Saturday, July 12, 2008

Doutor Rodrigo

Rodrigo Leal Rodrigues
14/04/1926
24/12/2004


Tenho, para mim, que tudo começou naquele sábado de manhã, 21 de agosto de 1999. Era o dia em que eu iria almoçar em Ibiúna, que fica a uns 50 quilômetros de São Paulo, no sítio de um querido amigo, que fazia 81 anos. Acordei nessa manhã com uma tremenda falta de ar. Desmarquei o almoço e telefonei para o Manuel Lopes dos Santos que, além de ser um notável médico, é um dos meus grandes amigos. Como um irmão. Aguardou-me no Pronto Socorro do Hospital São Paulo. Ele fora, naqueles tempos, o primeiro reitor da Universidade Federal de São Paulo, a que pertence o Hospital. Após os primeiros exames, achou melhor que eu me internasse. Pedi ao Manuel que me levasse para o Hospital da Beneficência Portuguesa, do qual sou sócio.
O espetáculo de um Pronto Socorro de um grande Hospital não é coisa boa para ser lembrada. Os olhos, os ouvidos, todos os sentidos, irão guardar, para o resto da vida, essa lembrança de horror. Depois de muita dificuldade, e com a ajuda de um diretor amigo, consegui que me tirassem do Pronto Socorro. Entretanto, não ainda para o quarto a que tinha direito. Levaram-me para a UTI do professor Sérgio de Oliveira, um dos maiores nomes no mundo em cirurgia de coração. Sorte minha, pois foi exatamente naquele lugar que um violento e fulminante enfarte havia marcado encontro comigo. Parecia ter ficado morto por quase cinco minutos, quando ouvi uma voz distante:
- “Ele está voltando!”
-“ Segura ele!”, dizia outra voz.
Iria ser posto, mais tarde, a par da realidade da minha situação: soube que o enfarte havia necrosado 57% do meu coração e que eu teria que aguardar na UTI, até ter condições de ser operado. Foram praticamente dois meses de espera, quando o professor Sérgio de Oliveira “embrulhou” o que restava do meu coração com várias pontes de safena.
Conta-se que a convalescença duma operação de coração é muito difícil. Há uma imensa depressão e até crises de choro. Meu filho leu em algum lugar que, na Alemanha, os médicos recomendavam a companhia de um cão, que transmitisse ao paciente a sua energia vital. Foi por isso que o “Senhor” Joe Black entrou na minha vida. Um cão labrador, com dois meses de idade, e que, desde então, tem sido o companheiro de todos os instantes. Chega a dormir na minha cama, deitado com a cabeçorra em cima de minhas pernas. No escritório, fica deitado ao meu lado, olhando para mim feito gente. Incorporou-se à família. Talvez deva a ele o fato de nunca ter entrado em depressão, nem haver chorado.
Uns meses antes do ataque do coração, acordei numa manhã com um imenso volume na área genital. Corri para o Hospital, onde disse-me o médico José Carlos Campos Velho:
- “Coisinha à toa, sem importância. Um pelo encravado, coisa e tal.”
Receitou-me um antibiótico e eu voltei para casa com aquele imenso incômodo no meio das pernas. Já passava da meia-noite, quando tocou o telefone:
- “É o Dr. Campos Velho! Vá já para o Hospital, porque o que você tem é a chamada Síndrome de Fournier.”.
Como jamais ouvira falar de tal doença, só fui ao Hospital no dia seguinte. Estava lá um outro médico, infectologista, o Dr. Barata. Sisudo e solene demais para meu gosto.
- “Se é caso de antibiótico, posso tomar em casa”, disse-lhe.
Respondeu-me o Dr. Barata, com aquela cara triste que Deus lhe deu:
- “Já terá muita sorte se não sair do quarto para o velório da Beneficência”.
Foi quando me explicaram o que era a doença de Fournier: uma infecção altamente letal e perigosa que, se não for atacada a tempo, significa septicemia, gangrena e morte. Mais que depressa, corri para o quarto, antibiótico na veia, tirando sangue para análise de 02 em 02 horas. À espera duma palavra que significasse esperança e vida, ou a morte.
Depois de umas 12 horas, entrou o Campos Velho no quarto, olhou-me a barriga (quando a infecção se propaga, ela fica azul escura) e falou:
“- Começou a baixar”.
Foram longas horas de ansiedade que, somadas ao enfarte, aos meses de UTI e à operação que me deixou com apenas 43% do coração, talvez tenham sido a origem do que aconteceria depois.
Em 1988, de repente, reparei que demorava muito tempo para urinar. Não era natural tanta lerdeza. Procurei o Prof. Sami Arap que, após vários exames, descobriu que eu estava com pólipos na bexiga e que precisava ser operado.
Lembro que o movimento literário Távola Redonda (do qual eu fizera parte) estava celebrando 40 anos e eu havia decidido, com a ajuda do José Blanco, administrador da Fundação Calouste Gulbenkina, celebrar aquela data em São Paulo. Vieram de Portugal, entre outros, a Fernanda Botelho, o David Mourão-Ferreira, o António Manuel Couto Viana, mais o professor Jayme Ferreira Bueno, da Universidade de Curitiba, cuja tese de doutoramento havia sido sobre o Movimento da Távola Redonda. Foi um acontecimento e tanto nos meios culturais de São Paulo. Além do “Encontro” propriamente dito, o David e o António Manuel ainda deram aulas em várias Faculdades e divulgaram a poesia do Movimento.
Quanto a mim, mal tive tempo de inaugurar o “Encontro” e corri para o Hospital Sírio Libanês, onde o professor Sami Arap já estava pronto para remover os tais “pólipos”. A partir dalí comecei a fazer, a cada seis meses, uma ultra-sonografia. Ano atrás de ano.
Há palavras que são piores que os piores palavrões. Que o povo evita dizer. Que em casa não se escutam. Querem um exemplo?
- “De que morreu Fulano de Tal?”
Silêncio. Só depois é que vem a resposta:
- “De uma doença que não perdoa”.
Ou:
-“De uma doença prolongada.”
Em Portugal, a palavra é CÂNCRO. No Brasil é CÂNCER. São exemplos de palavras que soam pior que o pior palavrão.
Conheço casos que dizem bem do horror da doença, desde aquele médico de Casa Branca que, informado da doença, pura e simplesmente meteu um revólver na boca e puxou o gatilho. Outro a quem o médico mandou fazer exames de sangue, entre eles um para pesquisar indícios de câncer. Coisa de rotina médica. Cismado, foi para casa, alarmou todo mundo e acabou por morrer de câncer, sem nunca ter tido câncer.
Ao longo de minha vida, tenho sido presenteado com grandes dádivas. Por todas elas sou grato a Deus. Os meus amigos são, sem dúvida, uma das maiores dessas dádivas. Têm sido a mão permanente no meu ombro, a garantir-me que não estou só. Têm sido a força, o amparo, o estímulo, o carinho, o amor. Tudo o que um homem precisa para seguir vivendo.
Numa dessas ultra-sonografias, apareceram, novamente, problemas com a bexiga. Mais uma vez, voltei para o carinho e a amizade do Prof. Sami Arap, voltei a operar-me no Hospital Sírio Libanês. À operação, seguiu-se uma coisa chamada imunização, que consiste em jogar vacinas de BCG diretamente na bexiga, durante semanas. Era a esperança de que tudo ficaria por ali. Só que, em novo exame, apareceu um câncer no abdômen. Foi a Prof. Angelita Gama quem, no Hospital da Beneficência, se encarregaria de operar-me. Voltando ao Sami Arap (a essa altura já nos poderíamos até tratar por tu, tamanha era a intimidade) descobriram-se mais três tumores na bexiga.
Começava a estar farto. Eu, a família, os amigos... o Jacob Palma já viera quatro vezes de Portugal para me acompanhar.
Creio que foi a Prof. Angelita Gama que sugeriu que se fizesse uma ressonância magnética, para descanso de todos nós. Qual o quê! Apareceram três tumores no fígado e, dessa vez, foi o Prof. Joaquim Gama Rodrigues quem se encarregou de operar-me.
Não conto os pormenores: anemia, falência renal, perda de sangue, convalescenças difíceis. Tudo somado, daria um livro grande. Entretanto, eu não estou escrevendo este relatório para chamar a atenção para os meus sofrimentos, ou para fazer de mim o mártir que não sou. Nem sequer tenho vocação para tal.
A minha terra, o Ribatejo, província do centro de Portugal, é o único lugar no mundo onde se pratica um desporto conhecido como “pegar touros à unha”. Isso deu ao ribatejanos a fama de homens corajosos, valentes e respeitados.
Hoje, eu acho que, além da valentia, praticar tal desporto exige uma imensa dose de loucura.
Há muitos anos, estava eu na minha juventude e na inconseqüência que era a vida naquele tempo. Morava sozinho em Lisboa, onde estava estudando. Por lá havia um grupo que deslumbrava a nós todos: o Grupo de Forcados Amadores de Santarém e que era chefiado pelo Fernando Mascarenhas, o seu Cabo e o maior pegador de touros de Portugal. Ele adorava a corte e a admiração dos jovens à sua volta. Um dia perguntei-lhe:
- “Qual a melhor maneira de se pegar um touro”?
- “Do jeito que ele vier”, respondeu e virou-me as costas.
Passaram-se muitos anos. Mais de cinquenta. O Fernando Mascarenhas, que era o Marquês da Fronteira, iria morrer mais tarde, estupidamente, apostando corrida de automóveis em Madrid.
Um dia, mais de 50 anos depois, estava eu em Évora, assistindo ao casamento da Tijuca com Carlos Grave que, por curiosa coincidência, era o Cabo do mesmo Grupo de Forcados Amadores de Santarém. Fiz-lhe a mesma pergunta:
- “Ó Carlos, qual é a melhor maneira de se pegar um touro”?
- “Ó tio, é do jeito que ele vier”!
A mesma resposta que ouvira, tantos anos lá para trás.
Se eu fosse médico e um paciente um dia me perguntasse qual a melhor forma para se enfrentar um câncer, eu simplesmente também iria responder:
- “Do jeito que ele vier”!
Câncer! Câncer! Câncer!
Há que não se ter medo da palavra, nem pena de si mesmo. Há que o descobrir o mais cedo possível e não desanimar. Hoje, a ciência médica tem muitos novos meios para enfrentar o câncer, o que não havia antigamente. Se somar a esse fato a certeza de que o vai vencer, porque a fé que tem dentro de si é maior e mais forte que qualquer doença e a confiança na cura lhe dá certeza e força para continuar lutando, isso é meio caminho andado.
Não permita tristeza à sua volta. Dó, então, nem se fala. Se alguém lhe disser que tem muita pena de si, mande-o ter pena da senhora avó, que Deus lá tem.
Nada pior que o olhar, como eu vi num consultório médico, da filha chorando porque a mãe, sentada a seu lado, estava com câncer. Trate-o, estirpe-o, cure-se. O melhor modo de ajudar alguém doente é com amor e alegria. Guardem-se as lágrimas para quando se estiver sozinho, trancado no quarto.
Há alguns anos o meu amigo Luiz Pinto Coelho, pintor famoso e talvez o melhor retratista contemporâneo, telefonou-me de Madrid:
- “Sabes que há dois dias estou urinando sangue”?
Pedi que fosse imediatamente a um bom urologista. Sugeri-lhe que viesse a São Paulo, pois que, fosse o que fosse, encarado no início, iria resolver-se. Telefonou-me dias depois:
- “És um terrorista. Fui aqui a um médico que diagnosticou uma infecção urinária, receitou-me um antibiótico e o sangue sumiu. Estou bem”.
Não adiantaram os conselhos. Ele estava já bom e pronto, dizia.
Um ano se passou. Todas as semanas, normalmente, a gente se falava.
Um dia, veio com a novidade. O sangue na urina voltara. Ordenei-lhe:
- “Toma já um avião e vem para São Paulo, ou vai para os Estados Unidos. Imediatamente”.
Optou pela Clínica Mayo. Foi só lá chegar e o médico começou:
- “Que pena que não tenha vindo há um ano atrás...”
Tudo porque o Luiz não encarara o câncer “do jeito que ele viera”, dando-lhe tempo para correr e espalhar-se.
Ainda fui a Madrid umas quatro vezes para despedir-me dele. Portou-se sempre com imensa dignidade, coragem e lucidez. Pintou até o fim. Morreu há dias.
Hoje, o câncer é simplesmente uma doença como as outras. Não adianta fingir que ele não existe. Há que encará-lo de frente, como na minha terra se encara um touro. E com muita fé, muita confiança e amor dentro de si. O amor é o maior ingrediente capaz de transformar um ser humano. Capaz de fazer de um covarde, um forte. De um canalha, um nobre cheio de dignidade, e de um herege, um santo.
Olhe à sua volta e curta a natureza. Veja as árvores e as folhas caídas no outono e as flores nas árvores cheias da primavera, os ipês e os manacás. E, aconteça o que acontecer, seja grato até o fim. Grato por ter vivido. Ter olhado o que é belo. Acariciado a quem amou. Cheirado as flores e os perfumes espalhados pela vida.
Reparou que mundo maravilhoso é esta coisa simples, o existir?
Só precisa ter fé. E coragem. Até o fim.
E, claro, encarando tudo do jeito que vier.



