LUIZ FELIPE PONDÉ
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Somos um nada que ama. Tanto a angústia como o amor são "virtudes práticas" que demandam coragem
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QUANDO VOCÊ estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. Ao falarmos em existencialismo, pensamos em gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, tomando vinho em Paris, dizendo que a vida não tem sentido, fumando cigarros Gitanes.
O ancestral é Pascal, francês do século 17, para quem a alma vive numa luta entre o "ennui" (angústia, tédio) e o "divertissement" (divertimento, distração, este, um termo kierkegaardiano).
O filósofo dinamarquês afirma que nós somos "feitos de angústia" devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.
A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori.
Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como "condenação à liberdade", justamente por sabermos que somos um nada que fala. A liberdade está enraizada tanto na indiferença da pedra, que nos banha a todos, quanto no infinito do nosso espírito diante de um Deus que não precisa de nós.
O filósofo alemão Kant (século 18) se encantava com o fato da existência de duas leis. A primeira, da mecânica newtoniana, por manter os corpos celestes em ordem no universo, e a segunda, a lei moral (para Kant, a moral é passível de ser justificada pela razão), por manter a ordem entre os seres humanos.
Eu, que sou uma alma mais sombria e mais cética, me encanto mais com outras duas "leis": o nada que nos constitui (na tradição do filósofo dinamarquês) e o amor de que somos capazes.
Somos um nada que ama.
A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa "verdade", ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica.
Deste "solo da existência" (o nada), tal como afirma o dinamarquês em seu livro "A Repetição", é possível brotar o verdadeiro amor, algo diferente da mera banalidade.
É conhecida sua teoria dos três estágios como modos de enfrentamento desta experiência do nada. O primeiro, o estético, é quando fugimos do nada buscando sensações de prazer. Fracassamos. O segundo, o ético, quando fugimos nos alienando na certeza de uma vida "correta" (pura hipocrisia). Fracassamos. O terceiro, o religioso, quando "saltamos na fé", sem garantias de salvação. Mas existe também o "abismo do amor".
Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente.
Seu livro "As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos" (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.
A ideia que abre o livro é que o amor "só se conhece pelos frutos". Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua "visibilidade" apenas prática.
Angústia e amor são "virtudes práticas" que demandam coragem.
Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.
Numa tradição que reúne Freud, Nietzsche e Dostoiévski (e que se afasta da banalidade contemporânea que busca a felicidade como "lei da alma"), o dinamarquês acredita que o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro consigo mesmo.
Deixo com você, caro leitor, uma de suas pérolas:
"Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor... Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber."
Infelizes os que nunca amaram. Nunca ter amado é uma forma terrível de ignorância.
Tuesday, June 14, 2011
Thursday, May 26, 2011
Em busca de limite
ROSELY SAYÃO
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O que temos feito para que os jovens amem a vida, tenham respeito por si mesmos e construam um futuro?
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"Socorro! Não estou sentindo nada/ Nem medo nem calor nem fogo/ Não vai dar mais pra chorar/ Nem pra rir... Socorro!"
Esse é o trecho inicial de uma canção, composta por Arnaldo Antunes e Alice Ruiz, que foi bem lembrada por uma conhecida que passou um Dia das Mães bem difícil.
Nesse dia, ela enfrentou a morte de dois jovens de 21 anos: um primo e a irmã de uma amiga. Os dois perderam a vida em situações bem semelhantes que envolveram a combinação jovem + ingestão de bebida alcoólica + direção em alta velocidade.
"Como ajudar esses jovens?", perguntou. A questão que ela dolorosamente levantou faz muito sentido.
Hoje, acidentes de trânsito são uma das maiores causas da morte de jovens, e as estatísticas apontam que a embriaguez está presente principalmente quando as vítimas têm entre 18 e 30 anos.
O que temos feito para que esses jovens amem a vida, desenvolvam o autocuidado e atitudes de respeito por si mesmos, tratem suas emoções com delicadeza e construam um projeto de vida que lhes permita olhar para o futuro como um alvo a ser alcançado e não uma fatalidade ou determinação?
Temos estimulado o consumo na vida deles, de todos os modos. Carro, telefone celular e computador, por exemplo, não são desejados por eles pelas suas funções básicas e sim pelo modelo, pelas funções complementares, pela aparência e, principalmente, pelo status que a posse desses objetos lhes confere.
O carro não é um sonho de consumo para os jovens por facilitar suas vidas pela locomoção de um lugar para outro, por exemplo.
Vale muito mais, quando não somente, pelo valor que ele agrega à sua pessoa. Um jovem sente que tem mais valor quando tem um carro, mesmo que não tenha sido fruto de seu trabalho.
E o que falar da competição? Desde que são pequenos, desejamos que sejam os melhores, os primeiros da fila, os campeões. Mas, fora do esporte, a competição não facilita a vida de nossos jovens.
Ao contrário: funciona como uma pressão muitas vezes avassaladora.
Vocês sabem que os jovens, no ano do vestibular, contam, muitas vezes estimulados pelas escolas, quantos são os pares que precisam derrubar para entrar na faculdade almejada?
Ah! Não podemos esquecer também que, de muitas formas, ensinamos a eles que o que vale na vida é a curtição do aqui e agora: prazer e diversão devem ser os ingredientes básicos do cotidiano que vivem.
E assim vivem eles, de balada a balada, de beijo a beijo, de uma rede virtual a outra, de uma transa a outra, de um esporte radical a outro.
Mas, pelo jeito, isso não está dando certo. Estudos de todas as partes do mundo acusam: as taxas de suicídio entre os jovens têm aumentado assustadoramente, e nosso país não é uma exceção a essa tendência.
Precisamos ouvir esses jovens. O que os inquieta, o que lhes tira a tranquilidade, qual a visão de mundo que eles têm? O que eles aprendem conosco, o que criticam em nosso modo de viver, quem são seus oponentes?
Um jovem conhecido me procurou para trocar ideias a respeito da sua vida e começou logo dizendo que me procurara por saber que eu não conversaria com ele como se fosse sua amiga e que ele sabia que, caso ele precisasse, eu daria uns "toques pesados" para ele.
Traduzindo: o que ele pedia era uma escuta atenciosa e, depois, uma bronca. Que ele levou por merecimento ""aliás, ele já sabia disso desde o início de nossa conversa"" e gostou de ter levado.
De jovens, bastam eles. A juventude exaure, sabia leitor? Talvez nossos jovens precisem da companhia de pessoas mais velhas, dos adultos, por exemplo. Onde estão eles? Curtindo sua própria juventude já ida...
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O que temos feito para que os jovens amem a vida, tenham respeito por si mesmos e construam um futuro?
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"Socorro! Não estou sentindo nada/ Nem medo nem calor nem fogo/ Não vai dar mais pra chorar/ Nem pra rir... Socorro!"
Esse é o trecho inicial de uma canção, composta por Arnaldo Antunes e Alice Ruiz, que foi bem lembrada por uma conhecida que passou um Dia das Mães bem difícil.
Nesse dia, ela enfrentou a morte de dois jovens de 21 anos: um primo e a irmã de uma amiga. Os dois perderam a vida em situações bem semelhantes que envolveram a combinação jovem + ingestão de bebida alcoólica + direção em alta velocidade.
"Como ajudar esses jovens?", perguntou. A questão que ela dolorosamente levantou faz muito sentido.
Hoje, acidentes de trânsito são uma das maiores causas da morte de jovens, e as estatísticas apontam que a embriaguez está presente principalmente quando as vítimas têm entre 18 e 30 anos.
O que temos feito para que esses jovens amem a vida, desenvolvam o autocuidado e atitudes de respeito por si mesmos, tratem suas emoções com delicadeza e construam um projeto de vida que lhes permita olhar para o futuro como um alvo a ser alcançado e não uma fatalidade ou determinação?
Temos estimulado o consumo na vida deles, de todos os modos. Carro, telefone celular e computador, por exemplo, não são desejados por eles pelas suas funções básicas e sim pelo modelo, pelas funções complementares, pela aparência e, principalmente, pelo status que a posse desses objetos lhes confere.
O carro não é um sonho de consumo para os jovens por facilitar suas vidas pela locomoção de um lugar para outro, por exemplo.
Vale muito mais, quando não somente, pelo valor que ele agrega à sua pessoa. Um jovem sente que tem mais valor quando tem um carro, mesmo que não tenha sido fruto de seu trabalho.
E o que falar da competição? Desde que são pequenos, desejamos que sejam os melhores, os primeiros da fila, os campeões. Mas, fora do esporte, a competição não facilita a vida de nossos jovens.
Ao contrário: funciona como uma pressão muitas vezes avassaladora.
Vocês sabem que os jovens, no ano do vestibular, contam, muitas vezes estimulados pelas escolas, quantos são os pares que precisam derrubar para entrar na faculdade almejada?
Ah! Não podemos esquecer também que, de muitas formas, ensinamos a eles que o que vale na vida é a curtição do aqui e agora: prazer e diversão devem ser os ingredientes básicos do cotidiano que vivem.
E assim vivem eles, de balada a balada, de beijo a beijo, de uma rede virtual a outra, de uma transa a outra, de um esporte radical a outro.
Mas, pelo jeito, isso não está dando certo. Estudos de todas as partes do mundo acusam: as taxas de suicídio entre os jovens têm aumentado assustadoramente, e nosso país não é uma exceção a essa tendência.
Precisamos ouvir esses jovens. O que os inquieta, o que lhes tira a tranquilidade, qual a visão de mundo que eles têm? O que eles aprendem conosco, o que criticam em nosso modo de viver, quem são seus oponentes?
Um jovem conhecido me procurou para trocar ideias a respeito da sua vida e começou logo dizendo que me procurara por saber que eu não conversaria com ele como se fosse sua amiga e que ele sabia que, caso ele precisasse, eu daria uns "toques pesados" para ele.
Traduzindo: o que ele pedia era uma escuta atenciosa e, depois, uma bronca. Que ele levou por merecimento ""aliás, ele já sabia disso desde o início de nossa conversa"" e gostou de ter levado.
De jovens, bastam eles. A juventude exaure, sabia leitor? Talvez nossos jovens precisem da companhia de pessoas mais velhas, dos adultos, por exemplo. Onde estão eles? Curtindo sua própria juventude já ida...
Saturday, May 21, 2011
Considerações sobre novos desejos
CONTARDO CALLIGARIS
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Causa da depressão pode não ser perda e frustração, mas a chegada de novo desejo, que é silenciado
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UM JOVEM não sabe o que ele está a fim de fazer da vida, e os pais pedem que eu descubra qual é o desejo do filho, de modo que ele possa escolher o vestibular e a profissão que ele "realmente" gostaria.
