro da gente.
Além disso, é difícil sair do cinema sem se perguntar por qual mistério somos condescendentes com nossas impulsões (o pedófilo e a protagonista não são os únicos que não sabem resistir às tentações) e, ao mesmo tempo, inertes quando se trata de mudar de vida. O desejo só consegue se expressar por sobressaltos. É como se, contra o nosso desejo, tivéssemos erigido um dique inútil: a água irrompe, forte, pelas pequenas falhas, mas sua massa não se transforma em energia para inventar a vida.
A incapacidade de mudar, aliás, é o grande tema do filme. Há a mãe do pedófilo, que espera que o filho se torne "normal", mas, olhe só, coleciona estatuetas de meninos. Há a mulher que não quer perder o marido, mas enfia o filho no meio da cama e vigia a vida do esposo como uma mãe. Há a mulher que morre de tédio e transa com o marido toda terça às 19h30, embora sonhe em conseguir o telefone de um bonitão.
Há o homem que cansou de ser babá do filho, mas, quando se trata de estudar para o exame da Ordem, passa as noites à toa.
O título original do filme é "Little Children" (criancinhas). Em matéria de desejo, somos todos criancinhas, incapazes de encontrar a coragem de fazer o que desejamos, mas sempre (e apenas) tentados por potes de geléia.



calligari@uol.com.br

Friday, April 20, 2007

Soneto XXII

Na sagração de instantes fugitivos
É mais profano o mencionar do eterno,
Pois homens e momentos são votivos,
Podem fazer florir solo de inverno.
Por ser divino o agora não regressa,
É ave, é nuvem, brisa, pressentir,
Arco-íris e relâmpago sem pressa,
Presença com destino de partir.
Este pobre momento que abençoa,
Devaneio e consciência do fugaz,
Já é aquela sensação que voa,
Algo de nós que não regressa mais.
Na paixão dos efêmeros amantes,
A volúvel cortina dos instantes

Paulo Bomfim

Amando (Canto da Lua)

Não sei viver o amor de forma tranqüila
Me inquietam as ausências, os silêncios, as partidas.
Até os encontros em meio a sobressaltos são vividos...
O susto de amar, de deixar de amar,
de ser só fruto de uma fantasia
ou apenas um momento dentro de uma vida...

O coração vai à boca
e só na solidão me acalmo
e me abandono a este prazer
(o prazer de amar), que é infinito...
“Canto da Lua ”
É lá que me refugio....

Cecília

Thursday, April 19, 2007

Poema da Procura

Em nenhuma esquina do teu bairro
Encontrarás o Domingo de tua infância
Povoada de pássaros e melodias.
Hoje, o céu é lamento das aves de metal,
e os realejos se converteram
Em sereias portadoras de cantos funestos.
Inutilmente recordarás
A sombra antiga das mangueiras
E os crepúsculos tranqüilos do mundo que perdeste.
Hoje, és o ser penetrado de ruídos,
E em redor de tua angústia
Desfilam máquinas estranhas
E a multidão de rostos que não reconheces...
Além do teu corpo sepultado entre blocos de pedra,
Há um anjo da morte em cada esquina do universo...

Paulo Bomfim