Rodrigo Leal Rodrigues

Tuesday, July 01, 2008

Desilusão

E a porta continua aberta
a desafiar a coragem de fechá-la,
encerrando mais uma fase da vida.
É triste ver o abandono da casa:
o silêncio pesa, lembranças vagam,
sente-se no ar fantasmas a sussurrar
encanto, permanência e afeto
Paro à porta e sinto a tristeza de um adeus
jamais pronunciado, de sonhos largados,
de um sentimento por outro sobrepujado...
“Paredes brancas, topo de montanha, abrigo”,
assim havíamos idealizado nosso ninho...
“Finito”.
Como tudo na vida.
A assombrar-me a porta aberta,
o medo de a transpor,
de me expor,
ou de cerrá-la para sempre...

Cecília

Sonho e Vida

Vida é sonho
Os meus procuro ansiosamente
- questão de sobrevivência -
Na pressa os perco, os esqueço
E fica um vazio de assustar
Reajo, encontro uma possibilidade,
Nela me agarro, me distraio.
Aos poucos, os outros, vou recuperar...

Cecília

15-05-03

Grito (II)

Emoção pura
Indefinível
de expressão tão difícil
soluço, lágrimas, suspiro
Tudo
e nem assim o alívio...

Emoção forte
Resposta à morte
Vida pulsando
Transbordando
se energizando
em seus olhos
doces olhos...

Emoção
Síntese de outras
ao extremo vividas,
Agora
ultrapassando limites
se traduzindo num grito...

Cecília Quadros

Friday, May 16, 2008

Faces (como me vejo ou sou vista)

Sou fogo de palha
pau para toda obra
sou ombro amigo
-também um nome encurtado-
serei um velho calçado?
Sou espelho
quando crio,
ou escrevo...
Aprendiz de feiticeira
Poeta?
Nunca estou inteira,
onde pareço estar
e nem sei
meu coração interpretar...
Às vezes sou fogo e me apago
Ou água: deixo rolar ou represo
(tudo aparece nos versos)
E sou: o que fica
o que muda, o que "era"
o que tenho que ser,
o que de mim se espera
Não sou mais “eu”
quando me solto,
ou me podo;
quando me gosto,
ou desgosto.
Queria ser,
poder ser,
um livro aberto
mas sou mistério.
Capto e registro
Fases, faces
Inquestionáveis verdades
Mas partes...
Fica o enigma
Do meu inteiro retrato.

Cecília

Receita de amor (!)

Primeiramente há que se ter paixão
excitando os sentidos, fazendo aflorar a sensibilidade
- uma preparação – ou uma primeira fase;
E um sentimento terno, doce, desinteressado,
algo muito próximo da amizade...
Sem esquecer a simpatia, que parece menor, mas é básica;
mais empatia (linguagem própria, às vezes feita só de olhares).
Há também que se ter admiração e respeito,
e que a realidade não seja do sonho o avesso,
mas que convivam e se continuem naturalmente
quase sem perceber do outro a existência...
É também preciso que haja boa vontade,
para se saber lidar com os tropeços,
inevitáveis a testar paciência e generosidade...
Bom-humor é básico, como a coragem,
perseverança e a lealdade...
Se com tudo isso não se viver um grande amor,
é grave: joga-se a receita fora e se põe a culpa
no Imponderável, no Destino... ou na Fatalidade...

Cecília
26-3-2001

Parecia um pássaro

Parecia um pássaro, um frêmito
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.


Marly de Oliveira

Wednesday, May 14, 2008

Epigrama

Bom é ser árvore, vento,
sua grandeza inconsciente;
e não pensar, não temer,
ser apenas: altamente.

Permanecer uno e sempre
só e alheio à própria sorte,
com o mesmo rosto tranqüilo
diante da vida ou da morte.

Marly de Oliveira

Tuesday, May 13, 2008

O poema é fruto de uma inquietação
que no peito parece não caber
de uma vontade incontrolável de escrever
de sentimentos,
que não só o seu criador espelham
pois vêm: do âmago,
da sua essência,
condição humana,
voz da alma se tornando;
sensibilizando
com palavras instintivas,
mas com esmero distribuídas
- substituídas se preciso,
para que sejam verdadeiros
e belos os versos,
cativando,
retendo a emoção
por mais um tempo...

Cecília Quadros

Monday, May 12, 2008

Poetas, buscamos o belo com alma e arte
Pretensão do eterno
Mas um pouco de sobrevivência basta
Tempo, palavra respeitada
Chave
Quase o domina uma obra-prima
Quase
Mas nem essa eternamente nele viaja
E se desgarra

Tempo, tempo meu,
Que vivo com ardor e gravo
Que ficará de mim
- e até quando-
Um verso? Uma página?...

Cecília

Nascimento do poema

É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranqüila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.

Dora Ferreira da Silva

O poema

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida
para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa
condição de poema.
Triste
Solitário
Único
Ferido de mortal beleza.

Mário Quintana

Saturday, May 10, 2008

“As rosas desabrocham
Sob a luz do sol
E a beleza das mulheres,
com o creme Rugol”

São versos ingênuos
perdidos no tempo.
Como negar?
São versos singelos
um tanto piegas
mas fazem chorar.
Saudade da infância,
das rádios tocando
valsas, modinhas e tango...
Era do rádio,
passeios na praça,
igreja lotada
em festas, missas, batizados;
altar principal enfeitado,
crisântemos no mês de maio...
Mãe jovem, morena, bonita,
centro de nossa família
rainha da casa, com gosto arrumada....
Saudade, quanta saudade:
do quintal, pomar, doces caseiros
de canto de pássaros o ano inteiro
do fruto na árvore apanhado
da conversa das comadres
do grupo escolar freqüentado
cães ao longe latindo,
e a gente a vida curtindo;
estrelas e lua, no terraço admiradas
(era alpendre o termo que se usava) ...
Tão simples os hábitos
e minha sensibilidade de criança
tudo guardando, armazenando
para agora virar saudade...

Cecília

para minha mãe muito amada

Espaço

Com fios invisíveis me enlaço,
meu amor amordaço,
não deixo que escape,
pois sei que me é sagrado.
Assim o vejo em essência transformado.

Não divido nada.
Mantenho o meu espaço.
Misturo nele a meu bel prazer
presente e passado.
Fantasio, brinco, escapo
e volto para este mundo murado
por meu coração comandado
cujas portas para poucos entreabro
mesmo assim por tempo limitado.

Bendito espaço
retiro da minha alma
trampolim para seus vôos,
transcendências e viagens.

Cecília

Mãe

Doce, meiga, protetora,
a mais bonita de todas.
Coração brejeiro, porte de rainha,
ídolo da minha vida de menina.
Se foi feliz, eu não sei;
talvez mais quando menina,
no seio de sua família,
cercada dos pais e irmãos.
De lá tirou a coragem,
valores e alegria
amor à música, às artes,
o gosto de ler poesia.
Amava Chopin, Castro Alves,
e Casimiro de Abreu.
Rezava sem exagero,
não impunha fé a ninguém.
Cantava com sentimento,
enquanto de todos cuidava.
Sem tristeza, sem lamentos,
enquanto a vida passava.
De muita coisa não sei:
Só sei que foi muito amada,
o centro de nossa família.
Foi luz, alegria, união.
Acima de tudo foi gente,
exemplo de mãe e de amor

Cecília
O peso deste amor me esmaga.
Às vezes, alma penada,
quero vagar por outros mundos,
outros mares, outros amores;
habitar outros ninhos, viver outras vidas,
não necessariamente mais felizes.
Coração inquieto, coração de poeta.

Cecília

O amor é triste

Sim, poeta, o amor é triste, eu também sei...
Se o vivemos com intensidade, doçura, plenamente,
entre belos sentimentos se insinuam dúvida
- difícil viver felicidade -, e temor de perda
- melhor se resguardar que tudo passa - ...

Sim, o Amor é triste...
Às vezes amamos tanto e nem sabemos,
tão ocupados estamos,
desligados de nossos próprios sentimentos:
temos amor, mas não o vivemos.

É triste o amor...
Nele cremos, por ele ansiamos,
e no entanto às vezes nos parece,
que só aos outros acontece. Será prêmio?
Temos o sonho de amar... apenas...

Coincidência no amor...
Por que tão rara?
Dá para entender a dor quando ele acaba.
E acaba... pois nada é permanente.
Então não somos mais que tristes,
cabisbaixos sobreviventes...

Cecília
Não merecemos nos intitular artistas:
ignoramos o valor daquele brilho em nosso espírito.
Não merecemos nos considerar poetas:
nossos versos têm quimeras, não entrega.
Somos tão cheios de reservas...
Somos falsos poetas.
Não buscamos plenitude, completude.
Passamos incólumes por este deserto.
Ignoramos sede e fome:
de viver - sabes o que eu quero dizer –.
E vivemos tão bem aqui, plantados no chão.
E que se dane a paixão! ...

Cecília
Um olhar atento
vê gente “sensível”,
que sofre, se angustia,
olhando o próprio umbigo
... apenas

Vê gente
que batalha, sobe na vida
para passar despercebida
... e logo ser esquecida

Um olhar atento
vê gente ansiosa, nervosa,
se perdendo em coisas pequenas
... menores

Um olhar atento
vê semelhanças e diferenças,
que fazem a cabeça da gente
... e os sentimentos

Um olhar atento
capta, derruba, transforma.
Permanece o que importa,
e o estrago é só aparente


Não há como um olhar atento,
para perceber na vida
o que é essência...

Cecília

Friday, May 09, 2008

Fura-bolo (fazendo graça)

O dedo trabalha
e o resto do corpo descansa.
Manda... manda... manda...
Trabalha, no sentido figurado,
pois discreta
não deixo que apareça.
Não aponto.
Sugiro,
descrevo o que deve ser feito
na maior sutileza.
Por que o dedo? Só na sua cabeça!
É da minha que a ordem emana,
talvez disfarçada,
se traduzindo em palavras,
quase sempre delicadas.
Tudo a ver com a personalidade,
que valoriza o jeito,
a si mesma,
acreditando ser melhor poupar as mãos
...do que a cabeça ...
E onde fica o dedo?...

Cecília
(feita por encomenda)
13-03-08

De patrão a empregado

Mais uma vez um pedido. Uma ordem? Cada vez mais sem sentido, fora do contexto, do esquema de trabalho. O que fazer? Patrão ou patroa é assim mesmo. Mas sei que assim não fui. Era sensato, respeitava meus funcionários, até estimulei a fundação de um sindicato. Na verdade fiz mais que isso: um imóvel para a sede lhes cedi.... Mas o que esperar de um ex-funcionário grato, mas limitado em matéria de “finesse” e nível cultural? Enriquece, abre, várias firmas, numa delas me emprega, já que estou na pior agora. E mais: coloca a mulher para me comandar. E ela é demais: como o marido fala com sotaque nordestino, desconhece etiqueta, não sabe distribuir os talheres à mesa, nem o lugar que lhe cabe na calçada. Além de tudo é folgada: ainda ontem me pedia para lhe fazer um chazinho; antes fora a ração para os cachorros: vinte quilos que tive que carregar; as compras na quitanda, quantos desmandos... E as missas que tive que assistir! Será que dou uma de bonzinho ou sou bonzinho mesmo? Dizem os amigos que não sei dizer não para ninguém. Até sugeriram haver uma paixão recolhida. Da parte dela, que não sou chegado a mulher com bafo. E casada, com um cabra valente, e de quem dependo! Sim, meu emprego vale ouro, é o que me sustenta. Ganho pouco, mas o que me basta: todos os meses paga a conta do supermercado, da farmácia, do padeiro. Mas ai se minha mulher desconfia que a outra se insinua e me pega pra Cristo: de nada me adiantará tanto esforço para dar uma de bom moço. Moço em termos pois muito já vivi nesta vida. Fui bem sucedido, patrão inclusive da moça que me explora agora. Coitada, será que merece tais palavras? Afinal o dinheiro que recebo em sua empresa dá para o gasto, como disse antes. Depois não vai adiantar me remoer de remorsos e freqüentar missas e padre Marcelo. Irei do mesmo jeito para o inferno e sem companhia, já que ela e a outra são vítimas. Mas será que devo incluir na lista a minha esposa? Afinal não a traio, me faço de desentendido frente aos encantos da nordestina, que tem na verdade o coração de ouro; nem desconfia que me humilha com seus excêntricos pedidos: “ Pode me acompanhar à missa, seu Francisco? ”
Ah, é demais essa situação! A quantas tenho que me submeter! Penso até que gosto dela um pouquinho. Será mesmo? Será o Benedito?
Enquanto penso se gosto ou não gosto vou tocando o barco, um tanto humilhado mas também lisonjeado. No mínimo ela me admira! Se não tenho “tutu”, tenho cultura, fineza, posso até lhe dar aulas de etiqueta.
Estranho mundo, que gira, gira, leva , trás , me apronta uma dessas, o que mais será que posso esperar?...