Na mesma semana, encontro um adulto que acha que, de fato, nunca fez nada por desejo. Embora bem-sucedido, queixa-se de que suas escolhas (profissionais e amorosas) sempre teriam sido circunstanciais, efeitos de oportunidades encontradas ao longo do caminho. Ele pede, antes que seja tarde, que eu o ajude a descobrir qual é "realmente" o seu desejo.
Nos dois casos, o pressuposto é o mesmo: quem viver segundo seu desejo será, no mínimo, mais alegre. Esta é mesmo uma boa definição da alegria: a sensação de que nosso desejo está engajado no que estamos fazendo, ou seja, de que nossa vida não acontece por inércia e obrigação. Inversa e logicamente, muitos estimam dever sua (grande ou pequena) infelicidade ao fato de terem dirigido a vida por caminhos que - eles declaram - não eram exatamente os que eles queriam.
Pois bem, esse pressuposto e os pedidos que recebi se chocam com esta constatação: o "nosso desejo" nunca é UM desejo definido por UM objeto ou por UM projeto. Não existe, nem escrito lá no fundo escondido de nossa mente, UM querer definido, que poderíamos descobrir e, logo, praticar com afinco e satisfação porque estaríamos fazendo aquela coisa ou caçando aquele objeto aos quais éramos, por assim dizer, destinados. Nada disso: de uma certa forma, todos os objetos e os projetos se valem, e nenhum é "nosso" objeto ou projeto específico. Ou seja, nós desejamos sempre segundo as circunstâncias, os encontros, as oportunidades - segundo as tentações, se você preferir.
Somos volúveis? Nem tanto, pois cada objeto e projeto não substitui necessariamente o anterior. O que acontece é que desejar é uma atividade inventiva a jato contínuo.
Por consequência, mesmo quando estamos alegremente convencidos de estar fazendo o que queremos com nossa vida, nunca estamos ao abrigo do surgimento de desejos novos.
Claro, podemos aceitar esses desejos novos. Por exemplo, em "As Confissões de Schmidt" (que não é um grande filme), de A. Payne, com Jack Nicholson, o protagonista acorda de noite, olha para sua mulher de sei lá quantos anos e se pergunta estupefato: "Quem é esta mulher que dorme na minha cama?". Logo, ele dá um rumo novo à sua vida, colocando o pé na estrada. Mas a expressão de seus novos desejos é fortemente facilitada por duas circunstâncias: providencialmente, o protagonista se aposenta e fica viúvo. Nessas condições, escutar novos desejos fica fácil, não é?
Agora, imaginemos alguém que esteja no meio de sua vida profissional e num bom momento de sua vida amorosa. Nesse caso, provavelmente, o novo desejo será silenciado, reprimido, menosprezado ("deixe para lá, é besteira"). Resultado: o indivíduo continuará declarando que está vivendo a vida que ele queria (e, em parte, será verdade); só que, de repente, sem entender por quê, ele perderá sua alegria.
Por que razão nosso indivíduo negligenciaria seus novos desejos? Simples: por serem novos, eles acarretam a ameaça de uma ruptura no presente: afetos e laços que poderiam ser perdidos, medo da solidão e preguiça dos esforços necessários para reinventar a vida.
Infelizmente, essa negligência tem um custo alto. Sempre entendi assim a "Metamorfose", de Kafka: alguém acorda, e o que até então era uma vida normal e legal, de repente, aos seus olhos, é uma vida de barata.
Nota útil para a clínica da depressão. Às vezes, procuramos em vão as causas de uma depressão; será que houve lutos ou perdas? Nada disso; está tudo bem, trabalho, família, filhos e tal, mas o indivíduo entristece, volta a fumar e a beber como se quisesse encurtar a vida, engorda como se estivesse num mar de frustração e precisasse de gratificações alternativas.
Em muitas dessas vezes, a origem da depressão não é uma perda, nem propriamente uma frustração, mas a aparição de um desejo novo que não foi reconhecido. E os novos desejos, sobretudo quando são silenciados, desvalorizam a vida que estamos vivendo.
Moral da fábula: 1) Não existem vidas definitivamente resolvidas, pois novos desejos surgem sempre; 2) É bom reconhecer os novos desejos, mesmo que deixemos de realizá-los.
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Causa da depressão pode não ser perda e frustração, mas a chegada de novo desejo, que é silenciado
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UM JOVEM não sabe o que ele está a fim de fazer da vida, e os pais pedem que eu descubra qual é o desejo do filho, de modo que ele possa escolher o vestibular e a profissão que ele "realmente" gostaria.
Na mesma semana, encontro um adulto que acha que, de fato, nunca fez nada por desejo. Embora bem-sucedido, queixa-se de que suas escolhas (profissionais e amorosas) sempre teriam sido circunstanciais, efeitos de oportunidades encontradas ao longo do caminho. Ele pede, antes que seja tarde, que eu o ajude a descobrir qual é "realmente" o seu desejo.
Nos dois casos, o pressuposto é o mesmo: quem viver segundo seu desejo será, no mínimo, mais alegre. Esta é mesmo uma boa definição da alegria: a sensação de que nosso desejo está engajado no que estamos fazendo, ou seja, de que nossa vida não acontece por inércia e obrigação. Inversa e logicamente, muitos estimam dever sua (grande ou pequena) infelicidade ao fato de terem dirigido a vida por caminhos que - eles declaram - não eram exatamente os que eles queriam.
Pois bem, esse pressuposto e os pedidos que recebi se chocam com esta constatação: o "nosso desejo" nunca é UM desejo definido por UM objeto ou por UM projeto. Não existe, nem escrito lá no fundo escondido de nossa mente, UM querer definido, que poderíamos descobrir e, logo, praticar com afinco e satisfação porque estaríamos fazendo aquela coisa ou caçando aquele objeto aos quais éramos, por assim dizer, destinados. Nada disso: de uma certa forma, todos os objetos e os projetos se valem, e nenhum é "nosso" objeto ou projeto específico. Ou seja, nós desejamos sempre segundo as circunstâncias, os encontros, as oportunidades - segundo as tentações, se você preferir.
Somos volúveis? Nem tanto, pois cada objeto e projeto não substitui necessariamente o anterior. O que acontece é que desejar é uma atividade inventiva a jato contínuo.
Por consequência, mesmo quando estamos alegremente convencidos de estar fazendo o que queremos com nossa vida, nunca estamos ao abrigo do surgimento de desejos novos.
Claro, podemos aceitar esses desejos novos. Por exemplo, em "As Confissões de Schmidt" (que não é um grande filme), de A. Payne, com Jack Nicholson, o protagonista acorda de noite, olha para sua mulher de sei lá quantos anos e se pergunta estupefato: "Quem é esta mulher que dorme na minha cama?". Logo, ele dá um rumo novo à sua vida, colocando o pé na estrada. Mas a expressão de seus novos desejos é fortemente facilitada por duas circunstâncias: providencialmente, o protagonista se aposenta e fica viúvo. Nessas condições, escutar novos desejos fica fácil, não é?
Agora, imaginemos alguém que esteja no meio de sua vida profissional e num bom momento de sua vida amorosa. Nesse caso, provavelmente, o novo desejo será silenciado, reprimido, menosprezado ("deixe para lá, é besteira"). Resultado: o indivíduo continuará declarando que está vivendo a vida que ele queria (e, em parte, será verdade); só que, de repente, sem entender por quê, ele perderá sua alegria.
Por que razão nosso indivíduo negligenciaria seus novos desejos? Simples: por serem novos, eles acarretam a ameaça de uma ruptura no presente: afetos e laços que poderiam ser perdidos, medo da solidão e preguiça dos esforços necessários para reinventar a vida.
Infelizmente, essa negligência tem um custo alto. Sempre entendi assim a "Metamorfose", de Kafka: alguém acorda, e o que até então era uma vida normal e legal, de repente, aos seus olhos, é uma vida de barata.
Nota útil para a clínica da depressão. Às vezes, procuramos em vão as causas de uma depressão; será que houve lutos ou perdas? Nada disso; está tudo bem, trabalho, família, filhos e tal, mas o indivíduo entristece, volta a fumar e a beber como se quisesse encurtar a vida, engorda como se estivesse num mar de frustração e precisasse de gratificações alternativas.
Em muitas dessas vezes, a origem da depressão não é uma perda, nem propriamente uma frustração, mas a aparição de um desejo novo que não foi reconhecido. E os novos desejos, sobretudo quando são silenciados, desvalorizam a vida que estamos vivendo.
Moral da fábula: 1) Não existem vidas definitivamente resolvidas, pois novos desejos surgem sempre; 2) É bom reconhecer os novos desejos, mesmo que deixemos de realizá-los.
Sunday, May 15, 2011
Fim de Festa
CARLOS HEITOR CONY
RIO DE JANEIRO - E, quando melhores estão as coisas, surge a vontade antiga: acreditar outra vez. Já nem importa simplesmente acreditar em quê, mas acreditar em si mesmo, no amor, no trabalho, na virtude, no inferno ou no nada.
A culpa já não é mais da vida -é nossa. E nisso não há consolo nem glória. Deixamos que as coisas se gastassem e, de tanto evitá-las, de tanto nos guardar para uma oportunidade que nunca veio -e agora sabemos que não adianta vir-, construímos o vácuo que nos conserva monotonamente iguais e frios, como um réptil de duras escamas, a esconder a fragilidade de uma carne virgem e condenada a ser carne.
Também não é o caso de desesperar. O desespero é solução da tribo dos traídos ou dos ofendidos -e, à distância em que nos colocamos dos seres e das coisas, ficamos protegidos das traições e das ofensas. "Turris eburnea, ora pro nobis" -nem adianta repetir as ladainhas da infância nem as imprecações e blasfêmias da mocidade.
Isto posto, seguir em frente (se ainda há frente), com a certeza de que não vai acontecer nada, nem mesmo a morte.
De tanto esperá-la, de tanto temê-la, assimila-se a morte como um acontecimento presente, que está acontecendo a cada minuto, neste momento, espremendo o corpo contra o tempo que ainda falta curtir -igualzinho a um fim de férias, de festa ou de recreio que sabemos que vai acabar daqui a pouco e não adianta iniciarmos nova conversa ou nova brincadeira: não haverá tempo.
Sobra então o compromisso com a hora da hora em torno da hora -e qualquer brincadeira ou conversa será sem sentido. E enquanto tudo não acaba, há tempo para pensar em tudo, tempo para pensar no tempo, vontade de ter vontade.