Cecília
08-05-08
Me dei um tempo
E saí em busca de mim
Encarei meus defeitos
Me enfrentei face a face
Acertei rumos e passo
Não sou mais barreira pra mim


Meus fantasmas transformo em palavras
Abrigo-os em versos, dou-lhes espaço
E me liberto... da inquietação que me passam

Cecília

Monday, April 28, 2008

Reencontro

Quero te ver uma vez mais,
não importa hora, dia ou lugar.
Mas que seja longe de tudo,
como se fôssemos os únicos seres no mundo.
Só nós dois: frente a frente,
olhos nos olhos,
talvez sem nos tocarmos,
ou nos tocando doce e suavemente,
sem pressa, cerrando os olhos
para sentir com mais intensidade
o calor do nosso afeto.

Não terás que mentir ou enganar.
É só se deixar amar:
meus olhos a percorrer todo o teu corpo,
a boca pronunciando apenas o teu nome amado.
De ti quero ouvir também apenas o meu nome.
Nada de futuro, nada de promessas, nada de passado.
Só quero por instantes te sentir meu homem:
esquecer o mundo inteiro que nos rodeia,
dando ao meu amor o espaço por que tanto anseia.

Cecília Quadros

Sunday, April 27, 2008

A Festa

A casa
Ontem enfeitei minha casa,
tirei os talheres de prata,
usei as melhores toalhas,
copos, taças, porta-retratos
Cuidei de cada detalhe,
da sala até o jardim.

Eu
Vesti um vestido preto,
pra combinar com os cabelos,
passei um batom carmim.
Costas nuas, salto alto,
para dar aquele toque,
e te orgulhares de mim.

O desenrolar
Desci alegre e faceira,
ri, brinquei a noite inteira,
pois tudo corria perfeito,
das canções de George Gershwin,
ao buquê de rosas vermelhas,
que comprara pensando em ti.

Sabia que tu não vinhas,
pois cumprias outro destino,
não o de estar ao meu lado.
Mas dei conta do recado,
mantive a paixão bem guardada,
ela que tudo inspirara,
da roupa à decoração;
e festejei, e brinquei, e dancei,
até cair de exaustão.

Cecília

A preguiça humana

Se você é daqueles que esperam a visita da disposição física para fazer exercícios, desista
MAL DESEMBARQUEI no aeroporto Santos Dumont, dei de cara com uma jibóia contorcida que avançava em passo de procissão. Era uma fila longa e grossa constituída por mulheres com trajes formais e homens de terno escuro, ejetados pelos aviões que aterrissavam no primeiro horário da manhã.Usuário contumaz da ponte aérea que liga São Paulo ao Rio, jamais havia me deparado com aquela aglomeração ordeira.Assim que a jibóia fez a curva, saí de lado para enxergar a origem do congestionamento. Não pude acreditar: a fila desembocava na boca da escada rolante. Ao lado dela, a escada comum, deserta como o Saara.Imaginei que houvesse alguma razão para tanta espera, quem sabe a escada mecânica estivesse obstruída; mas, como não percebi nenhum obstáculo, caminhei em direção a ela. Não fosse a companhia de um rapaz de mochila nas costas, dois degraus à minha frente, eu teria descido no desamparo.Se ainda fosse para subir a escada rolante, o esforço maior e a transpiração àquela hora da manhã talvez justificassem a falta de iniciativa. Os enfileirados, no entanto, berrando em seus celulares, em pleno vigor da atividade profissional, recusavam-se a movimentar as pernas mesmo para descer.Se perguntássemos para aquele povo se a vida sedentária faz bem à saúde, todos responderiam que não. Pessoas instruídas estão cansadas de ler a respeito dos benefícios que a atividade física traz para o corpo humano: melhora as condições cardiorrespiratórias, reduz o risco de doenças cardiovasculares, reumatismo, diabetes, hipertensão arterial, câncer, degenerações neurológicas etc.Por que, então, preferem aguardar pacientemente a descer um lance de degraus às custas das próprias pernas?Por uma razão simples: o exercício físico vai contra a natureza humana. Que outra explicação existiria para o fato de o sedentarismo ser praticamente universal entre os que conseguem ganhar a vida no conforto das cadeiras?A preguiça para movimentar o esqueleto não é privilégio de nossa espécie: nenhum animal adulto gasta energia à toa. No zoológico, leitor, você jamais encontrará uma onça dando um pique aeróbico, um gorila levantando peso, uma girafa galopando para melhorar a forma física. A escassez milenar de alimentos na natureza fez com que os animais adotassem a estratégia de reduzir o desperdício energético ao mínimo.A necessidade de poupar energia moldou o metabolismo de nossa espécie de maneira tal que toda caloria ingerida em excesso será armazenada sob a forma de gordura, defesa do organismo para enfrentar as agruras dos dias de jejuns prolongados que porventura possam ocorrer.Por causa dessas limitações biológicas, se você é daquelas pessoas que esperam a visita da disposição física para começar a fazer exercícios com regularidade, desista. Ela jamais virá. Disposição para sair da cama todos os dias, calçar o tênis e andar até o suor escorrer pelo rosto nenhum mortal tem.Encare a atividade física com disciplina militar ou esqueça-se dela. Na base do "quando der, eu faço", nunca dará.Falo por experiência própria. Sou corredor de distâncias longas há muitos anos. Às seis da manhã, chego no parque, abro a porta do carro e saio correndo. Não faço alongamento antes, como deveria, porque, se ficar parado, esticando os músculos, volto para a cama. Durante todo o percurso do primeiro quilômetro, meu cérebro é refém de um pensamento recorrente: não há o que justifique um homem passar por esse suplício.Daí em diante, as endorfinas liberadas na corrente sangüínea tornam o sofrimento mais suportável. Mas o exercício só fica bom, de fato, quando termina. Que sensação de paz e tranqüilidade! Que prazer traz a certeza de que posso passar o resto do dia sentado, sem o menor sentimento de culpa.Se eu perguntasse às pessoas daquela fila por que razão levam vidas sedentárias, todas apresentariam justificativas convincentes: excesso de trabalho, filhos que precisam ir para a escola, obrigações familiares, trânsito, falta de dinheiro, violência urbana.No passado, diante desses argumentos, eu ficava condoído e me calava. Os anos de profissão mudaram minha atitude, entretanto: escuto as explicações em silêncio, mas não me comovo com elas. O coração vira uma pedra de gelo. No final, quando meu interlocutor pergunta como poderia encontrar tempo para a atividade física regular, respondo:"Isso é problema seu."

Drauzio Varella

De olho no pódio

Os Jogos Olímpicos se aproximam e, por meio da imprensa, já temos notícias de atletas em fase final de preparação para alcançar medalhas, subir no pódio, quebrar recordes. Isso me fez lembrar de que, sempre que assisto a alguma competição esportiva, reconheço que esse é o lugar legítimo e adequado da competição.
Ao considerar nosso modo de vida atual, faço uma analogia: transformamos a vida em uma olimpíada permanente. A competição transpôs a fronteira do ramo esportivo e se instalou no nosso cotidiano.
Não é à toa que muitos esportistas ou treinadores bem-sucedidos são chamados para dar palestras em empresas. Afinal, eles são os maiores especialistas em competição, não é? Do mesmo modo, os atletas que triunfam são escolhidos para ser garotos-propaganda de muitas empresas, das quais poucas produzem artigos ligados ao ramo esportivo. "Use nosso produto e você será um vencedor!" é a mensagem.
Hoje, exigem-se um preparo técnico acurado e um treinamento contínuo, tanto na vida profissional quanto na pessoal. E não se trata apenas de conhecer e estudar seu ramo de atividade ou de se cuidar, e sim de se empenhar em estratégias que permitam, ou pelo menos prometam, sair na frente e chegar em primeiro lugar ou, pelo menos, entre os primeiros.
Competimos contra tudo e todos. Contra o tempo -e ainda acreditamos ser possível ganhar dele. Contra nossa constituição física, contra nossos pares, contra nossa vida coletiva, contra qualquer outro que se coloque à nossa frente em qualquer situação. Iniciamos nossos filhos precocemente nessa competição acirrada e acreditamos que tal iniciativa é absolutamente necessária para a sua sobrevivência no futuro. Não valorizamos mais a aprendizagem do jogo que é a vida desde a largada, e sim seu resultado, que só pode ser um: ganhar.
As escolas se apropriaram desse anseio dos pais e incrementam ainda mais a concorrência entre seus alunos. Os anunciados rankings de escolas baseados nos mais diferentes exames, os primeiros lugares conquistados nos vestibulares e as avaliações dos alunos, sempre comparativas, são exemplos dessa apropriação da competição pelo espaço escolar.
O sucesso, hoje, é definido principalmente pela competição, o que faz com que o processo de identificação com o outro ocorra de modo negativo. Ser melhor do que o outro, ganhar do outro ou então se resignar a ser inferior a ele. Desse modo, fica mais fácil entender o motivo de o outro ser quase sempre percebido como ameaça.
É preciso saber que essa olimpíada permanente tem seu preço. Sabemos o custo que os atletas pagam na busca da superação: contusões sérias, cirurgias precoces, interrupção da vida profissional muito cedo. Isso sem falar das conseqüências emocionais e sociais quando eles enfrentam a derrota ou saem do pódio. Arcamos com conseqüências análogas em nossas vidas quando transformadas nessa competição sem trégua: tédio, depressão, estresse, agressividade descontrolada, pânico etc.

Rosely Sayão

Monday, March 31, 2008

Reminiscências e coisas mais

Cobriu de cinzas minh’alma quando parti.
Na bagagem sabor de jabuticabas,
o mistério dos porões escuros,
chiado dos carros de boi na modorra do dia
domingos chuvosos
lamento de flauta pela vidraça molhada.
Um sonoro badalar. De onde é o sino ?
É o das Dores, é o de Santo Antônio?
Sons de matraca no silêncio das ruas.
Casas abandonadas - morada da Mãe do Ouro
visão fantasmagórica nas noites de prata.
O canto do pássaro no galho
doces manhãs de neblina,cheiro de infância.

O trem engole a serra.Último silvo
ponto final de uma meninice dourada.
O tempo derrama a saudade
e molha o peito com água dos olhos.

Anna Ayres

Friday, March 28, 2008

Corpos idosos e eróticos

Não é mais ridículo, aos 60 ou mais, querer uma companhia de vida, um amor ou só uma transa
SE ME lembro direito, 20 anos atrás era freqüente participar de conversas animadas em que se discutia a questão seguinte: devemos ou não deixar nossos filhos e nossas filhas adolescentes dormir em casa com suas namoradas ou seus namorados? Aparentemente, o partido do sim ganhou. Em geral, a razão que ele invocava (e ainda invoca) era a segurança: é melhor que minha filha esteja no seu quarto com o namorado do que em baladas perigosas ou, pior ainda, "brincando" no carro numa rua deserta. Também contava o fato, comprovado, de que um namoro é quase sempre uma experiência mais rica e mais "madura" do que a agitação das turminhas. Naquelas conversas dos anos 80, eu ficava em cima do muro e torcia, de leve, pelo partido do não. Achava problemático que os adolescentes tivessem uma espécie de vida conjugal sem ter conquistado sua autonomia: para juntar-se com um parceiro ou uma parceira (a ponto de dormir na mesma cama com ele ou com ela a cada noite ou quase) seria melhor, primeiro, não precisar mais se definir como filho ou filha. Continuo pensando que eu tinha um pouco de razão: prova disso, os inúmeros casamentos em que um dos membros do casal se queixa de que o outro continua sendo mais filho ou filha do que marido ou mulher. Mais um detalhe. Freqüentemente, a conjugalidade precoce e protegida de dois adolescentes na casa dos pais é uma caricatura da conjugalidade adulta menos interessante: consiste mais em assistir, na cama, a filmes alugados do que em sair juntos pelo mundo ou mesmo em praticar a arte difícil de se descobrir mutuamente. Seja como for, o partido do sim ganhou sobretudo por uma razão que não se confunde com as justificações habitualmente propostas. Acontece que, nas últimas décadas, pela freqüência dos divórcios, a metade dos jovens viveram sua adolescência em companhia de apenas um de seus pais. E muitos desse jovens foram espectadores assíduos (e, às vezes, até confidentes) do folhetim das aventuras e dos namoros de sua mãe ou de seu pai. E, claro, com que moral o pai ou a mãe divorciados proibiriam o filho ou a filha de levar seus amores para casa se eles mesmos não fazem diferente? Essa grande mudança na vida familiar teve dois efeitos significativos e, a bem dizer, positivos. O primeiro é que os adultos começaram a levar mais a sério a vida amorosa de seus filhos adolescentes: as brincadeiras condescendentes (o detestável "e aí, tem namorado?") acabaram ou quase. O segundo efeito aparece agora, 20 anos depois: à força de conviver com os namoros, os namoricos e as decepções, em suma, com as alegrias e as tristezas das paixões de seus pais divorciados, os adolescentes abandonaram a idéia (freqüente em minha geração) de que a vida amorosa e sexual dos adultos seria uma mesmice comportada -que, aliás, no caso dos pais, teria acabado de vez depois da troca mínima que foi necessária para que eles, os filhos, fossem concebidos. Os adolescentes que tiveram essa experiência são agora jovens adultos, e seus pais são idosos. Apesar da valorização cultural do corpo jovem e sarado como se fosse o único desejável e capaz de desejar, é lógico que esses jovens adultos estejam dispostos a reconhecer que a terceira idade não corresponde a nenhuma aposentadoria do amor e do sexo, ou melhor ainda, que ela não corresponde a nenhuma "maturidade" das paixões: os "idosos" amam e desejam com o mesmo transporte e a mesma ingenuidade dos adolescentes (e, claro, dos ditos adultos). De repente, hoje, não é ridículo ter 60 anos ou mais e propor um perfil num site de encontros amorosos na internet; não é ridículo, aos 60 ou mais, querer uma companhia para o resto da vida, um amor ou mesmo apenas uma transa. O bonito filme de Laís Bodanzky, "Chega de Saudade", que estreou na semana passada, nos leva para um baile. Há muitos assim, pelo país afora, em que homens e mulheres da terceira idade se procuram e dançam a cada semana. Estamos aprendendo, aos poucos: a grandeza (e a mesquinhez) do amor e do desejo não têm estação. Mas não é apenas por isso que o filme é tocante: é porque no baile, na pista de dança, o enlace do parceiro ou da parceira revela que estes corpos, que talvez tenham chegado mancando, endurecidos pela idade e de pés inchados, são corpos bonitos, eróticos, vivos.

Contardo Calligaris

Thursday, March 20, 2008

O moralizador

CONTARDO CALLIGARIS
Moralizador é quem impõe ferozmente aos outros os padrões que ele não consegue respeitar
ELIOT SPITZER era governador do Estado de Nova York até sua resignação na semana passada.Sua fortuna política e sua popularidade eram ligadas à sua atuação prévia como procurador agressivo e inflexível contra os crimes financeiros e contra as redes de prostituição e seus clientes. Ora, descobriu-se que ele era freguês de uma rede de prostituição de luxo e que também recorria a artimanhas financeiras para que seus pagamentos -substanciais: US$ 80 mil (R$ 140 mil)- não fossem identificados. Esse fato de crônica (no fundo, trivial) foi para a primeira página dos jornais do mundo inteiro -aparentemente, pela surpresa que causou: quem podia imaginar tamanha hipocrisia? Esse "espanto" geral foi, para mim, a verdadeira notícia da semana. Começou no dia em que Spitzer deu sua primeira declaração pública, reconhecendo os fatos e a culpa, ao lado de sua mulher, impávida. No programa "360", da CNN, o âncora, Anderson Cooper, convocou dois comentaristas. Um deles, uma mulher, psicóloga ou psiquiatra, ofereceu imediatamente uma explicação correta e óbvia. Ela disse, mais ou menos: é muito freqüente que um moralizador raivoso castigue nos outros tendências e impulsos que são os seus e que ele não consegue dominar. Cooper (que já passeou pelos piores cenários de guerra e catástrofes naturais) quase levou um susto e cortou rapidamente, acrescentando que essas eram, "claramente", suposições, hipóteses etc. Não é curioso? Em regra, prefiro as idéias que são propostas, justamente, como hipóteses ou sugestões que cada um pode testar no seu foro íntimo. Mas, hoje, considerar a dita declaração da especialista como uma suposição parece ser uma hipocrisia pior (e mais perigosa) do que a de Spitzer. Afinal, depois de um bom século de psicologia e psiquiatria dinâmicas, estamos certos disto: o moralizador e o homem moral são figuras diferentes, se não opostas. 1) O homem moral se impõe padrões de conduta e tenta respeitá-los; 2) O moralizador quer impor ferozmente aos outros os padrões que ele não consegue respeitar. Na mesma primeira declaração, Spitzer confessou, contrito, que ele não conseguira observar seus próprios padrões morais. Tudo bem: qualquer homem moral poderia confessar o mesmo. Mas ele acrescentou imediatamente que, a bem da verdade, esses eram os padrões morais de quem quer que seja. Aqui está o problema: o padrão moral que ele se impõe, mas não consegue respeitar, é considerado por ele como um padrão que deveria valer para todos. Com que finalidade? Simples: uma vez estabelecido seu padrão como universal, ele pode, como promotor ou governador, impô-lo aos outros, ou seja, ele pode compensar suas próprias falhas com o rigor de suas exigências para com os outros. Quem coloca ruidosamente a caça aos marajás no centro de sua vida está lidando (mal) com sua própria vontade de colocar a mão no pote de marmelada. Quem esbraveja raivosamente contra "veados" e travestis está lidando (mal) com suas fantasias homossexuais. Quem quer apedrejar adúlteros e adúlteras está lidando (mal) com seu desejo de pular a cerca ou (pior) com seu sadismo em relação a seu parceiro ou sua parceira. O exemplo da adúltera, aliás, serve para lembrar que a psicologia dinâmica, no caso, confirma um legado da mensagem cristã: o apedrejador sempre quer apedrejar sua própria tentação ou sua culpa. A distinção entre homem moral e moralizador tem alguns corolários relevantes. Primeiro, o moralizador é um homem moral falido: se soubesse respeitar o padrão moral que ele se impõe, ele não precisaria punir suas imperfeições nos outros. Segundo, é possível e compreensível que um homem moral tenha um espírito missionário: ele pode agir para levar os outros a adotar um padrão parecido com o seu. Mas a imposição forçada de um padrão moral não é nunca o ato de um homem moral, é sempre o ato de um moralizador. Em geral, as sociedades em que as normas morais ganham força de lei (os Estados confessionais, por exemplo) não são regradas por uma moral comum, nem pelas aspirações de poucos e escolhidos homens exemplares, mas por moralizadores que tentam remir suas próprias falhas morais pela brutalidade do controle que eles exercem sobre os outros. A pior barbárie é isto: um mundo em que todos pagam pelos pecados de hipócritas que não se agüentam.

Friday, March 14, 2008

Não fomos amantes
Não nos perdemos em beijos e abraços apaixonados.
Não nos sentimos fragmentados se distantes.

Não fomos amigos
Faltou cumplicidade, apoio, carinho,
quando pedras interceptaram nosso caminho.

Não fomos companheiros
Não desfrutamos juntos de uma hora inteira.

O que fomos senão necessária fantasia,
matéria para a criação de um quadro
ou de uma poesia?

Alma sem rosto, que a memória apaga,
tão rápida a passagem, vazia de significado.
Só uma valsa em sonho juntos dançada.

Cecília Quadros

Soneto XXIII

Ao abrires a porta para a rua
Deixa o mar em teu quarto simplesmente,
E pede que teu carro ou a falua
Trafeguem pela vida sem repente.
No elevador procures disfarçar
Se anêmonas flutuarem na camisa,
E se houver simples gesto a marulhar
Essas lembranças que respira a brisa.
Ao abrires a porta é bom fechares
Os segredos em cofre de coral,
Não banhes em rotina os teus mares,
Esses domínios de amplidão e sal.

Se voltares da rua, pouco importa,
Despede teus naufrágios junto à porta.

Paulo Bomfim

Monday, March 10, 2008

Seres complementares
Deles está cheia a minha vida.
Alguns vivem na sombra,
Outros em sonho,
pouco ou nada
tendo a ver com a realidade.
Mas esta sustentam
com mãos invisíveis
amigas
tornado-a mais suportável...

03-11-04

Sunday, March 02, 2008

Minha Terra

Em minha terra me sinto tão acolhida e integrada,
que às vezes me faltam olhos críticos
ou de justo encantamento
- a ela não pareço estar suficientemente atenta .
Se viajo, outras seguram o meu olhar curioso,
predisposto a delas gostar
- há quase sempre a intenção de voltar.
Mas é à minha terra que sempre retorno,
bendizendo o meu lugar no mundo,
aquele que reconheço como pátria
e me reconhece como filha.

Terra minha,
não apenas um espaço físico,
mas um conjunto de sentimentos,
modos de ser, posturas,
que definem sua alma,
nossa alma brasileira...

Cecília
28-02-08

Monday, February 11, 2008

Fetiche

Ah, tuas mãos...
Mãos de homem
Mãos de menino
Mãos morenas e finas
Mãos de príncipe
Tão bonitas!
Mãos que outras acariciam
Mas nunca irão me tocar
( diversos são os caminhos
não no que tange`a emoção)
Mãos com marcas da vida,
- pequenas imperfeições,
que ainda mais me cativam...
Mãos que aliso e admiro
Reflexo de alma sensível
Tuas mãos... meu fetiche...

Cecília

08-02-08

Encontro com o mar

Eu e o mar
O mar e eu
E mais uma infinidade de gente
Mas quando o frio passa
E se estabelece entre nós intimidade
Particular parece o encontro,
Puro encantamento:
De um lado gosto de sal na boca,
Olhos no azul a mergulhar
Do outro, ondas a abraçar
Usufruo o enlevo,
Depois à praia penso voltar.
Mas, seduzida, prolongo o encontro
O meu encontro com o mar
Suspiro
Me solto
Sinto a sua energia,
Agradeço o momento vivido
E então sim
Estou pronta para o mar deixar...

Cecília

05-02-08

Thursday, January 17, 2008

Despedida

Dizer adeus ao mistério daquela porta cerrada
à luz fosca desse dia abandonado.
Que severa parecias, longínqua e inviolada
flor desse inverno findando.
Recolhi-me entre os crisântemos
que te vestiam tristonhos:
tanto abandono querida uma parede dura
impermeável ao pranto à ternura
levados para te dar. Ao meu sim de desalento
nenhuma resposta ou lamento,
nada. Teu segredo, só ele persistia.
Fiquei noturna, olhando teu esquivo dia.

Dora Ferreira da Silva

Ser Juntos

Se estou só estou contigo
comigo estás e nunca a sós
assim não padecemos nós
por sermos juntos e ao mesmo tempo.
Espelha o amor longinquamente
a imagem terna e breve
mas nunca é antigamente
nossa hora dourada e leve.
Perdemos os nomes - não bastavam
para o colóquio que somos
incessantemente.
Inventamos outros nomes que também
não bastam - e os esquecemos.
Falas em mim e eu em ti
já não sabemos quem somos
imersos no mesmo sono.
Sutil, sonhas em surdina
ou entro no teu sono, retina
aberta para o que de mim
sonhas. Assim nos encontramos
e nunca nos perdemos.

Dora Ferreira da Silva
"Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamoví­vel, e te respiro inteiro."