Mesmo assim, no corredor final, a vida vale a pena mesmo que a alma seja pequena?
RIO DE JANEIRO - E, quando melhores estão as coisas, surge a vontade antiga: acreditar outra vez. Já nem importa simplesmente acreditar em quê, mas acreditar em si mesmo, no amor, no trabalho, na virtude, no inferno ou no nada.
A culpa já não é mais da vida -é nossa. E nisso não há consolo nem glória. Deixamos que as coisas se gastassem e, de tanto evitá-las, de tanto nos guardar para uma oportunidade que nunca veio -e agora sabemos que não adianta vir-, construímos o vácuo que nos conserva monotonamente iguais e frios, como um réptil de duras escamas, a esconder a fragilidade de uma carne virgem e condenada a ser carne.
Também não é o caso de desesperar. O desespero é solução da tribo dos traídos ou dos ofendidos -e, à distância em que nos colocamos dos seres e das coisas, ficamos protegidos das traições e das ofensas. "Turris eburnea, ora pro nobis" -nem adianta repetir as ladainhas da infância nem as imprecações e blasfêmias da mocidade.
Isto posto, seguir em frente (se ainda há frente), com a certeza de que não vai acontecer nada, nem mesmo a morte.
De tanto esperá-la, de tanto temê-la, assimila-se a morte como um acontecimento presente, que está acontecendo a cada minuto, neste momento, espremendo o corpo contra o tempo que ainda falta curtir -igualzinho a um fim de férias, de festa ou de recreio que sabemos que vai acabar daqui a pouco e não adianta iniciarmos nova conversa ou nova brincadeira: não haverá tempo.
Sobra então o compromisso com a hora da hora em torno da hora -e qualquer brincadeira ou conversa será sem sentido. E enquanto tudo não acaba, há tempo para pensar em tudo, tempo para pensar no tempo, vontade de ter vontade.
Mesmo assim, no corredor final, a vida vale a pena mesmo que a alma seja pequena?
Friday, May 06, 2011
Uma nova terra, um novo chão
Uma nova terra
um novo som
em diferentes instrumentos...
Quem irá tocá-los
num ritmo que não é o meu?
Será o teu?
Enquanto o sol adormece
num crepúsculo encantador
penso na terra que deixei...
Por lá alguém!
Uma nova terra, um novo chão...
Meu novo desabrochar...
Vera de Barcellos
( minha nova amiga)
um novo som
em diferentes instrumentos...
Quem irá tocá-los
num ritmo que não é o meu?
Será o teu?
Enquanto o sol adormece
num crepúsculo encantador
penso na terra que deixei...
Por lá alguém!
Uma nova terra, um novo chão...
Meu novo desabrochar...
Vera de Barcellos
( minha nova amiga)
Wednesday, May 04, 2011
A forma e a função
LULI RADFAHRER
A tecnologia não copia a inteligência: ela mimetiza o processo sofisticado e complexo que é a vida
É interessante pensar que, por mais que muitos se queixem da velocidade e da abrangência das mudanças, são poucos aqueles capazes de imaginar um mundo sem internet ou telefones celulares. As tecnologias, quando bem-sucedidas, têm uma tendência natural a se misturar com os processos que amplificam e se tornarem invisíveis. Pense em logística ou energia elétrica, por exemplo: elas transformaram o cotidiano de tal forma que a sua ausência é quase uma curiosidade histórica ou antropológica.
Com a digitalização e as redes acontece a mesma coisa. Elas criam novos desafios à medida que resolvem os problemas das épocas passadas, em um processo de complexidade crescente e desequilíbrio permanente, em que não há estado ideal ou final. Nunca poderemos dizer que o mundo foi computadorizado ou digitalizado para sempre. Não dá nem para saber o que isso significa, ou mesmo se estaremos por lá para testemunhá-lo. A ideia de um problema "resolvido" ou "perfeito" é uma ilusão de controle típica do homem ocidental.
É fundamental compreender o progresso em sua verdadeira forma. O grande erro dos cientistas da informação do século passado foi acreditar que a tecnologia poderia sintetizar a inteligência. O que ela mimetiza, na verdade, é um processo muito mais sofisticado e complexo: a própria vida, em que pequenos organismos, frágeis e codependentes, se apoiam e parasitam mutuamente, resolvendo seus problemas em grupo enquanto criam outros, em um ciclo evolutivo infinito.
Pelo que se vê hoje, o mundo do futuro deverá ter um ecossistema de milhões de aparelhos tecnológicos de diversos tamanhos, cujos comportamentos parecerão orgânicos. Ele não será, como se pensava no início do Modernismo, um sistema único, eficiente, industrial, minimamente planejado e limpo. Pelo contrário, hoje a inovação tem mais a cara daquilo que o mercado quiser pagar, mesmo que não seja necessariamente melhor para seus usuários, do que a invenção genial de um cientista louco. Não é melhor nem pior, só é diferente.
Estamos saindo de um sistema em que a forma seguia a função e que tudo fazia sentido mecânico para um ambiente simbólico em que as máquinas morrem mais rápido que seus usuários e que a forma não consegue nem saber qual é a sua função. Deixadas de lado questões práticas de ergonomia, hoje a função é a manifestação microscópica das ideias. Ela cabe em uma antena, em um chip de silício. E pode ser mudada a qualquer instante.
Como toda ideia, os novos objetos --um iPad, por exemplo-- não aceitam definições absolutas e estão em constante mutação. É fácil entender por que tantos sofrem crises de identidade.
A era das certezas vem chegando ao seu final, e a falta de referências é típica de um ambiente cujos parâmetros são fragmentados e mudam o tempo todo. Se hoje os hábitos, as tradições e a continuidade vêm desaparecendo, é porque perdem terreno para a flexibilidade, a mobilidade, a imaginação e a criatividade.
Não é o fim do mundo como o conhecemos, mas é o fim de um modo de pensar que tentou controlar o ambiente à sua volta. Se essa transição provoca insegurança, vale lembrar que o taoísmo e o budismo sempre disseram que todo movimento só é causado pelo constante desequilíbrio.
A tecnologia não copia a inteligência: ela mimetiza o processo sofisticado e complexo que é a vida
É interessante pensar que, por mais que muitos se queixem da velocidade e da abrangência das mudanças, são poucos aqueles capazes de imaginar um mundo sem internet ou telefones celulares. As tecnologias, quando bem-sucedidas, têm uma tendência natural a se misturar com os processos que amplificam e se tornarem invisíveis. Pense em logística ou energia elétrica, por exemplo: elas transformaram o cotidiano de tal forma que a sua ausência é quase uma curiosidade histórica ou antropológica.
Com a digitalização e as redes acontece a mesma coisa. Elas criam novos desafios à medida que resolvem os problemas das épocas passadas, em um processo de complexidade crescente e desequilíbrio permanente, em que não há estado ideal ou final. Nunca poderemos dizer que o mundo foi computadorizado ou digitalizado para sempre. Não dá nem para saber o que isso significa, ou mesmo se estaremos por lá para testemunhá-lo. A ideia de um problema "resolvido" ou "perfeito" é uma ilusão de controle típica do homem ocidental.
É fundamental compreender o progresso em sua verdadeira forma. O grande erro dos cientistas da informação do século passado foi acreditar que a tecnologia poderia sintetizar a inteligência. O que ela mimetiza, na verdade, é um processo muito mais sofisticado e complexo: a própria vida, em que pequenos organismos, frágeis e codependentes, se apoiam e parasitam mutuamente, resolvendo seus problemas em grupo enquanto criam outros, em um ciclo evolutivo infinito.
Pelo que se vê hoje, o mundo do futuro deverá ter um ecossistema de milhões de aparelhos tecnológicos de diversos tamanhos, cujos comportamentos parecerão orgânicos. Ele não será, como se pensava no início do Modernismo, um sistema único, eficiente, industrial, minimamente planejado e limpo. Pelo contrário, hoje a inovação tem mais a cara daquilo que o mercado quiser pagar, mesmo que não seja necessariamente melhor para seus usuários, do que a invenção genial de um cientista louco. Não é melhor nem pior, só é diferente.
Estamos saindo de um sistema em que a forma seguia a função e que tudo fazia sentido mecânico para um ambiente simbólico em que as máquinas morrem mais rápido que seus usuários e que a forma não consegue nem saber qual é a sua função. Deixadas de lado questões práticas de ergonomia, hoje a função é a manifestação microscópica das ideias. Ela cabe em uma antena, em um chip de silício. E pode ser mudada a qualquer instante.
Como toda ideia, os novos objetos --um iPad, por exemplo-- não aceitam definições absolutas e estão em constante mutação. É fácil entender por que tantos sofrem crises de identidade.
A era das certezas vem chegando ao seu final, e a falta de referências é típica de um ambiente cujos parâmetros são fragmentados e mudam o tempo todo. Se hoje os hábitos, as tradições e a continuidade vêm desaparecendo, é porque perdem terreno para a flexibilidade, a mobilidade, a imaginação e a criatividade.
Não é o fim do mundo como o conhecemos, mas é o fim de um modo de pensar que tentou controlar o ambiente à sua volta. Se essa transição provoca insegurança, vale lembrar que o taoísmo e o budismo sempre disseram que todo movimento só é causado pelo constante desequilíbrio.
Sunday, April 17, 2011
Curiosidade despertada
A verdade ELIANE CANTANHÊDE O artigo autobiográfico do economista Persio Arida na revista "Piauí" é uma preciosidade. Num texto primoroso, ele coloca as coisas no seu devido lugar, mostrando os erros horrendos dos militares da época, mas também reconhecendo o quão equivocada foi a luta armada. Não apenas na tática, mas igualmente nos propósitos. Sem querer, Persio dá um roteiro impecável para a Comissão da Verdade que tramita no Congresso e se propõe a reconstituir a história como ela é, pelo lado que ganhou à época e pelo que ganhou agora. Ali estão, contados com a serenidade possível, praticamente dispensando adjetivos, a sua prisão, a tortura, a asfixia pela asma não medicada, o impacto do assassinato do militante Bacuri. É o que a esquerda quer da comissão. Mas ali está igualmente uma reflexão madura, honesta e corajosa sobre os erros da militância armada -e avaliação, execução e objetivo. E é isso o que os militares reivindicam da comissão. Ao falar sobre a luta armada, Persio lembra sua angústia ao finalmente admitir para si próprio: "O que teria acontecido com os direitos humanos se aquele movimento tivesse dado certo?". E responde: "Sua dinâmica continha o mesmo vírus que fez, em outros momentos da história, militantes de excepcional pureza revolucionária se transformarem, no poder, em mandantes de mortes em massa e de torturas. (...) O terror legitimado pela utopia revolucionária. Teríamos trocado seis por meia dúzia". Então, vamos trucidar mais uma vez os militantes que já foram literalmente trucidados? Desdenhar dos que foram presos, torturados, humilhados e alquebrados? Não. Nem Persio o fez. Sua conclusão, machadiana, diz tudo numa única frase: "A militância contribuiu, por vias tortas, para a volta da democracia -mas nisso se esgotara todo o seu sentido". Eis uma boa reflexão para a história -não só a dele, mas a do país.
Saturday, March 26, 2011
Solidão crônica
DRAUZIO VARELLA
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A solidão crônica interfere na qualidade do sono, causa fadiga e reduz a sensação de prazer
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O ISOLAMENTO social aumenta o risco de morte tanto quanto o cigarro, e mais do que o sedentarismo ou a obesidade.
A relação entre vida solitária, doenças cardiovasculares, depressão e incidência de infecções foi demonstrada em mais de cem estudos epidemiológicos publicados a partir dos anos 1980. Esses estudos, no entanto, não explicam os mecanismos através dos quais o isolamento aumenta a mortalidade.
Nos últimos dez anos, os efeitos biológicos da solidão se tornaram mais conhecidos graças ao trabalho inovador de um grupo da Universidade de Chicago, dirigido por John Cacciopo.
Por meio de questionários para avaliar o grau de isolamento social dos participantes de testes psicológicos e de exames laboratoriais, o grupo de Chicago concluiu que embora episódios passageiros de solidão sejam inevitáveis e desprovidos de repercussões orgânicas relevantes, quando o isolamento persiste de forma crônica, suas consequências se tornam especialmente nocivas.
Algumas pessoas que vivem isoladas não se sentem solitárias, enquanto outras têm a sensação de estar sozinhas apesar da vida social intensa. A percepção subjetiva da solidão é mais importante para o bem-estar individual do que qualquer medida objetiva do número de interações sociais.
Numa escala criada para avaliar o grau de isolamento pessoal, aqueles com escore mais alto apresentam alterações bioquímicas sugestivas de que seus dias são conturbados. Neles, por exemplo, estão elevadas as concentrações urinárias de cortisol e epinefrina, moléculas associadas aos níveis de estresse.
Esse dado ajuda a explicar porque os solitários crônicos ficam estressados diante de situações que outros enfrentam com naturalidade, como falar em público ou conversar com desconhecidos.
Na evolução de nossa espécie, a ansiedade provocada pela solidão funcionou como sinal de alerta para que o indivíduo procurasse a proteção do grupo. Num mundo povoado por predadores, que chance de sobrevivência teria um animal fraco como nós perambulando sozinho?
Nesse sentido, o sofrimento que a solidão traz é faca de dois gumes: de um lado, colabora para a adaptação ao meio porque favorece o agrupamento; de outro, prejudica o organismo quando se torna crônico.
O grupo de Chicago investigou as repercussões imunológicas do isolamento prolongado. Nos solitários estão mais ativos os genes que promovem inflamação, enquanto aqueles envolvidos na resposta imune contra os vírus exibem atividade diminuída. Por essa razão, eles apresentam maior susceptibilidade às infecções virais (da gripe ao HIV) e à doença cardiovascular, enfermidade associada aos processos inflamatórios.
A solidão crônica interfere com a qualidade do sono, é causa de fadiga e reduz a sensação de prazer associada a atividades recreativas. Para agravar o isolamento, os já solitários tendem a reagir negativamente aos estímulos e a desenvolver impressões depreciativas a respeito das pessoas com as quais interagem.
A avaliação das funções cerebrais por meio de ressonância magnética funcional, mostra que a solidão crônica afeta o córtex pré-frontal, área localizada na parte da frente do cérebro, crucial para a tomada de decisões racionais, como as de planejar o melhor caminho para o trabalho ou a hora de ir ao banco.
O comprometimento do córtex pré-frontal ajuda a entender por que as pessoas que se sentem isoladas correm mais risco de comer mal, fumar, abusar do álcool, ganhar peso e levar vida sedentária.
Estudos com irmãos gêmeos revelam que a solidão crônica não depende exclusivamente das características do meio, mas apresenta aspectos hereditários. É como se existisse um "termostato genético" para a capacidade de lidar com a solidão, ajustado em níveis diferentes em cada um de nós.
Isso não quer dizer que nossos genes nos condenariam à vida solitária, mas que estão por trás da intensidade da dor sentida quando estamos sós.
Com o celular e a internet criamos possibilidades ilimitadas de interações sociais, num único dia podemos entrar em contato com um número de pessoas que nossos antepassados levariam anos para conhecer. Contraditoriamente, o contingente dos que se queixam da falta de alguém com quem compartilhar sentimentos íntimos aumenta em todos os países.
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A solidão crônica interfere na qualidade do sono, causa fadiga e reduz a sensação de prazer
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O ISOLAMENTO social aumenta o risco de morte tanto quanto o cigarro, e mais do que o sedentarismo ou a obesidade.
A relação entre vida solitária, doenças cardiovasculares, depressão e incidência de infecções foi demonstrada em mais de cem estudos epidemiológicos publicados a partir dos anos 1980. Esses estudos, no entanto, não explicam os mecanismos através dos quais o isolamento aumenta a mortalidade.
Nos últimos dez anos, os efeitos biológicos da solidão se tornaram mais conhecidos graças ao trabalho inovador de um grupo da Universidade de Chicago, dirigido por John Cacciopo.
Por meio de questionários para avaliar o grau de isolamento social dos participantes de testes psicológicos e de exames laboratoriais, o grupo de Chicago concluiu que embora episódios passageiros de solidão sejam inevitáveis e desprovidos de repercussões orgânicas relevantes, quando o isolamento persiste de forma crônica, suas consequências se tornam especialmente nocivas.
Algumas pessoas que vivem isoladas não se sentem solitárias, enquanto outras têm a sensação de estar sozinhas apesar da vida social intensa. A percepção subjetiva da solidão é mais importante para o bem-estar individual do que qualquer medida objetiva do número de interações sociais.
Numa escala criada para avaliar o grau de isolamento pessoal, aqueles com escore mais alto apresentam alterações bioquímicas sugestivas de que seus dias são conturbados. Neles, por exemplo, estão elevadas as concentrações urinárias de cortisol e epinefrina, moléculas associadas aos níveis de estresse.
Esse dado ajuda a explicar porque os solitários crônicos ficam estressados diante de situações que outros enfrentam com naturalidade, como falar em público ou conversar com desconhecidos.
Na evolução de nossa espécie, a ansiedade provocada pela solidão funcionou como sinal de alerta para que o indivíduo procurasse a proteção do grupo. Num mundo povoado por predadores, que chance de sobrevivência teria um animal fraco como nós perambulando sozinho?
Nesse sentido, o sofrimento que a solidão traz é faca de dois gumes: de um lado, colabora para a adaptação ao meio porque favorece o agrupamento; de outro, prejudica o organismo quando se torna crônico.
O grupo de Chicago investigou as repercussões imunológicas do isolamento prolongado. Nos solitários estão mais ativos os genes que promovem inflamação, enquanto aqueles envolvidos na resposta imune contra os vírus exibem atividade diminuída. Por essa razão, eles apresentam maior susceptibilidade às infecções virais (da gripe ao HIV) e à doença cardiovascular, enfermidade associada aos processos inflamatórios.
A solidão crônica interfere com a qualidade do sono, é causa de fadiga e reduz a sensação de prazer associada a atividades recreativas. Para agravar o isolamento, os já solitários tendem a reagir negativamente aos estímulos e a desenvolver impressões depreciativas a respeito das pessoas com as quais interagem.
A avaliação das funções cerebrais por meio de ressonância magnética funcional, mostra que a solidão crônica afeta o córtex pré-frontal, área localizada na parte da frente do cérebro, crucial para a tomada de decisões racionais, como as de planejar o melhor caminho para o trabalho ou a hora de ir ao banco.
O comprometimento do córtex pré-frontal ajuda a entender por que as pessoas que se sentem isoladas correm mais risco de comer mal, fumar, abusar do álcool, ganhar peso e levar vida sedentária.
Estudos com irmãos gêmeos revelam que a solidão crônica não depende exclusivamente das características do meio, mas apresenta aspectos hereditários. É como se existisse um "termostato genético" para a capacidade de lidar com a solidão, ajustado em níveis diferentes em cada um de nós.
Isso não quer dizer que nossos genes nos condenariam à vida solitária, mas que estão por trás da intensidade da dor sentida quando estamos sós.
Com o celular e a internet criamos possibilidades ilimitadas de interações sociais, num único dia podemos entrar em contato com um número de pessoas que nossos antepassados levariam anos para conhecer. Contraditoriamente, o contingente dos que se queixam da falta de alguém com quem compartilhar sentimentos íntimos aumenta em todos os países.
DESCRIÇÃO
O fundo é rosa marmorizado;
a moldura e os números são dourados.
O cabelo é negro, a vestimenta larga.
De longe não a vejo bem (imagem desfocada);
mas sei que tem os olhos baixos e os braços frágeis.
Algo a prende, lhe pesa,
a conserva como estátua
-róseos laços, esfera dourada.
Chego mais perto, lhe querendo ver os traços
mas sei de antemão que são belos e enigmáticos.
Estranha, idealizada figura de mulher,
em um pedestal colocada,
a ele atada solitariamente,
a preencher através do tempo,
o sonho e o ideal de toda a humanidade.
(calendário, abril de 1998)
Cecília
a moldura e os números são dourados.
O cabelo é negro, a vestimenta larga.
De longe não a vejo bem (imagem desfocada);
mas sei que tem os olhos baixos e os braços frágeis.
Algo a prende, lhe pesa,
a conserva como estátua
-róseos laços, esfera dourada.
Chego mais perto, lhe querendo ver os traços
mas sei de antemão que são belos e enigmáticos.
Estranha, idealizada figura de mulher,
em um pedestal colocada,
a ele atada solitariamente,
a preencher através do tempo,
o sonho e o ideal de toda a humanidade.