Hilda Hilst




Thursday, January 10, 2008

Desejo

Queria ser mais bonita, sensual e jovem
para despertar em ti um desejo genuíno, forte,
independente de subterfúgios, imagens eróticas,
que te levassem a perpetrar comigo do amor o ato.
Eu também não seria por elas motivada:
só por ti seria seduzida, tendo no final meu desejo apaziguado.
Assim, no dia seguinte, me veria mais bonita,
mais mulher, plena, iluminada,
desejando por ti ser mais uma vez tomada,
acreditando que teu desejo em mim nascesse e se saciasse
e só comigo o êxtase e a plenitude alcançasses...

Cecília
09-01-08

Thursday, December 20, 2007

Humores

Nos teus humores viajo
Vou da tristeza à felicidade,
como se vontade própria não tivesse
e a tua fosse a minha alegria.
Sou, pois, movida por emoções alheias,
que no fundo desconheço.
Indícios me guiam
talvez por falsos caminhos,
do teu coração mais me afastando
enquanto penso que te conquisto.

Se incapaz sou de ler a tua alma,
mereço que te afastes
ou saias de uma vez da minha vida

Cecília

20-12-07

Presentes para as festas

Nossas tentativas de entender o mundo sempre oscilam entre "zoom in" e "zoom out"
TENHO UM carinho especial pelos livros de imagens de Istvan Banyai. Dois estão disponíveis no Brasil: "Zoom", em sua 16ª reimpressão (Brinque-Book), e "O Outro Lado", que acaba de ser publicado (Cosac Naify). São livros sem palavras, em que a série de imagens constitui uma história e, ao mesmo tempo, uma reflexão.Nesta época de amigos secretos e de propósitos para o Ano Novo, esses dois pequenos livros são o brinde que mais gosto de oferecer. Além de agradar (espero) a adultos e crianças, eles dizem algo essencial sobre minha maneira de pensar e de viver, ou melhor, sobre como gostaria de conseguir pensar e viver. "O Outro Lado" é, dos dois, o mais fantasioso e, talvez, o mais complexo. À força de folheá-lo, cheguei a este resumo de sua sabedoria: 1) sempre há um outro lado; 2) vale a pena, em cada situação, olhar para nós mesmos do ponto de vista daqueles que estamos observando; 3) esse esforço não é apenas um jogo no qual brincaríamos de passar de um lado ao outro do espelho; 4) tampouco trata-se apenas de saber se colocar nos sapatos dos outros (o que já não seria mal); 5) os desenhos revelam que, quando a gente se desloca para o lugar dos outros, quando a gente se mexe para "o outro lado", algo muda: o resultado final não é só a mesma cena vista de ângulos opostos, mas é, de repente, uma nova cena. Veja se você concorda. "Zoom" é de uma leitura mais imediata, mas não por isso é menos rico. Para não estragar o prazer dos leitores, invento uma seqüência parecida com a do livro, mas diferente dela: no começo, você vê alguém de costas, sentado à frente de uma tela de computador, e imagina que esse seja o cenário da história que começa. O zoom, afastando seu olhar, amplia o campo visual, e eis que aparece o seguinte: aquele cenário inicial é uma propaganda de informática numa revista que está nas mãos de alguém sentado na sala de espera do dentista. Antes de decidir que esse seria, então, o cenário da história, espere: o zoom vai recuar de novo. E por aí vai. "Zoom" pode ser lido do começo ao fim (sucessão de ampliações do campo visual - "zoom out") ou do fim ao começo ("zoom in": aproximação progressiva do nosso olhar, que, portanto, enxerga de maneira cada vez mais detalhada, mas também com cada vez menos compreensão do conjunto, que se perde a cada aproximação). Para quem lê do começo ao fim, o livro vale como uma meditação apaziguadora sobre a pouca relevância das pequenas coisas nas quais encalha o narcisismo da gente -a começar pela nossa própria pessoa. Ele lembra um pouco aquelas fantasias por meio das quais as crianças tentam aliviar o fardo do olhar dos pais, que permanentemente tenta convencê-las de que elas são seres únicos e extraordinários. Nessas fantasias, as crianças imaginam, por exemplo, que nosso "universo" seja apenas um viveiro de bactérias no ventre de um gigante -os terremotos e as inundações sendo, respectivamente, acessos de tosse ou bebedeiras de nosso hóspede desmedido. E não acaba assim: o gigante, por sua vez, sem se dar conta, poderia ser um vírus no corpo de um supergigante, que, por sua vez... Mas, fora esse exercício salutar, que encolhe o narcisismo (ele sim, gigantesco) do qual sofremos normalmente, "Zoom" é também uma espécie de meditação, por assim dizer, cognitiva. Explico. Nossas tentativas de entender e explicar o mundo estão sempre oscilando entre um "zoom in" e um "zoom out". Ou seja, entre a aproximação máxima que nos permite encontrar a causa de nossos males no microscópio (invasores invisíveis, genes, cromossomos etc.) e a distância máxima que nos leva a procurar a explicação do que acontece, por exemplo, na disposição dos astros na hora de nosso nascimento ou no dia de hoje. Com isso, alimentamos oposições, quase sempre estéreis, entre explicações pelo infinitamente pequeno e explicações pelo quadro mais amplo -no meu campo, entre a descrição da química invisível que regula nossa mente e a consideração de eventos externos que nos afetam. Meu propósito, para o ano que vem, é que a gente não fique travado carregando na mão apenas duas objetivas separadas, uma macro e uma teleobjetiva, mas que estejamos dispostos a acionar constantemente o nosso zoom -"zoom in" e "zoom out". E também, quase ia esquecer, que sejamos capazes de enxergar sempre "o outro lado".

Contardo Calligaris

Monday, December 17, 2007

Cecília

Quantos artistas
Entoam baladas
Para suas amadas
Com grandes orquestras
Como os invejo
Como os admiro
Eu, que te vejo
E nem quase respiro

Quantos poetas
Românticos, prosas
Exaltam suas musas
Com todas as letras
Eu te murmuro
Eu te suspiro
Eu, que soletro
Teu nome no escuro

Me escutas, Cecília
Mas eu te chamava em silêncio
Na tua presença
Palavras são brutas

Pode ser que entreabertos
Meus lábios de leve
Tremessem por ti
Mas nem as sutis melodias
Merecem, Cecília, teu nome
Espalhar por aí
Como tantos poetas
Tantos cantores
Tantas Cecílias
Com mil refletores
Eu, que não digo
Mas ardo de desejo
Te olho
Te guardo
Te sigo
Te vejo dormir

Chico Buarque

Friday, December 14, 2007

Escolha

Escolhi a felicidade.
Uma felicidade relativa, possível, sem fantasias.
Existe?
Sem me rachar por dentro para alcançar alturas,
para as quais não tenho asas;
ou se as tenho, falta coragem, empenho.
Então me contento com o pouco,
que não é tão pouco,
pois me acalma por um tempo.
Só que ao menor sinal de problema,
solta-se a imaginação novamente,
a fim de aquietar com fantasias
o coração sensível e exigente,
que à razão tantas vezes se submete,
não na essência.
Coração rebelde,
carro-chefe da minha vida,
que minhas ilusões carrega,
me leva para frente,
difere, distingue,
se insinua em olhares, sorrisos e gestos,
que só os iguais captam e compreendem...
Escolhi esse jeito de ser meio escondido,
vivendo talvez a metade do que poderia,
mas em paz... talvez apenas sobrevivendo...


Cecília

Colcha de retalhos ( 2 )

Pedaço por pedaço,
como noiva, costuro minha colcha de retalhos.
Ligo sonhos, momentos passados, inesquecíveis olhares,
diálogos, que em minha memória permanecem gravados,
tudo formando uma história única, sem igual:
história de amor e amizade, carinho e lealdade.
Cada pedaço dessa colcha tem seu colorido, beleza, significado
e o todo é o meu, o seu, o nosso retrato,
ainda sem marcas do tempo, que tudo desgasta.
Muitas águas sobre ela rolarão;
deveremos, pois, lhe dispensar muito cuidado.
Só assim permanecerão suas cores originais:
o vermelho da paixão, o verde da esperança,
o azul da pureza e todas as outras cores
a representar a amizade, que a tudo deu início,
e deve ser cuidadosamente preservada.
Amizade: sentimento que traz em si paz e permanência,
anseio maior da humanidade...

Com afeto, serenamente,
costuro nossa colcha de retalhos...


Cecília

Ressonar ( 2 )

Pousa
sobre meu braço
tua cabeça,
e dorme.
faz como o viajante
que longamente andou,
cansado,
e encontra afinal,
em meu porto,
o seu abrigo.
Ao lado do meu,
estende o teu corpo,
e como a criança,
abandonada ao calor da mãe,
cerra teus olhos sobre o dia,
e dorme.
com teu afeto,
faz-me sentir de novo um menino,
quando mais pareço homem.
faz reviver, dentro de mim,
o ser antigo.
Sobre meu braço
pousa tua cabeça,
e docemente, amiga,
dorme.

Sérgio Paolozzi

Amanhecer

24 horas.
Inumeráveis gotas de infinito
que eu devo, uma a uma,
devotamente,
apalpar, saborear, sorver.
O dia está entrando
pela janela,
ou está saindo, de mim,
prá fora dela?

Sérgio Paolozzi

Friday, November 30, 2007

"E ainda que as janelas se fechem, meu pai, é certo que amanhece"

Hilda Hilst

Thursday, November 22, 2007

Vida

Ao longo da vida
a gente se perde, se acha,
se fere, se abraça
erra, acerta,
se perdoa, se amaldiçoa
segue, persegue
algo distante,
que não tem tamanho
talvez Felicidade,
Paz ou algo mais....
Voltar? Só em sonho
ou pensamento
Nunca se tem uma chance,
de no passado mexer.
Pelo caminho deixamos
marcas, plantas,
que um dia hão de crescer:
nossos filhos, nossos amigos,
um pouco de nossa alegria
nosso jeito de viver
(e quem sabe também
o gosto de escrever)...
Deixamos portas abertas,
caminho um pouco mais livre
de pedras, poeira e espinhos.
Talvez esteja aí
O porquê de existirmos,
a razão do nosso viver
Parece tão simples...
E é...
O que nos cabe provar?
Erros...
São parte deste sofrido,
por vezes alegre,
apaixonante caminhar...

Cecília

"Day After"

O que fiz hoje do meu dia?
Andei meio às cegas e às tontas pela casa,
passando por tudo indiferente, apática
Depois me atirei aos braços de “ Morfeu”,
sem nada perder ou ganhar,
nem um sonho a explicar esta entrega absoluta,
inusitada, sem remorsos:
um nada noutro nada se perdendo...
E assim o banho (de banheira) logo a seguir
- o silêncio me envolvendo como a água quente...
Eu tão ausente, me dando um tempo, trancada em mim...
Só então, corpo aquecido e relaxado,
desponta o pensamento que explica o dia, a preguiça o cansaço, a ressaca:
“Em boca fechada não entra mosca”,
única lição do drama que vivi (ressalvado o direito de sentir)
Silenciosos, em sintonia com meu estado de espírito, continuam:
as filhas caninas, a tv, os telefones, a casa, o quarto.
E penso: palavras, hoje, só escritas, sujeitas ao “delete”
... ou à borracha.