(calendário, abril de 1998)
Cecília
Tuesday, March 22, 2011
Uma crítica do ótimo "Cópia Fiel"
“Cópia Fiel” mostra a natureza instável do amor
17/3/2011 10:32, Redação, com Reuters - de São Paulo
Melhor atriz no Festival de Cannes 2010, Juliette Binoche resplandece em Cópia Fiel, novo filme do diretor iraniano Abbas Kiarostami. Refletindo uma preocupação presente ao longo da própria obra de Kiarostami e de outros cineastas iranianos, bem como particularmente num trabalho recente do brasileiro Eduardo Coutinho (Jogo de Cena), Cópia Fiel constroi um admirável jogo de verdades e mentiras de um casal, formado por Juliette Binoche e o cantor lírico britânico William Shimell, estreando no cinema.
A verdadeira natureza do relacionamento destes dois é uma das chaves da descoberta da história, cheia de camadas, climas e evocações. Filmado em belíssimos cenários da Toscana, o filme é uma joia intimista, pulsante nos rostos de seus atores e em que o uso do discurso amoroso – oscilando entre o inglês, o francês e o italiano – é movido pelas chamas, ora amortecidas, ora vibrantes, da maturidade.
Nas primeiras cenas, vê-se o escritor James Miller (Shimell) chegando a uma cidadezinha italiana para uma palestra sobre seu novo livro sobre arte, que se chama justamente Cópia Fiel. A partir de detalhes aparentemente banais, evidencia-se um dos temas do filme, sobre as contínuas interrupções do discurso, qualquer que seja. Como quando a apresentação de Miller é interrompida pelo toque de seu próprio celular e pela entrada de uma espectadora atrasada (Juliette Binoche) e seu filho (Adrian Moore).
O fato de que ela se senta entre os lugares reservados na plateia e que cochiche com o tradutor do livro, ao seu lado, parece evidenciar que ela é íntima do escritor. Mais tarde, uma conversa com o filho dá a pista de que, na verdade, ela procura essa intimidade. Quando Miller e ela finalmente se encontram, na loja de antiguidades dela, eles parecem na verdade estranhos que podem ou não querer se conhecer.
Sem querer estragar o jogo da narrativa, o relacionamento entre os dois atravessa vários climas, da tentativa de sedução ao compartilhamento de lembranças e sensações. É como se estes dois tivessem vivido algumas vidas diferentes e, em algumas, se encontrado, noutras, se perdido – sem que isso acarrete nada de sobrenatural, apenas experiências diversas ao longo dos anos.
Além da natureza instável do amor, Cópia Fiel toca outros temas – o primeiro deles, o que dá nome à obra, em torno da importância da discussão sobre o que é autêntico ou falsificado, e o valor, relativo ou absoluto, das muitas cópias encontradas no mundo da arte.
Nesta discussão, é envolvido inclusive um casal de passagem, (o famoso roteirista Jean-Claude Carrière e Agathe Natanson). Justamente quando procura engajá-los a favor de seus argumentos, a protagonista encontra no passante ocasional um intérprete ideal do que está, emocionalmente, tentando dizer a Miller – sem que este a entenda, independentemente da língua que ela fale.
Essas várias línguas que se sobrepõem são o símbolo vivo das várias camadas de incompreensão que podem se acumular entre as pessoas nesta Babel que não é só linguística, mas sobretudo emocional e amorosa. Os vários casais que aparecem no filme – os jovens noivos apaixonados que se sucedem para uma foto junto a uma estátua tida como portadora de sorte; o par maduro que conduz o filme; e uma dupla de velhinhos que eles encontram perto do final – todos se somam como retratos dos vários tempos do amor.
Essa maneira circular de expor seu tema é o grande segredo da magia do filme, que demonstra o engenho raro de sua direção e de sua dupla principal de atores, conduzindo-se esta espiral de sensações com inteligência e sutileza exemplares. Não é o tipo do filme que se vê todos os dias. Mas é certamente o tipo que se deseja imediatamente rever.
17/3/2011 10:32, Redação, com Reuters - de São Paulo
Melhor atriz no Festival de Cannes 2010, Juliette Binoche resplandece em Cópia Fiel, novo filme do diretor iraniano Abbas Kiarostami. Refletindo uma preocupação presente ao longo da própria obra de Kiarostami e de outros cineastas iranianos, bem como particularmente num trabalho recente do brasileiro Eduardo Coutinho (Jogo de Cena), Cópia Fiel constroi um admirável jogo de verdades e mentiras de um casal, formado por Juliette Binoche e o cantor lírico britânico William Shimell, estreando no cinema.
A verdadeira natureza do relacionamento destes dois é uma das chaves da descoberta da história, cheia de camadas, climas e evocações. Filmado em belíssimos cenários da Toscana, o filme é uma joia intimista, pulsante nos rostos de seus atores e em que o uso do discurso amoroso – oscilando entre o inglês, o francês e o italiano – é movido pelas chamas, ora amortecidas, ora vibrantes, da maturidade.
Nas primeiras cenas, vê-se o escritor James Miller (Shimell) chegando a uma cidadezinha italiana para uma palestra sobre seu novo livro sobre arte, que se chama justamente Cópia Fiel. A partir de detalhes aparentemente banais, evidencia-se um dos temas do filme, sobre as contínuas interrupções do discurso, qualquer que seja. Como quando a apresentação de Miller é interrompida pelo toque de seu próprio celular e pela entrada de uma espectadora atrasada (Juliette Binoche) e seu filho (Adrian Moore).
O fato de que ela se senta entre os lugares reservados na plateia e que cochiche com o tradutor do livro, ao seu lado, parece evidenciar que ela é íntima do escritor. Mais tarde, uma conversa com o filho dá a pista de que, na verdade, ela procura essa intimidade. Quando Miller e ela finalmente se encontram, na loja de antiguidades dela, eles parecem na verdade estranhos que podem ou não querer se conhecer.
Sem querer estragar o jogo da narrativa, o relacionamento entre os dois atravessa vários climas, da tentativa de sedução ao compartilhamento de lembranças e sensações. É como se estes dois tivessem vivido algumas vidas diferentes e, em algumas, se encontrado, noutras, se perdido – sem que isso acarrete nada de sobrenatural, apenas experiências diversas ao longo dos anos.
Além da natureza instável do amor, Cópia Fiel toca outros temas – o primeiro deles, o que dá nome à obra, em torno da importância da discussão sobre o que é autêntico ou falsificado, e o valor, relativo ou absoluto, das muitas cópias encontradas no mundo da arte.
Nesta discussão, é envolvido inclusive um casal de passagem, (o famoso roteirista Jean-Claude Carrière e Agathe Natanson). Justamente quando procura engajá-los a favor de seus argumentos, a protagonista encontra no passante ocasional um intérprete ideal do que está, emocionalmente, tentando dizer a Miller – sem que este a entenda, independentemente da língua que ela fale.
Essas várias línguas que se sobrepõem são o símbolo vivo das várias camadas de incompreensão que podem se acumular entre as pessoas nesta Babel que não é só linguística, mas sobretudo emocional e amorosa. Os vários casais que aparecem no filme – os jovens noivos apaixonados que se sucedem para uma foto junto a uma estátua tida como portadora de sorte; o par maduro que conduz o filme; e uma dupla de velhinhos que eles encontram perto do final – todos se somam como retratos dos vários tempos do amor.
Essa maneira circular de expor seu tema é o grande segredo da magia do filme, que demonstra o engenho raro de sua direção e de sua dupla principal de atores, conduzindo-se esta espiral de sensações com inteligência e sutileza exemplares. Não é o tipo do filme que se vê todos os dias. Mas é certamente o tipo que se deseja imediatamente rever.
Wednesday, February 23, 2011
Será?
LUIZ FELIPE PONDÉ
"Femmes aux hommes"
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Mulher não gosta de covarde, mesmo que seja covarde em nome dos "direitos femininos"
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MUITAS LEITORAS se queixam de que nunca falo sobre os males masculinos. Hoje, vou pagar uma parte desta dívida. Como todo homem que gosta de mulher, sou um escravo do desejo de deixá-las felizes. Que inferno...
Recentemente, numa entrevista, uma jornalista me perguntou se acredito que os homens tenham medo de mulheres inteligentes. E também o que seria mais importante numa mulher, beleza ou inteligência.
Antes de tudo, um reparo. Neste assunto, não consulte as feministas porque elas não entendem nada de mulher. Tampouco pergunte aos homens que chamam as mulheres de "vítimas sociais", porque são frouxos. Pobres diabos: mulher não gosta de covarde, mesmo que seja covarde em nome dos "direitos femininos".
A segunda pergunta (o que é mais importante numa mulher, a inteligência ou a beleza?) é fácil: a beleza vem em primeiro lugar, nunca a inteligência. Quando um homem disser pra você que ele prefere mulheres inteligentes, ele quer te pegar. Ou, pior, ele tem medo do patrulhamento das feias e das chatas, que no Brasil, graças às deusas, não crescem em número porque as mulheres brasileiras são como dizem os franceses "femmes aux hommes" (mulheres para os homens).
Por que é necessário ter coragem pra dizer que a inteligência feminina não é erotizada pelos homens? Ora bolas, porque atualmente falar para as mulheres que inteligência vale mais do que a beleza é um "dever de todo cidadão".
Uma mulher poderá fazer uma queixa contra você na delegacia da mulher caso você não diga para ela que inteligência numa mulher é fundamental. Não se engane: inteligência nunca é fundamental. Mas, não exagere para o outro lado: as burrinhas enchem o saco depois de duas horas de sexo.
Quanto à primeira questão (os homens têm medo de mulheres inteligentes?), a resposta é simples: sim, sempre; só os mentirosos e medrosos negam este fato. Melhor dizendo, o homem sempre tem medo da mulher, principalmente quando está interessado nela.
Segundo os darwinistas, esta seria uma característica atávica, desde a savana africana. Medo da infidelidade, medo da impotência, medo do ridículo.
Mas há sutilezas nisso tudo. O homem prefere a beleza, mas num relacionamento de longo investimento, outras característica pesam, às vezes, mais do que a beleza pura e simples. Por exemplo, evidências de que ela seja fiel, boa mãe para seus futuros filhos, generosa, doce (coisa rara em mulheres excessivamente competitivas, como é comum em cidades do tipo São Paulo, mas menos comum em outras regiões, como Minas Gerais ou Nordeste onde elas são mais "sorridentes").
Beleza demais pode dar medo quando ela é sua mulher. Garanhões costumam rondar mulheres bonitas demais. Se você só quer "pousar de poderoso" com uma gostosa, tudo bem, mas se quiser viver com ela, aí a coisa pega. Para pilotar um Boeing você tem que ser competente em muita coisa, e nem sempre dá, num cenário violento e volátil como o mundo contemporâneo, onde as mulheres têm mais opção de escolha afetiva e profissional.
Por que, muitas vezes, é tão difícil para as mulheres aceitarem que a inteligência numa mulher não seja essencial? Porque, ao contrário dos homens (esses seres primitivos, insensíveis e promíscuos... risadas...), as mulheres erotizam a inteligência no homem, às vezes, mais do que a beleza pura e simples.
Eu arriscaria dizer que a inteligência quando associada à coragem (virilidade) pode ser um afrodisíaco imbatível para as mulheres numa noite de calor.
Resumo da ópera: a inteligência numa mulher é um risco interno à relação porque o homem pode se sentir "menor" do que ela.
Já a beleza feminina é sempre um risco externo porque o cara sente medo de perdê-la porque sabe como os outros caras pensam.
Já a inteligência num homem nunca é um risco interno à relação porque as mulheres dão nó em qualquer homem. Mas, é sempre um risco externo porque as mulheres sabem como suas parceiras pensam: se, além da inteligência, o cara tiver "atitude" (a soma disso dá em charme), aí, meu bem, se prepare para a cobiça de suas amigas.
A experiência que eu tenho lhe dá razão... (Cecília)
"Femmes aux hommes"
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Mulher não gosta de covarde, mesmo que seja covarde em nome dos "direitos femininos"
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MUITAS LEITORAS se queixam de que nunca falo sobre os males masculinos. Hoje, vou pagar uma parte desta dívida. Como todo homem que gosta de mulher, sou um escravo do desejo de deixá-las felizes. Que inferno...
Recentemente, numa entrevista, uma jornalista me perguntou se acredito que os homens tenham medo de mulheres inteligentes. E também o que seria mais importante numa mulher, beleza ou inteligência.
Antes de tudo, um reparo. Neste assunto, não consulte as feministas porque elas não entendem nada de mulher. Tampouco pergunte aos homens que chamam as mulheres de "vítimas sociais", porque são frouxos. Pobres diabos: mulher não gosta de covarde, mesmo que seja covarde em nome dos "direitos femininos".
A segunda pergunta (o que é mais importante numa mulher, a inteligência ou a beleza?) é fácil: a beleza vem em primeiro lugar, nunca a inteligência. Quando um homem disser pra você que ele prefere mulheres inteligentes, ele quer te pegar. Ou, pior, ele tem medo do patrulhamento das feias e das chatas, que no Brasil, graças às deusas, não crescem em número porque as mulheres brasileiras são como dizem os franceses "femmes aux hommes" (mulheres para os homens).
Por que é necessário ter coragem pra dizer que a inteligência feminina não é erotizada pelos homens? Ora bolas, porque atualmente falar para as mulheres que inteligência vale mais do que a beleza é um "dever de todo cidadão".
Uma mulher poderá fazer uma queixa contra você na delegacia da mulher caso você não diga para ela que inteligência numa mulher é fundamental. Não se engane: inteligência nunca é fundamental. Mas, não exagere para o outro lado: as burrinhas enchem o saco depois de duas horas de sexo.
Quanto à primeira questão (os homens têm medo de mulheres inteligentes?), a resposta é simples: sim, sempre; só os mentirosos e medrosos negam este fato. Melhor dizendo, o homem sempre tem medo da mulher, principalmente quando está interessado nela.
Segundo os darwinistas, esta seria uma característica atávica, desde a savana africana. Medo da infidelidade, medo da impotência, medo do ridículo.
Mas há sutilezas nisso tudo. O homem prefere a beleza, mas num relacionamento de longo investimento, outras característica pesam, às vezes, mais do que a beleza pura e simples. Por exemplo, evidências de que ela seja fiel, boa mãe para seus futuros filhos, generosa, doce (coisa rara em mulheres excessivamente competitivas, como é comum em cidades do tipo São Paulo, mas menos comum em outras regiões, como Minas Gerais ou Nordeste onde elas são mais "sorridentes").
Beleza demais pode dar medo quando ela é sua mulher. Garanhões costumam rondar mulheres bonitas demais. Se você só quer "pousar de poderoso" com uma gostosa, tudo bem, mas se quiser viver com ela, aí a coisa pega. Para pilotar um Boeing você tem que ser competente em muita coisa, e nem sempre dá, num cenário violento e volátil como o mundo contemporâneo, onde as mulheres têm mais opção de escolha afetiva e profissional.
Por que, muitas vezes, é tão difícil para as mulheres aceitarem que a inteligência numa mulher não seja essencial? Porque, ao contrário dos homens (esses seres primitivos, insensíveis e promíscuos... risadas...), as mulheres erotizam a inteligência no homem, às vezes, mais do que a beleza pura e simples.
Eu arriscaria dizer que a inteligência quando associada à coragem (virilidade) pode ser um afrodisíaco imbatível para as mulheres numa noite de calor.
Resumo da ópera: a inteligência numa mulher é um risco interno à relação porque o homem pode se sentir "menor" do que ela.
Já a beleza feminina é sempre um risco externo porque o cara sente medo de perdê-la porque sabe como os outros caras pensam.
Já a inteligência num homem nunca é um risco interno à relação porque as mulheres dão nó em qualquer homem. Mas, é sempre um risco externo porque as mulheres sabem como suas parceiras pensam: se, além da inteligência, o cara tiver "atitude" (a soma disso dá em charme), aí, meu bem, se prepare para a cobiça de suas amigas.
A experiência que eu tenho lhe dá razão... (Cecília)
Thursday, February 10, 2011
Escrevendo simplesmente...
Bem-estar presente (a que devo)
Um lexapro... e mais meio
Grupo de amigos
Duas amigas mais íntimas
Filhos de longe dando força
Duas cachorrinhas a fazer companhia
Um objetivo alcançado,
outros ao seu tempo definidos
Olhar, portanto, à frente
e mais importante:
reconhecimento do bem–estar presente
Um pensamento amoroso
( não mais que isso para não perturbar a mente)
Vontade de escrever, criar, aprender
Amor às meninas
Regozijo pela volta do amigo,
Movimento
Esforço para vencer meus medos
Propósito de viver cada dia plenamente
do alvorecer ao anoitecer
... e de aprender com a noite
que iluminamos para prorrogar o dia,
mas que é perfeita em si mesma,
favorecendo a contemplação, o descanso
e uma certa inquietação de alma,
necessária para nos reconhecermos únicos,
donos das nossas vivências, emoções e pensamentos.
Valorização do tempo
(com ele, passamos, como os que nos antecederam),
evitando frustração, se não vejo na vida maior sentido...
Cecília (09-02-11)
Um lexapro... e mais meio
Grupo de amigos
Duas amigas mais íntimas
Filhos de longe dando força
Duas cachorrinhas a fazer companhia
Um objetivo alcançado,
outros ao seu tempo definidos
Olhar, portanto, à frente
e mais importante:
reconhecimento do bem–estar presente
Um pensamento amoroso
( não mais que isso para não perturbar a mente)
Vontade de escrever, criar, aprender
Amor às meninas
Regozijo pela volta do amigo,
Movimento
Esforço para vencer meus medos
Propósito de viver cada dia plenamente
do alvorecer ao anoitecer
... e de aprender com a noite
que iluminamos para prorrogar o dia,
mas que é perfeita em si mesma,
favorecendo a contemplação, o descanso
e uma certa inquietação de alma,
necessária para nos reconhecermos únicos,
donos das nossas vivências, emoções e pensamentos.
Valorização do tempo
(com ele, passamos, como os que nos antecederam),
evitando frustração, se não vejo na vida maior sentido...
Cecília (09-02-11)
Thursday, February 03, 2011
Friday, January 07, 2011
Pequeno mundo
Na imensidão de tudo o que existe
um pequeno ser se move
num espaço também mínimo.
É um ponto quase invisível
feito de intensidade, contradições,
deslumbramentos e medos,
descobertas, reformulações e criações.
Ciente de sua transitoriedade,
tenta deixar marcas de sua passagem.
Para isso procura se superar,
deixar descendência,
fazer brilhar a sua luz,
propagar energia,
que tira da alma, da inteligência e do corpo que as abriga...
Olhando para si, se percebe um mundo
tão complexo como o outro maior em que vive,
sendo dele quase o reflexo ...
E então se conforma com a brevidade da sua existência,
com a essência transitória de todas as coisas...
E passa... levando consigo
... um obstinado flerte com a eternidade...
Cecília
um pequeno ser se move
num espaço também mínimo.
É um ponto quase invisível
feito de intensidade, contradições,
deslumbramentos e medos,
descobertas, reformulações e criações.
Ciente de sua transitoriedade,
tenta deixar marcas de sua passagem.
Para isso procura se superar,
deixar descendência,
fazer brilhar a sua luz,
propagar energia,
que tira da alma, da inteligência e do corpo que as abriga...
Olhando para si, se percebe um mundo
tão complexo como o outro maior em que vive,
sendo dele quase o reflexo ...
E então se conforma com a brevidade da sua existência,
com a essência transitória de todas as coisas...
E passa... levando consigo
... um obstinado flerte com a eternidade...
Cecília
Wednesday, December 15, 2010
Susto
De amar e não ser amada
De deixar a vida passar em branco
De nada realizar
De ser diferente
Ter um destino diferente
E não aceitá-lo,
Não compreendê-lo
Medo
De ser deixada às traças
De a ninguém agradar
De ficar só
Eternamente
De me sentir tão só
Que a minha dor pareça única, total, incurável,
Incomunicável
Medo,
Que me faz seguir caminhos que não quero
Que parece não me deixar escolha
A não ser fingir ser outra pessoa
Mais aberta, mais solta
Mais firme em suas escolhas,
Tudo entendendo:
O que passou, o que se passa agora;
Dona do futuro, da própria vida,
um ser livre, em paz, vivendo conscientemente...
Cecília
Para tantas pessoas, frágeis em sua humanidade...
15-06-09
De amar e não ser amada
De deixar a vida passar em branco
De nada realizar
De ser diferente
Ter um destino diferente
E não aceitá-lo,
Não compreendê-lo
Medo
De ser deixada às traças
De a ninguém agradar
De ficar só
Eternamente
De me sentir tão só
Que a minha dor pareça única, total, incurável,
Incomunicável
Medo,
Que me faz seguir caminhos que não quero
Que parece não me deixar escolha
A não ser fingir ser outra pessoa
Mais aberta, mais solta
Mais firme em suas escolhas,
Tudo entendendo:
O que passou, o que se passa agora;
Dona do futuro, da própria vida,
um ser livre, em paz, vivendo conscientemente...
Cecília
Para tantas pessoas, frágeis em sua humanidade...