Cecília

29-10-07

Sunday, November 18, 2007

Yoko Ono

CONTARDO CALLIGARIS


Ela defende a pequena liberdade íntima e concreta do fazer -a mais difícil e preciosa

NO SÁBADO passado, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, foi aberta a exposição retrospectiva de Yoko Ono. Não deixe de visitá-la (até 3 de fevereiro de 2008), mas escolha bem o momento: a abertura foi um desastre. Para ver uma obra que fala de liberdade, houve filas, barreiras e distribuição de fichas.
Na quinta-feira anterior, no Teatro Municipal, Yoko Ono fez uma performance que foi constrangedora. Como foi a única, sorte de quem não esteve lá.
Yoko Ono já era uma artista relevante quando ela encontrou John Lennon. A lenda conta que Lennon se apaixonou por ela por causa de uma obra, "Ceiling Painting" (pintura no teto), de 1966. Trata-se de uma escada branca no topo da qual você encontra uma lupa, com que é possível ler uma inscrição: "Yes". É um apelo bonito à nossa capacidade de viver e de mudar o mundo: "sim", é permitido desejar, basta se dar a pena de subir a escada.
O espírito da contracultura americana poderia ser resumido pelo "Yes" de Yoko Ono ou pelo "Do It" (faça-o) de Jerry Rubin. Não é só um enfrentamento com a autoridade; é a luta contra as resistências internas que nos impedem de agir (e desobedecer, se for preciso).
No CCBB, é proibido tocar na escada de "Ceiling Painting". O que fazer? No espírito da exposição, subir a escada encarando os seguranças?
Ou negar o sentido da exposição e acatar a proibição?
Nos anos 60, eu teria subido e armado um barraco, mas os tempos mudaram. Na época, se comprasse uma briga, a metade dos visitantes me apoiaria, e talvez a coisa terminasse na demolição do CCBB por uma turma de revoltados, até a chegada da polícia. Hoje, eu seria um vândalo isolado.
Por causa dessa mudança dos tempos, na exposição, as peças interativas (quadros para pintar ou para encher de pregos, cacos que podemos rejuntar com cola etc.) são tristes pela modéstia bem comportada de quem aceita o convite a se expressar. Por exemplo, somos convidados a escrever um desejo num papel que penduraremos na "Árvore do Desejo", a qual, no fim da exposição, ficará carregada de sonhos e aspirações.
Escutei duas mulheres comentando que seria legal montar uma árvore dessas para o Natal. Pendurar desejos é mais divertido do que pendurar anjinhos e bolinhas, mas que desejos serão confessados no espaço familiar e meloso da festa natalina?
Enfim, o conjunto da obra de Yoko Ono é forte e corajoso; é difícil não ser tocado por trabalhos como "Espécies em Extinção" ou "Objetos de Sangue". Mas tenho um carinho especial pelas "Instruções". São "receitas" para criar uma "obra de arte", que pode ser um objeto ou um comportamento.
Desde os anos 60, as "instruções" são a marca registrada da arte conceitual, pela qual a obra pode ser reduzida ao seu "conceito", ou seja, às instruções necessárias para que cada um possa criá-la. As instruções de Yoko Ono, escritas em japonês ou, quando são em inglês, numa caligrafia cuneiforme lindíssima, são breves poemas para um domingo de manhã em que você está sozinho, em paz e com vontade de tentar algo que você nunca fez: pintar uma aquarela, seguir um desconhecido na rua, olhar para o céu pelo buraco que você se permitiu fazer na cortina da sala. Yoko Ono defende a pequena liberdade íntima e concreta do fazer. É a liberdade mais difícil, mais verdadeira e mais preciosa.
Com o tempo, vários artistas conceituais, em vez de praticar a redução da obra às instruções para produzi-la, entenderam que, por eles serem "conceituais", deviam roubar a cena aos filósofos e pensar nas "grandes questões" do mundo. De repente, muitas obras conceituais se transformaram em lugares comuns primários.
É o que aconteceu na performance de quinta-feira. Aprendemos, por exemplo, que é ruim bombardear cidades, que as guerras matam pessoas e não é legal jogar vitríolo na cara das mulheres, as quais se libertam parando de usar sutiã. São coisas que eu já suspeitava -eu e todas as torcidas do país. Revisar esses "pensamentos" graças a imagens-clichês num telão e músicas cantadas num clima de show pop, com lançamento de beijinhos e lembrançinhas para o público... haja paciência.
Para esquecer esse mau momento, basta visitar a exposição do CCBB e seguir uma instrução qualquer da própria Yoko Ono. Por exemplo (estou escrevendo no domingo): "Disponha seu quarto do jeito que você deseja que esteja sua mente".

Wednesday, October 31, 2007

Suavíssima

Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma . . .
Fica-se longe, quase morta, como ausente . . .
Sem ter certeza de ninguém . . . de coisa alguma . . .
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,
De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente . . .
Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
Tão para lá! . . . No fim da tarde . . . além da bruma . . .
E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma . . .
Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma . . .
E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

Cecília Meireles

Saturday, September 15, 2007

Passei ao largo
de flores, jardins, amores,
de chances de ser feliz.
Não que eu seja infeliz;
só falta cor nesta vida,
um pouco mais de paixão.
Algo, que às vezes batido,
mas deixa o poeta cheio de aflição.

Passei batido,
ignorando o meu próprio coração...

Cecília

Tuesday, September 04, 2007

Preço

Ninguém tira os pés do chão e voa impunemente
O preço... vale a pena?
Vale viver uma outra vida, à perfeição retocada,
Colorido filme em que somos protagonistas,
Vale brincar, esculpir imagens, criar roteiros,
Vida paralela ocupando da realidade quase todo o espaço?

Cecília
Silêncio
Que fala mais que mil palavras
Com força para desfazer sonhos
Mudar imagens
Esmaecer cores
Tirar da vida tantos sabores

Silêncio
Enigma que crias
E permanentemente me desafia
Devo ou não mover minha rainha
Risco
Penso, repenso, raciocino
Silenciam alma, coração, sentimentos
E me pergunto:
Vale a pena,
Jogar assim o jogo da vida?

Cecília
Meu sonho não tem um nome,
uma forma, um endereço
Meu sonho não é de glória
Não é um homem,
É ter com o que sonhar,
A minha vida inteira...

Cecília Quadros

Friday, August 24, 2007

Manhã de novembro

meu gato siamês
(de veludo
e garras,
cheio de sons)
deita-se
ao sol
(da morte,
sabemos nós)
displicente
e eterno

Ferreira Gullar

Thursday, August 23, 2007

Jogo

Nada tem a força do teu olhar
Que o meu penetra
A alma desnuda
Promete
Recua
Torna a prometer
Num jogo ininterrupto
De razão e sentimento

Entro no jogo
Sedutora
teu olhar devolvo
em meio a palavras
que nada expressam
tergiversam
em total desacordo
com a força do olhar
que te devolvo...


Cecília
22-08-07

Plenitude

Sonho:
Um canto
Nós dois nos enlaçando
Trocando carícias
Felizes
Amigos
Amantes
Únicos habitantes
Do mundo que criamos
Só um canto
Mas transbordante de desejo
e ternura
Silencioso, aconchegante...
... e nós nos entregando
Naturalmente
Plenos
Pacificados
Serenos...

Cecília

17-08-07

Friday, August 17, 2007

Poesia em outra embutida

Foste
Rasgo
Raio
Risco
Na página
Na alma
Na vida
Sem sentido
Curta permanência
Tocando fundo
Inigualável experiência
Paixão única
Da realidade fuga
Concreta?
Abstrata?
(Ainda sinto o teu perfume...)
Tudo

Cecília

Avesso

Posso”zoar” com a poesia, com o meu blog,
com a minha vida.
Para alguns serei “legal”.
“Cool” este modo “blasé” com a vida
Posso posar de inteligente, superior, culta,
fingir que não levo nada a sério,
que sou uma eterna adolescente
e assim brincar comigo, com os afins,
com desejos frustrados, insatisfações e fantasias.
E se nada há a dizer, a acrescentar,
deixar que em minha casa virtual
prevaleça o “nonsense”,
o mau gosto;
que este agrida, agite,
desperte risos, críticas,
traga matérias na mesma linha
e vire tudo... uma grande porcaria...

Cecília

Para um certo conde

Monday, July 23, 2007

Canção do rio do meio

Um rio jorra entre o porão e o sótão:
leva dores e amores e nosso último riso
há tanto tempo.
Mas numa curva qualquer, porque de novo amamos,
tudo pulsa e brilha de ousadia,
sabendo que temos pela frente
esse calor, esse rumor de águas na areia.

Passa no meio de nós, entre o sonho do sótão
e o medo dos porões, o rio da vida:
que me leve para ti ainda uma vez e muitas,
que venhas até mim antes daquela curva
com a audácia e o fervor que tínhamos perdido.

Lya Luft
Nesta casa escura e fria
só o meu corpo se encontra.
A alma, brinca de faz de conta:
que é dezembro, festa, Natal, casamento
ou que ainda é setembro:
viagem, amigos, uma terra diferente.

Eta, alma besta!
Não se conforma.
Finge que está tudo bem agora
que a vida é cor de rosa,
que tudo de uma maneira
ou outra se resolve.

Mas tem um medo da morte!...
Alma escaldada,
que não quer olhar o passado,
só por falta:
da mãe muito amada, do pai amado,
tanta gente...
Aí: foi só pensar e lá vem
a lágrima quente.
Enfim... só pede um tempo
e segue em frente,
pois como diz o outro:
atrás vem gente...

Cecília

Wednesday, June 20, 2007

Me pediste uma poesia alegre:
Ontem a fiz; dela só faltou saírem fogos de artifício,
celebração de horas de entendimento, harmonia,
coincidência de estados especialíssimos de espírito.
Quantos passarinhos verdes havíamos visto?
Hoje te olhei com outros olhos,
olhos de posse, maldita posse.
E se turvou o que era límpido, claro,
divertido, perfeito...

Inocência,
só tu seguras este sentimento de querer bem,
preenchimento,
estranha, inexplicável permanência...

Cecília

16-06-05

Tuesday, June 12, 2007

Namorados

Palavra mágica, que salta da página,
me extasia, me amarra,
tão cheia de significado...

Palavra com gosto de beijo
perfume de amor-perfeito,
singeleza.

Palavra doce... açucarada,
palavra que nos retrata,
que é dengo, feitiço, desejo,
Amor a desenhar letra por letra...

Cecília

Tuesday, June 05, 2007

Fecho

Estou para encerrar meu caderno
Anos de poesia e descoberta
Viagens para dentro e caminho inverso
Expressão de tudo: da primavera
Ao mais rigoroso inverno.

Luz sombra
Vida ausência dela

Tudo menos ver a vida só da janela.
E você a permear todos os meus versos.
Amor: única certeza neste mundo incerto...

Cecília
Cabelos pretos
cabelos de seda
grudados na alma
na palma da minha mão.

Com eles brinco, os assopro,
deposito num envelope,
e dentro do meu coração.

Cabelos lustrosos
fetiche, amuleto, sorte,
ou apenas uma lembrança,
de quem escolhi pra gostar.

Não que eu queira me afastar.
Só quero brincar de tesouro,
poder esconder o meu ouro,
o curtir ...e nada mais...


Cecília Quadros

Tuesday, May 01, 2007

Sonho meu

Um terraço
Um ou muitos gatos
Cachorros, papagaio
Perfume de trepadeiras
Jasmim do cabo
Flores do campo nos canteiros
Para lembrar a infância,
Uma amoreira
Sala de tábuas largas
Lareira
Riso de crianças
Nos fins de semana
Cheiro de bolo assando
Livros nas mãos e nas prateleiras
Sons normais de uma casa
Plantas sendo aguadas
Alguém varrendo, movimento!
Jornal de manhã e pão quente
Mais tvs, dvds, computer,cd player.
Na cabeça Prozac, você ao meu lado
Assim dá para envelhecer contente...

Para Fauze

Cecília

Monday, April 30, 2007

CONTARDO CALLIGARIS

"Pecados Íntimos"
O filme, tocante e verdadeiro, é sobre como nosso desejo encalha e se solta
"PECADOS ÍNTIMOS", de Todd Field, estreou no dia 9 de fevereiro. Parecia ser mais um filme sobre a vida nos subúrbios americanos de classe média, tipo "Beleza Americana" (vencedor do Oscar em 2000), e fiquei com preguiça. Sempre acho um pouco fácil satirizar uma maneira de viver, como se o jeito da gente fosse o certo: "Aponto o vazio na vida dos outros para me convencer de que a minha é autêntica e plena".
Vários leitores me escreveram estranhando que não comentasse o filme. Graças a eles, assisti, enfim, a "Pecados Íntimos", que NÃO é um filme sobre a vida nos subúrbios americanos (a não ser que você considere que "Hamlet" é uma peça sobre a vida na corte da Dinamarca durante a Idade Média).
"Pecados Íntimos" é um filme tocante e verdadeiro sobre os caminhos forçados de nosso desejo e sobre como ele encalha (quase sempre) e se solta (aos trancos).
Quando ensinava "Cultural Studies" na New School, começava dizendo a meus estudantes que eles eram livres para tirar todas as notas
A que quisessem, mas, para entender a subjetividade moderna, eles teriam que passar por três letras B: Brummel, Byron e Bovary. Não era só uma piada de professor: as três figuras em questão, afinal, falam todas de nossa impossibilidade de conseguir, na vida, a nota máxima.
Um B já é de bom tamanho. Brummel (o primeiro dandy, no fim do século 18) lembra que a nobreza não é efeito do berço em que a gente nasce; ela é fruto da "elegância" (não tanto das maneiras e da roupa, mas do espírito). O hábito, na modernidade, faz o monge, e somos livres para escolhê-lo. Mas essa liberdade tem um custo: o desconforto de apenas parecer o que somos e, claro, a aflição de parecer o que não somos ou não queremos ser. O hábito faz e aprisiona o monge.
Byron (o poeta romântico) lembra que, na vida moderna, o que importa é a intensidade e a variedade de experiências. A fome de viver e o anseio de aventuras levam alguns a lutar pela independência da Grécia, a pular de skate quando mal sabem andar ou a perder-se nas sarjetas do mundo. E nos levam a sonhar com o que não ousamos empreender.
Emma Bovary (a heroína do romance de Flaubert) lembra que o amor é o grande operador moderno da mudança. Descobrimos que podíamos inventar nossa vida quando começamos a casar por amor (e não para preservar a casta, a família e o patrimônio). Portanto, esperamos do amor que ele nos transforme e nos leve para uma "outra" vida (e toda vida tem uma "outra" vida com a qual sonhar).
Numa cena de "Pecados Íntimos", "Madame Bovary" é comentado por um grupo de mulheres. Elas descobrem (a contragosto) que são todas, de um jeito ou de outro, Emma Bovary: inconformadas com sua vida e desejosas de um amor que as salve.
Mas "Pecados Íntimos" é mais que uma adaptação de "Madame Bovary": é um pequeno "tratado" da subjetividade moderna. Até porque, justamente, Emma Bovary sentia que ela era muito mais do que parecia pela "rotina" de sua vida. E seus sonhos de amor eram sonhos de experiência e aventura. Ou seja, os três "B" estão sempre juntos, dentro da gente.
Além disso, é difícil sair do cinema sem se perguntar por qual mistério somos condescendentes com nossas impulsões (o pedófilo e a protagonista não são os únicos que não sabem resistir às tentações) e, ao mesmo tempo, inertes quando se trata de mudar de vida. O desejo só consegue se expressar por sobressaltos. É como se, contra o nosso desejo, tivéssemos erigido um dique inútil: a água irrompe, forte, pelas pequenas falhas, mas sua massa não se transforma em energia para inventar a vida.
A incapacidade de mudar, aliás, é o grande tema do filme. Há a mãe do pedófilo, que espera que o filho se torne "normal", mas, olhe só, coleciona estatuetas de meninos. Há a mulher que não quer perder o marido, mas enfia o filho no meio da cama e vigia a vida do esposo como uma mãe. Há a mulher que morre de tédio e transa com o marido toda terça às 19h30, embora sonhe em conseguir o telefone de um bonitão.
Há o homem que cansou de ser babá do filho, mas, quando se trata de estudar para o exame da Ordem, passa as noites à toa.
O título original do filme é "Little Children" (criancinhas). Em matéria de desejo, somos todos criancinhas, incapazes de encontrar a coragem de fazer o que desejamos, mas sempre (e apenas) tentados por potes de geléia.



calligari@uol.com.br

Friday, April 20, 2007

Soneto XXII

Na sagração de instantes fugitivos
É mais profano o mencionar do eterno,
Pois homens e momentos são votivos,
Podem fazer florir solo de inverno.
Por ser divino o agora não regressa,
É ave, é nuvem, brisa, pressentir,
Arco-íris e relâmpago sem pressa,
Presença com destino de partir.
Este pobre momento que abençoa,
Devaneio e consciência do fugaz,
Já é aquela sensação que voa,
Algo de nós que não regressa mais.
Na paixão dos efêmeros amantes,
A volúvel cortina dos instantes

Paulo Bomfim

Amando (Canto da Lua)

Não sei viver o amor de forma tranqüila
Me inquietam as ausências, os silêncios, as partidas.
Até os encontros em meio a sobressaltos são vividos...
O susto de amar, de deixar de amar,
de ser só fruto de uma fantasia
ou apenas um momento dentro de uma vida...

O coração vai à boca
e só na solidão me acalmo
e me abandono a este prazer
(o prazer de amar), que é infinito...
“Canto da Lua ”
É lá que me refugio....

Cecília

Thursday, April 19, 2007

Poema da Procura

Em nenhuma esquina do teu bairro
Encontrarás o Domingo de tua infância
Povoada de pássaros e melodias.
Hoje, o céu é lamento das aves de metal,
e os realejos se converteram
Em sereias portadoras de cantos funestos.
Inutilmente recordarás
A sombra antiga das mangueiras
E os crepúsculos tranqüilos do mundo que perdeste.
Hoje, és o ser penetrado de ruídos,
E em redor de tua angústia
Desfilam máquinas estranhas
E a multidão de rostos que não reconheces...
Além do teu corpo sepultado entre blocos de pedra,
Há um anjo da morte em cada esquina do universo...

Paulo Bomfim

Monday, April 16, 2007

Seqüência ( E gira a roda....)

Até quando se suporta a eterna repetição das coisas,
- pela milésima e tanta vez estou diante da mesma praça -
a rotina e o pouco mais que dela escapa?
Quanto dura real envolvimento, prazer pleno, entusiasmo?
O que vale? Ou quanto valemos? Quanto tempo temos?
Quanto perdão, paciência, aceitação se tem que usar pela vida afora?
Quanto se disfarça, se aprimora, se perde, se desgasta?
A sensação é de que sempre falta tempo, real vontade, coragem
para encararmos com lucidez nossa passagem:
marcas que deixamos, um dia apagadas, ou de nós dissociadas,
tão rápido gira a roda, tragando gerações...tantas...
nos condenando ao mais completo anonimato...

Para meus distantes e desconhecidos antepassados

Cecília Quadros

Monday, April 09, 2007

Erotikós

Posso me romper a um simples toque
de seus dentes brancos,
inundando sua boca com o doce fluído
de que sou feita, néctar dos deuses.
E vou: deixando desejo, doçura de beijo,
despertando sua gula, vontade e sensualidade.
Ah! desejo para mim voltado...
Como o retribuo! Me mostro só sua,
sou puro açucar, sou mais do que mel.
Seu céu eu alcanço, em sua língua descanso,
e depois... escorro por sua garganta...

Cecília Quadros

Tuesday, April 03, 2007

A Vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés d'alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo"Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo d'onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem dum dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a Vida!...

Florbela Espanca

Saturday, March 31, 2007

Antecipação

Era um domingo, como tantos outros, família reunida na casa de meus pais: os próprios, as três filhas, genros e netos. O único filho varão morava nesse tempo no interior, e por isso raramente estava presente nessas reuniões de domingo com a respectiva família.
Já havíamos almoçado, comida de restaurante, pois era folga da empregada e nossa mãe, que tudo dirigia, como um maestro à frente de sua orquestra, já havia nos convocado para arrumar a cozinha. E o fizemos, trabalhando como formiguinhas...
De vez em quando uma criança se aproximava:
- Vó, tem uma balinha?
- Na gaveta do armário, meu filho, pode pegar, mas ofereça para os outros também.
Eu e minhas irmãs não éramos radicais e entendíamos o carinho da avó. Naqueles dias podia tudo: refrigerantes, balas, um tanto de travessura, que sempre terminava com a intervenção do avô, tido como bravo, ou dos pais, zelando para que não perturbassem demais o sossego dos avós, já com certa idade. Primos reunidos nos domingos... O que esperar?
Depois da cozinha arrumada, era ficar na sala de estar com um olho no jornal, outro nas crianças, nos distraindo em boa companhia .
Na hora do cafezinho, púnhamos a conversa em dia.Quando terá sido o diálogo que se segue?
- Estou tendo aulas de piano com a vizinha, diz Helina
- Mãe, não me acostumo no apartamento novo. Me sinto como numa gaiola de ouro( agora é a vez da Cecília).
- O Jorge Alberto tem talento para a música e gosta de ouvir comigo os clássicos (mamãe falando)
- Cecília, a Carolina precisa aparar os cabelos. Está uma Maria Madalena...(ainda ela)
E por aí ia...
Às vezes o barulho das crianças se tornava insuportável, devido ao brinquedo da moda, o velotrol, que todas tinham e ficavam guardados na garagem da casa. Que fazer se em nossos apartamentos não havia espaço para eles?
Eram assim nossos domingos e não nos ocorria vivê-los de forma diferente. Para o cinema, teatro, encontro com amigos, havia todos os outros dias...
Naquele domingo, acima referido, estava eu ensimesmada, mais observando do que participando do movimento da casa, tudo vendo como um filme, quando me baixou uma tristeza infinita, consciência aguda da transitoriedade da vida. Até quando teríamos esses domingos? O tempo por certo tudo modificaria: meus pais tinham idade, quanto mais viveriam? As crianças cresceriam e não mais se conformariam com essa rotina. E nós, nossa saúde, harmonia, nada era garantido.
Contive as lágrimas fui para o lavabo e lá as deixei rolar livremente.
Depois:
- Cecília, você chorou? Seus olhos estão vermelhos.
- Não, mãe, por que motivo?
Para que angustiá-la com uma dor, que poderia lhe ocorrer a qualquer momento, mas que naquele instante era minha? Para que desassossegar os que tanto amava falando de finitude, mudanças indesejáveis, mas inevitáveis, da dor no peito, da pontada?
Acho que atribuí a vermelhidão do olhos às minhas lentes, ou a algum pequeno desentendimento durante a semana que findara.
Não sei se os enganei. Eu era mesmo tida como sensível, “manteiga derretida”...
Fui deixada no meu canto sossegada, sofrendo silenciosamente por antecipação as mudanças que viriam. E vieram. Primeiro foi meu pai que partiu, o que levou minha mãe a se mudar para um pequeno apartamento. Depois ela se foi e em seguida o meu cunhado, ainda novo.
A casa foi vendida, assim como o apartamento na praia, onde a família também se reunia alegremente.
Tantas mudanças pressentidas e sofridas naquela tarde, tão igual às outras...
Coisas, que só a alma explica...

Cecília

Tuesday, March 06, 2007

O céu indiferente ao nosso destino

Que estranho!
Nuvens brancas em teu azul estão vagando,
qual bando de ovelhas na visão de uma criança,
a sugerir grandeza, calma, confiança,
algodão doce, espumas flutuantes.

À noite vejo em ti estrelas,
e a lua, que é mais bela quando cheia.
Muitas vezes tua indiferença me assusta..
Por que te recusas a vestir o nosso luto?
Tanta luz, tanta claridade, quando minha alma
se encontra assim, tão desamparada?

Cecília

Sunday, February 25, 2007

Não te amei
Amei uma imagem
Refletida num espelho
Era eu mesma
Mas te devo
O olhar iluminado
O sorriso largo
A beleza dos apaixonados
O desejo
Fantasia por ti despertada?
Não importa
Mesmo assim penso que te devo
Amei
a sensação de amar
- Passageira -
Mas sobretudo
aquela imagem minha,
refletida no espelho...

Cecília Quadros

Friday, February 16, 2007

O Poema

Um poema como um gole dágua bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre
na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa
condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

Mario Quintana

Monday, February 12, 2007

Paisagem pela câmera captada




Céu, primeiro te descrevo:
vários tons de azul brilhando entre nuvens.
Logo abaixo o mar.
Não mais o azul estático:
mais escuro, profundo, em movimento.
E a onda avançando: branca, brava,
desafiando o menino moreno, calção vermelho,
que a mede, encara, se prepara:
ou dá um impulso, com ela salta,
arrisca um “caldo”e se rala na areia,
ou a “fura”: braços estendidos, mãos unidas,
como um nadador experiente,
homem do mar, valente...
Espuma e areia no raso, quase completam o quadro.
Um pouco mais abaixo, uma faixa de praia
de um bege molhado, é quase nada
neste espetáculo de céu, nuvens,
menino e água, num final de tarde...

Para Felipe

9-2-07

Thursday, February 08, 2007

Deixemos...

Deixemos que o tempo voe
que a lágrima escorra
o corpo se encolha
que as pedras rolem
as cores desbotem
que o céu se tinja de rosa
as rosas murchem
que o passar do tempo nos assuste
e os sonhos jamais se realizem;
que se abandonem os planos
se deixe para lá desenganos
que os fortes vençam
ou a vida o destino, Deus
ou seja lá o que encontremos pela frente.

Deixemos que tudo
ou nada aconteça
que meu amor feneça
você me esqueça
que o céu se turve
ou o brilho do sol nos ofusque
nos faça perder o rumo
neste estranho mundo de luz, sombra,
ódio, amor e amargura...