15-06-09
Sunday, December 12, 2010
Gênesis
Fernanda Torres
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Mann criou segunda Bíblia para entender a primeira, enquanto Robert Crumb idolatra as mulheres
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O FUNDO do poço já rendeu uma canção belíssima de Caetano Veloso, mas, de todas as obras baseadas em narrativas bíblicas, nenhuma alcança a profundidade de "José e Seus Irmãos".
A saga da família de Jacó, narrada de maneira seca e objetiva no livro sagrado, se transforma, nas mãos do alemão Thomas Mann, em três volumes fartos e detalhados a respeito dos sentimentos de pastores do Crescente Fértil e de faraós do Egito.
"José e Seus Irmãos" abre os trabalhos com uma parábola a respeito do milagre da encarnação e de como a força amalgamadora do amor uniu a carne ao espírito.
Mann, fiel ao prólogo, faz do amor o norte de sua criação, seja na paixão de Jacó por Raquel, que o leva a 14 anos de servidão a Labão, seja na predileção de Jacó por José, primogênito tardio de Raquel, ou na inveja dos irmãos de José, filhos das outras mulheres de Jacó.
Mann segue rigidamente o argumento sagrado, enquanto preenche de alma a carne enxuta das escrituras. As razões íntimas dos personagens, inexistentes no original, desabrocham na sua releitura, é de enlouquecer de tão belo. "José e Seus Irmãos" é leitura obrigatória, uma segunda Bíblia para entender a primeira.
Recentemente, dei cabo do "Gênesis" do artista americano Robert Crumb. Crumb, ao contrário de Mann, não acrescenta nem uma vírgula ao texto bíblico; é através da volúpia de seus traços que a carnalidade da obra se revela ao leitor.
As coxas grossas, as bundas duras e os bicos tesos dos peitos fartos de Crumb parecem ter nascido para ilustrar a ânsia dos hebreus de fazer valer as palavras de Deus: crescei e multiplicai-vos!
Os homens se deitam como touros com suas esposas, concubinas e escravas; para a atingir o mesmo fim, as mulheres se valem das mais impensáveis artimanhas. Um bom exemplo é o das duas filhas de Ló, sobreviventes de Sodoma e Gomorra, que embriagam o próprio pai e emprenham do progenitor para servir aos desígnios de Deus. Que mal há no incesto diante da ordem suprema de fundar uma nação populosa? O resultado é uma fornicação furiosa que faria ruborizar a mais liberta das devassas e deliciar o mais blasfemo dos cartunistas.
Crumb idolatra as mulheres. Se o amor foi o ponto de partida de Mann, o matriarcado velado da Bíblia foi a pedra fundamental da obra de Crumb. O americano se serviu de um livro chamado "Sarah, the Priestness", de Sevina Teubal, para compreender passagens obscuras para a moral de um ocidental hoje.
Como explicar que o nômade Abraão ofereça a própria mulher aos chefes poderosos de cada cidade que visite, dizendo se tratar de sua irmã? Seria Abraão o primeiro cafetão da história? E como entender o comportamento de Tamar, viúva de Er, filho de Judá, que, ao não ser dada como mulher ao cunhado, se vestiu de prostituta para ser possuída pelo sogro? A resposta estaria, segundo Sevina, em resquícios de um matriarcado ainda latente 3.000 anos antes de Cristo.
Talvez a crença de que o matriarcado seria uma versão mais humana do belicoso patriarcado tenha fundamento. Pode ser que a ideia de posse não fosse tão importante em uma sociedade dominada pelas mulheres. Depois de tantos anos de vitória masculina, é difícil projetar o que teria sido feito de nós se o matriarcado tivesse vingado.
Minhas ilusões a respeito da doce dominação feminina foram por água abaixo no dia em que assisti a um documentário sobre o comportamento das hienas. As fêmeas são o sexo forte nessa sociedade animal. A brutalidade e a feroz virilidade masculina cedem seu posto a uma hierarquia libidinosa, baseada em dominação por servidão lingual. As mais fortes tem a genitália lambida pelas mais fracas, até chegar a uma pobre hiena que satisfaz a todas e não é satisfeita por ninguém.
Dá o que pensar... Seríamos nós mais sensuais se as sacerdotisas da fertilidade estivessem no poder?
As taras de Crumb, sua devoção às curvas apetitosas das filhas de Eva, produziram a mais feminista das interpretações do Gênesis. Senti falta da delicadeza de Mann no trecho final de "José", mas devorei com volúpia as liberdades das Saras, Rebecas, Tâmaras, Lias e Raquéis.
Aconselho ler a Bíblia com o auxílio luxuoso de Crumb e Mann. A mulher e o homem. A carne e o espírito.
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Mann criou segunda Bíblia para entender a primeira, enquanto Robert Crumb idolatra as mulheres
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O FUNDO do poço já rendeu uma canção belíssima de Caetano Veloso, mas, de todas as obras baseadas em narrativas bíblicas, nenhuma alcança a profundidade de "José e Seus Irmãos".
A saga da família de Jacó, narrada de maneira seca e objetiva no livro sagrado, se transforma, nas mãos do alemão Thomas Mann, em três volumes fartos e detalhados a respeito dos sentimentos de pastores do Crescente Fértil e de faraós do Egito.
"José e Seus Irmãos" abre os trabalhos com uma parábola a respeito do milagre da encarnação e de como a força amalgamadora do amor uniu a carne ao espírito.
Mann, fiel ao prólogo, faz do amor o norte de sua criação, seja na paixão de Jacó por Raquel, que o leva a 14 anos de servidão a Labão, seja na predileção de Jacó por José, primogênito tardio de Raquel, ou na inveja dos irmãos de José, filhos das outras mulheres de Jacó.
Mann segue rigidamente o argumento sagrado, enquanto preenche de alma a carne enxuta das escrituras. As razões íntimas dos personagens, inexistentes no original, desabrocham na sua releitura, é de enlouquecer de tão belo. "José e Seus Irmãos" é leitura obrigatória, uma segunda Bíblia para entender a primeira.
Recentemente, dei cabo do "Gênesis" do artista americano Robert Crumb. Crumb, ao contrário de Mann, não acrescenta nem uma vírgula ao texto bíblico; é através da volúpia de seus traços que a carnalidade da obra se revela ao leitor.
As coxas grossas, as bundas duras e os bicos tesos dos peitos fartos de Crumb parecem ter nascido para ilustrar a ânsia dos hebreus de fazer valer as palavras de Deus: crescei e multiplicai-vos!
Os homens se deitam como touros com suas esposas, concubinas e escravas; para a atingir o mesmo fim, as mulheres se valem das mais impensáveis artimanhas. Um bom exemplo é o das duas filhas de Ló, sobreviventes de Sodoma e Gomorra, que embriagam o próprio pai e emprenham do progenitor para servir aos desígnios de Deus. Que mal há no incesto diante da ordem suprema de fundar uma nação populosa? O resultado é uma fornicação furiosa que faria ruborizar a mais liberta das devassas e deliciar o mais blasfemo dos cartunistas.
Crumb idolatra as mulheres. Se o amor foi o ponto de partida de Mann, o matriarcado velado da Bíblia foi a pedra fundamental da obra de Crumb. O americano se serviu de um livro chamado "Sarah, the Priestness", de Sevina Teubal, para compreender passagens obscuras para a moral de um ocidental hoje.
Como explicar que o nômade Abraão ofereça a própria mulher aos chefes poderosos de cada cidade que visite, dizendo se tratar de sua irmã? Seria Abraão o primeiro cafetão da história? E como entender o comportamento de Tamar, viúva de Er, filho de Judá, que, ao não ser dada como mulher ao cunhado, se vestiu de prostituta para ser possuída pelo sogro? A resposta estaria, segundo Sevina, em resquícios de um matriarcado ainda latente 3.000 anos antes de Cristo.
Talvez a crença de que o matriarcado seria uma versão mais humana do belicoso patriarcado tenha fundamento. Pode ser que a ideia de posse não fosse tão importante em uma sociedade dominada pelas mulheres. Depois de tantos anos de vitória masculina, é difícil projetar o que teria sido feito de nós se o matriarcado tivesse vingado.
Minhas ilusões a respeito da doce dominação feminina foram por água abaixo no dia em que assisti a um documentário sobre o comportamento das hienas. As fêmeas são o sexo forte nessa sociedade animal. A brutalidade e a feroz virilidade masculina cedem seu posto a uma hierarquia libidinosa, baseada em dominação por servidão lingual. As mais fortes tem a genitália lambida pelas mais fracas, até chegar a uma pobre hiena que satisfaz a todas e não é satisfeita por ninguém.
Dá o que pensar... Seríamos nós mais sensuais se as sacerdotisas da fertilidade estivessem no poder?
As taras de Crumb, sua devoção às curvas apetitosas das filhas de Eva, produziram a mais feminista das interpretações do Gênesis. Senti falta da delicadeza de Mann no trecho final de "José", mas devorei com volúpia as liberdades das Saras, Rebecas, Tâmaras, Lias e Raquéis.
Aconselho ler a Bíblia com o auxílio luxuoso de Crumb e Mann. A mulher e o homem. A carne e o espírito.
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Saturday, December 04, 2010
“Encontro doméstico”
A pequena lagartixa me encara, assustada.
Não me conhece.
Não sabe que não sou de nada,
que não faria mal a uma barata.
Antes, a olho com pena, pensando:
Poderia ser o inverso: eu lagartixa,
e ela este ser grande pensante.
Será que ela pensa?
Parece que sim, pois permanece
me encarando paralisada.
Eu, que tantas vezes me senti assim acuada,
tento ajudá-la a partir:
abro-lhe a janela, mas ela não sai...
Lá fora está frio, é noite.
Por mim, tudo bem,
desde que não invada meu espaço...
Pobrezinha, tão branca!
Parece até transparente.
Volto a pensar:
se fosse eu, assim tão frágil,
que desgraça!
Agora apago a luz, esperando que ela parta.
Acendo-a de novo e nada...
Então, tendo que sair,
deixo-a ali mesmo, no alumínio grudada
E tchau
Boa noite, boa sorte.
E até outra hora.
Mas recomendo aos que ficam,
que não a maltratem
Como é fácil comigo fazer amizade!...
Será que estou ficando louca?
Ou vazia de emoção é a minha vida?
Daqui a pouco estarei fazendo verso pra baratas!!!
Cecília
Não me conhece.
Não sabe que não sou de nada,
que não faria mal a uma barata.
Antes, a olho com pena, pensando:
Poderia ser o inverso: eu lagartixa,
e ela este ser grande pensante.
Será que ela pensa?
Parece que sim, pois permanece
me encarando paralisada.
Eu, que tantas vezes me senti assim acuada,
tento ajudá-la a partir:
abro-lhe a janela, mas ela não sai...
Lá fora está frio, é noite.
Por mim, tudo bem,
desde que não invada meu espaço...
Pobrezinha, tão branca!
Parece até transparente.
Volto a pensar:
se fosse eu, assim tão frágil,
que desgraça!
Agora apago a luz, esperando que ela parta.
Acendo-a de novo e nada...
Então, tendo que sair,
deixo-a ali mesmo, no alumínio grudada
E tchau
Boa noite, boa sorte.
E até outra hora.
Mas recomendo aos que ficam,
que não a maltratem
Como é fácil comigo fazer amizade!...
Será que estou ficando louca?
Ou vazia de emoção é a minha vida?
Daqui a pouco estarei fazendo verso pra baratas!!!
Cecília
Friday, November 19, 2010
Escolhas
Silêncio
Que dá margem a interpretações diferentes
Cômodo, esperto, um jeito de ganhar tempo
Fugir da raia
Ou conservar em banho-maria o sentimento
Mas há que se ter cuidado com o contrário:
Indiferença tomando espaço
Ou emoção como a raiva efervescendo
Melhor acreditar na transparência...
Cartas na mesa
Uma a uma vou abrindo
Conhecendo teus pensamentos e segredos
Jogamos limpo:
Dos meus também terás conhecimento
Neste jogo vence o mais leal,
quem menos medo tiver de mostrar as suas cartas
Direito à desistência e prêmio à coragem:
Exposição requer bravura e sinceridade
Caminhos alternativos
Nos perdemos em curvas, estradas secundárias
Não vamos direto a nenhum assunto
E a vida se mostra cada vez mais complicada...
Cecília
Que dá margem a interpretações diferentes
Cômodo, esperto, um jeito de ganhar tempo
Fugir da raia
Ou conservar em banho-maria o sentimento
Mas há que se ter cuidado com o contrário:
Indiferença tomando espaço
Ou emoção como a raiva efervescendo
Melhor acreditar na transparência...
Cartas na mesa
Uma a uma vou abrindo
Conhecendo teus pensamentos e segredos
Jogamos limpo:
Dos meus também terás conhecimento
Neste jogo vence o mais leal,
quem menos medo tiver de mostrar as suas cartas
Direito à desistência e prêmio à coragem:
Exposição requer bravura e sinceridade
Caminhos alternativos
Nos perdemos em curvas, estradas secundárias
Não vamos direto a nenhum assunto
E a vida se mostra cada vez mais complicada...
Cecília
Thursday, November 18, 2010
Para nós que fazemos bom uso da Internet
CARLOS HEITOR CONY
Amor virtual
RIO DE JANEIRO - Recém chegado ao universo virtual, tenho sentimentos contraditórios a respeito da nova linguagem que, aparentemente, e até aqui, está unindo homens e mulheres, velhos e crianças, doentes e sadios numa humanidade especifica, que, por não ter existido antes, agora está sendo testada.
Ouve-se falar em abusos de sexo e pornografia, de pedofilia e outras taras que encontraram um espaço surpreendente na telinha. Telinha que, por bem ou por mal, está substituindo o livro, o jornal e a própria TV, uma vez que pode condensar tudo isso num pequeno e cada vez menor retângulo iluminado.
Assim como não me atrai a pizza que a gente encomenda, paga com cartão, mas recebe fria, o sexo virtual não me deslumbra suficientemente para me dedicar a ele. Prefiro o sexo em sua tradicional versão off-line.
Contudo, sou obrigado a reconhecer a eficiência da comunicação eletrônica, notadamente o e-mail, naquilo que antigamente os caretas chamavam de paquera e hoje tem outros nomes.
Pois o que acontece comigo -e deve acontecer com todo mundo- é a assombrosa capacidade do relacionamento virtual, que, entre mortos e feridos, sempre dá para pescar uma alma solitária, ou mesmo -levando ao limite- aquelas que se intitulam "coração em chamas", colocando-se adredes para receber o jato salvador que as inunda de salvação.
Um homem terminal, não por gosto, mas por contingência histórica, já não teria esperança e muito menos direito de manter certo tipo de diálogo com a geração que anda pelos vinte e tantos anos. No início, estranhei este tipo de diálogo/envolvimento, recusei alguns, pedindo que tomassem juízo.
Que eu próprio tivesse juízo. Mas começo a me habituar. E, um pouco envergonhado, admito que estou gostando.
Amor virtual
RIO DE JANEIRO - Recém chegado ao universo virtual, tenho sentimentos contraditórios a respeito da nova linguagem que, aparentemente, e até aqui, está unindo homens e mulheres, velhos e crianças, doentes e sadios numa humanidade especifica, que, por não ter existido antes, agora está sendo testada.
Ouve-se falar em abusos de sexo e pornografia, de pedofilia e outras taras que encontraram um espaço surpreendente na telinha. Telinha que, por bem ou por mal, está substituindo o livro, o jornal e a própria TV, uma vez que pode condensar tudo isso num pequeno e cada vez menor retângulo iluminado.
Assim como não me atrai a pizza que a gente encomenda, paga com cartão, mas recebe fria, o sexo virtual não me deslumbra suficientemente para me dedicar a ele. Prefiro o sexo em sua tradicional versão off-line.
Contudo, sou obrigado a reconhecer a eficiência da comunicação eletrônica, notadamente o e-mail, naquilo que antigamente os caretas chamavam de paquera e hoje tem outros nomes.
Pois o que acontece comigo -e deve acontecer com todo mundo- é a assombrosa capacidade do relacionamento virtual, que, entre mortos e feridos, sempre dá para pescar uma alma solitária, ou mesmo -levando ao limite- aquelas que se intitulam "coração em chamas", colocando-se adredes para receber o jato salvador que as inunda de salvação.
Um homem terminal, não por gosto, mas por contingência histórica, já não teria esperança e muito menos direito de manter certo tipo de diálogo com a geração que anda pelos vinte e tantos anos. No início, estranhei este tipo de diálogo/envolvimento, recusei alguns, pedindo que tomassem juízo.
Que eu próprio tivesse juízo. Mas começo a me habituar. E, um pouco envergonhado, admito que estou gostando.
Wednesday, November 17, 2010
Cômico? Triste? Espelho de nossos dias
FERNANDO DE BARROS E SILVA
Geisy na roda
SÃO PAULO - Levou um ano para que a roda da fortuna desse a volta completa no caso Geisy Arruda.
No final de outubro de 2009, ela foi alvo do acesso de fúria dos colegas. Teve que ser retirada da Uniban escoltada, sob humilhações e ameaças de estupro. O vestidinho, as alegações machistas de que a jovem se insinuava -tudo serviu de pretexto para respaldar a barbárie. A universidade decidiu expulsá-la, em nome do "ambiente escolar".
Estava anunciado para ontem o lançamento de "Vestida para Causar", uma biografia precoce de Geisy, 21 anos. Seu produto mais falado, no entanto, é o ensaio de capa para a revista "Sexy", que vai batendo recordes de vendas.
Com o sucesso, Geisy se vinga da sociedade (e da universidade) que a ultrajou; a sociedade, por sua vez, usa o sucesso de Geisy como oportunidade para reafirmar preconceitos que tinha desde o início sobre ela -e assim também se vinga.
Humilhação social e ascensão social não são antagônicos, mas estão misturados e submetidos à mesma lógica fulminante neste caso. Geisy parece protagonizar uma espécie de reality show na vida real.
"Passei sete dias de cama, uma dor horrível, mas para a minha autoestima foi bom, como eu te disse, minha proposta de vida é evoluir", disse ela, ao relembrar da lipoaspiração que fez em fevereiro, numa entrevista a "O Estado de S. Paulo".
A conversão da jovem da periferia em celebridade segue um roteiro bem conhecido: fazer plástica (mais peito, menos barriga), ser destaque no Carnaval, participar de programas de auditório, lançar sua grife, enfim posar nua. Geisy completou o ciclo, que lembra menos a roda da fortuna do que a roda-viva.
Como quem intui que essa fantasia cobra um preço alto demais e pode evaporar num estalo, ela diz:
"Hoje mesmo fui atrás de um tapete de Cinderela, já tenho copos de Cinderela, lençol, toalha, meu quarto na casa nova vai ser todo de Cinderela -porque eu sou a Cinderela, você sabe, não é?".
Geisy na roda
SÃO PAULO - Levou um ano para que a roda da fortuna desse a volta completa no caso Geisy Arruda.
No final de outubro de 2009, ela foi alvo do acesso de fúria dos colegas. Teve que ser retirada da Uniban escoltada, sob humilhações e ameaças de estupro. O vestidinho, as alegações machistas de que a jovem se insinuava -tudo serviu de pretexto para respaldar a barbárie. A universidade decidiu expulsá-la, em nome do "ambiente escolar".
Estava anunciado para ontem o lançamento de "Vestida para Causar", uma biografia precoce de Geisy, 21 anos. Seu produto mais falado, no entanto, é o ensaio de capa para a revista "Sexy", que vai batendo recordes de vendas.
Com o sucesso, Geisy se vinga da sociedade (e da universidade) que a ultrajou; a sociedade, por sua vez, usa o sucesso de Geisy como oportunidade para reafirmar preconceitos que tinha desde o início sobre ela -e assim também se vinga.
Humilhação social e ascensão social não são antagônicos, mas estão misturados e submetidos à mesma lógica fulminante neste caso. Geisy parece protagonizar uma espécie de reality show na vida real.
"Passei sete dias de cama, uma dor horrível, mas para a minha autoestima foi bom, como eu te disse, minha proposta de vida é evoluir", disse ela, ao relembrar da lipoaspiração que fez em fevereiro, numa entrevista a "O Estado de S. Paulo".
A conversão da jovem da periferia em celebridade segue um roteiro bem conhecido: fazer plástica (mais peito, menos barriga), ser destaque no Carnaval, participar de programas de auditório, lançar sua grife, enfim posar nua. Geisy completou o ciclo, que lembra menos a roda da fortuna do que a roda-viva.
Como quem intui que essa fantasia cobra um preço alto demais e pode evaporar num estalo, ela diz:
"Hoje mesmo fui atrás de um tapete de Cinderela, já tenho copos de Cinderela, lençol, toalha, meu quarto na casa nova vai ser todo de Cinderela -porque eu sou a Cinderela, você sabe, não é?".
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