Cecília Quadros

VII (Da morte, Odes Mínimas)

Perderás de mim
Todas as horas

Porque só me tomarás
A uma determinada hora

E talvez venhas
Num instante de vazio
E insipidez.
Imagina-te o que perderás
Eu que vivi no vermelho
Porque poeta, e caminhei
A chama dos caminhos

Atravessei o sol
Toquei o muro de dentro
Dos amigos

A boca nos sentimentos

E fui tomada, ferida
de malassombros, de gozo

Morte, imagina-te


Hilda Hilst

Wednesday, February 07, 2007

De tudo quanto amamos

De tudo quanto amamos o que resta,
O riso desbotado dos retratos,
A talagarça dos momentos gratos
Ou a tristeza desse fim de festa?

Ficou por certo a ruga em nossa testa
Inventariando feitos e relatos,
E vozes e perfis somando fatos,
E a desfocada imagem da seresta.

E tudo o fogo afaga em canto findo,
Este porque de coisas devolutas,
E o tempo nômade que foi partindo.

Ficou de quanto amamos nos escolhos
A restinga das horas dissolutas,
E o mar aprisionado em nossos olhos!

Paulo Bomfim

Voltei

Deixei minha camisola sob o travesseiro,
o livro de versos na mesma prateleira,
e é como se nunca tivesse partido.
Não quebrei todos os laços,
preservei o meu espaço,
só não estou mais dividida.

Quero diante do espelho,
me ver inteiramente nua,
esquadrinhando meu rosto,
analisando meu corpo,
atrás das marcas da vida,
e daquela paixão ... finita,
que foi céu, inferno, estorvo.

Despida a veste bonita,
tal qual vestido de noiva,
fica a mulher, mãe, esposa,
e a poesia, sem asas, sem vôos.

Cecília Quadros

Friday, February 02, 2007

Ainda és
Ainda estás
Subjugas minha vontade
Revolves meu coração
Reviras a minha vida
Assim da noite pro dia
Basta que um sonho impossível
Indesejável, intrometido

Te traga – impositivo -
me deixando outra vez vencida
inquieta, amargurada,
Presa da antiga emoção

Sim, és
Dono, senhor
De espaço tão almejado
Que, ai de mim, não domino
Pois não o alcança a razão

Sim...
Ainda vives colado
Em meu incoerente,
Desgraçado coração...

Cecília

Thursday, February 01, 2007

Tenho gana de vida
Se adoeço, me trato
Se caio, me levanto rápido
Se a tristeza me prende, escapo
Não me importam as muletas,
desde que suportem meu peso
pois liberam minha alma,
deixando-a inteira,
livre para a felicidade.
Venço desânimo, distância,
tudo , em nome da afinidade...
Vivo o dia de hoje
não por desapego ao passado,
desencanto ou desesperança.
Só não quero desperdício,
jogar fora um momento
sequer da minha vida.
E assim vou levando,
mais do que sendo levada:
vivendo meu tempo, meu momento,
minha hora...que de resto,
queira ou não queira,
um dia vou ter que ir embora.
Passo eu, passa a vida,
e tudo o que se foi,
não será senão história...

Cecília

IX

Um galopar de sombras e novelos
deixam fugir a luz e seus delírios.
Há um garimpar de estrelas nos cabelos
Da treva que se deita sobre os lírios...
No peito esses dormidos corações
Inda batem de amor, e o sangue corre
Por veias que alimentam solidões
E artérias naufragando em céu que morre.
Galopam sensações que só pervagam
Em bairros de saudade e finitudes,
As doidas sonatinas hoje vagam
Nos portos onde aportam os alaúdes.
Um vira-mundo vira o sol e a lua:
Que desejo de paz na noite nua!

Paulo Bomfim

Coração Inquieto

O peso deste amor me esmaga.
Às vezes, alma penada,
quero vagar por outros mundos,
outros mares, outros amores;
habitar outros ninhos, viver outras vidas,
não necessariamente mais felizes.
Coração inquieto, coração de poeta.

Cecília Quadros

Wednesday, January 31, 2007

Em terra árida não nascem flores
Estações se sucedem
E a despeito da rega,
Não se tem nenhum retorno.
A aridez contamina
E a alma se vê...
Vazia de ardores, amores
Perde-se o sentido da vida
E tudo é cinza, sem cores...

Cecília
cabelos pretos
cabelos de seda,
grudados na alma,
na palma da minha mão

com eles brinco, os assopro,
deposito num envelope,
e dentro do meu coração.

cabelos lustrosos
fetiche, amuleto, sorte,
ou apenas uma lembrança,
de quem escolhi pra gostar.

Não que eu queira me afastar.
Só quero brincar de tesouro,
poder esconder o meu ouro,
o curtir ...e nada mais...

Cecília

Tuesday, January 30, 2007

Solidão

Sou tão tu, és tão eu
que te parece
a solidão a minha companhia;
minha voz é tua idéia em melodia;
meu gesto teu desejo em atitude;
se o amor não nos tornou
a ambos perfeitos,
adquiriste todos meus defeitos,
cheguei a assimilar tua virtude.

Sou tão tu, és tão eu que, inutilmente,
procuro uma aparência diferente
para atrair teu ausente olhar:
Teus olhos me olham
para além de minha forma
e estão exautos
de minha alma contemplar.

Sou tão tu,
és tão eu,
de tal maneira
do afeto o mimetismo nos iguala,
que é uma inutilidade
nossa fala,
e em vão,
tentamos a conversação:
ouvimos mutuamente o pensamento,
não nos restando para tanto tédio,
o supremo remédio
da traição.

Sou tão tu,
És tão eu,
sinto-te preso
a mim
como a alma à carne,
a idéia à mente,
preso, mas numa ausência de desprezo.

Sou tão tu, és tão eu,
somos iguais
de tal maneira,
que já nem percebes,
quando vens para mim,
quando de mim te vais.

Nossas horas de união
se fizeram tão tristes
que a elas me vem a sensação do nada,
que às vezes tão angustiada,
quisera ser por ti brutalmente espancada;
quisera te ferir
para saber se existes.

Oh! tortura do sonho realizado!
Assim juntos estamos tão sozinhos,
como se nunca
nos houvéssemos
encontrado.

Gilka Machado

Grito

Grito
Num rompante
Vindo do fundo da garganta
De revolta, impotência e ira
Até então reprimidas.

Grito doído
Da alma partindo
Depois... o alívio
Emoções novamente contidas
Até o próximo grito...

Cecília

Wednesday, January 10, 2007

Sem título

Não merecemos nos intitular artistas:
ignoramos o valor daquele brilho em nosso espírito.
Não merecemos nos considerar poetas:
nossos versos têm quimeras, não entrega.
Somos tão cheios de reservas...
Somos falsos poetas.
Não buscamos plenitude, completude.
Passamos incólumes por este deserto.
Ignoramos sede e fome:
de viver - sabes o que quero dizer.
E vivemoas tão bem aqui, plantados no chão.
E que se dane a paixão!...

Cecília Quadros

Busca em tempo de soneto

Eu valsava, você valsava.
Você bailava, eu bailava.
Nossas mãos dadas apertadas.
E a roda girava... girava...

Tempo triste veio então
de sentir inúbil frouxidão.
Desataram-se assim as mãos
e nos perdemos na multidão.

E foi uma busca insensata
a que somente a vista não basta,
quando o laço do sonho se desata.

E foi tanta perda sentida,
na intensa busca sofrida,
das nossas almas feridas...

Elvio Santiago

Monday, January 08, 2007

Saudade de você

Semelhança

Ciumento e zeloso da nova emoção,
guarda-a o coração só para si.
Não precisa entender nada:
tantos são na vida os descompassos,
que reage, ignorando desigualdades
existentes só além dos templos
onde os homens se reconhecem
e se enamoram (seus próprios corações)

Então o novo afeto comemora,
E não há no mundo o que o segure
tanta é a liberdade de que goza...

O bem-estar encontra no estar só,
no expressar em versos sua ternura,
celebração de emoção inesperada e pura,
despertada pela semelhança no sonhar
e no jeito apaixonado de viver a vida...

Para Rodrigo

Que será que será?

FERREIRA GULLAR



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Confesso que ainda me pergunto o que levou à vitória de Lula e à sua crescente popularidade
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NÃO SOU cronista político e, por isso, não me sinto obrigado a comentar, a cada semana, o que ocorre com o governo, com o Congresso, com as leis que foram votadas ou não. Mas isso não me impede de pensar sobre tais problemas e tentar entender o que ocorre no país e, sobretudo, o que nos espera.
Confesso que até hoje me pergunto que fatores determinaram a vitória de Lula, reeleito com mais de 58 milhões de votos. E mais: o aumento de sua popularidade, menos de um mês após a eleição, sem que nada tenha feito a não ser jurar que vai fazer o país crescer 5% em 2007. Não apresentou um programa que garanta isso, não apresentou plano de governo nenhum para este mandato e, não obstante, cresce seu prestígio na opinião pública. Por quê?
Os números indicam que a maioria dos eleitores de Lula está no Nordeste e no Norte, regiões em que vive a maior parte da população pobre do país e onde houve maior investimento do Bolsa Família. Isso, sem dúvida, pesou no resultado eleitoral, como pesaram o aumento do salário mínimo, o empréstimo consignado e outras benesses com que ele adoçou a boca de muita gente país afora. A verdade, porém, é que essas medidas não foram suficientes para lhe dar a vitória no primeiro turno. Qual foi, então, o fator que o fez crescer no segundo turno, e Alckmin, que vinha em ascensão, cair?
Lembremos que, se o escândalo do dossiê influiu no resultado do primeiro turno, favorecendo Alckmin, não poderia ter efeito contrário ou nulo no segundo, uma vez que nenhuma explicação havia sido dada acerca da origem do dinheiro. Então por que Lula cresceu e Alckmin caiu? O elemento novo introduzido na disputa eleitoral, como se sabe, foi a privatização. No último debate na TV, Lula acusou o adversário de pretender privatizar a Petrobras e o Banco do Brasil, sem que tal afirmação tivesse o menor fundamento. Alckmin denunciou a mentira, e Lula, na mesma hora, admitiu: "Se vocês privatizaram tudo, certamente vão privatizar o resto". Era a confissão de que se tratava de um golpe eleitoreiro. Apesar disso, a partir de então, a campanha de Lula na TV passou a afirmar que Alckmin significava uma ameaça concreta de privatização do BB, da Petrobras e da Caixa Econômica. Desse argumento necessitavam uma parte da esquerda (para reconciliar-se com Lula) e os militantes do PT, que só então se animaram a sair às ruas. Tratava-se agora de defender a "soberania nacional" e, diante de tarefa tão patriótica, que importância tinham o mensalão, o valerioduto, o dossiê fajuto?
Claro, todos os lulistas sabiam que a ameaça de privatização não existia, mas havia ali um fator em que realmente acreditavam: a necessidade de imprimir à economia brasileira um outro rumo, em que o Estado tenha o controle de todo o processo econômico. Um Estado anti-capitalista? Talvez...
Se alguém sonha com isso, sonha em vão. Mas sonho é sonho, não precisa de viabilidade comprovada, especialmente quando a ele se juntam elementos que, se oníricos não são, nutrem-se de fatores subjetivos, como os ressentimentos decorrentes da desigualdade social -que efetivamente existe-, e são, com freqüência, politicamente manipulados.
Possivelmente, é por aí que se explica a crença de que Lula, agora, encarna as verdadeiras aspirações populares, dando aos pobres o que eles nunca tiveram e aos capitalistas o castigo que merecem. Se conseguirá satisfazer tais expectativas, não sei, mas que se considera o salvador da pátria, não resta dúvida. Basta ouvi-lo: "Eles em cinco séculos não consertaram o Brasil e querem que eu faça isso em quatro anos". Lula, primeiro e único...
Sucede que a realidade não se deixa subornar e, por isso, ele é obrigado a dizer que manterá a política de superávit primário e juros altos. Mas, ao mesmo tempo, afirma que não vai "fazer contenção em cima dos pobres" e aumenta o salário mínimo para R$ 380. Como crescer ampliando o déficit da Previdência e o custo dos programas sociais? É uma saia justa: se não atende às reivindicações da maioria pobre, teme perder a popularidade; se não cria condições para o investimento privado na produção, corre o risco de sair de cena sem exibir o espetáculo do crescimento. Já se sabe que o corte de impostos para estimular o investimento privado, calculado em 12 bilhões de reais, caiu para 8 bilhões.
Lula talvez enfrente uma situação chaveziana: depois de experimentar a pompa e as delícias do poder, ter que voltar para casa, em São Bernardo, achando que lhe deram pouco tempo para salvar o Brasil.