Domingo, Fevereiro 26, 2012O ''Retrato de Adele'' conta uma época - ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 26/02/12
Boa notícia para quem se encantou com o livro "A Lebre com Olhos de Âmbar", de Edmund de Waal, publicado há alguns meses no Brasil. Saiu nos Estados Unidos "The Lady in Gold" ("A Mulher Dourada - A história extraordinária da obra-prima de Gustav Klimt, o retrato de Adele Bloch-Bauer"), da jornalista Anne Marie O''Connor. O e-book sai por US$ 15,99.
A partir do destino de uma coleção de 264 pequenas esculturas japonesas, De Waal contou a história de sua família, a dos banqueiros judeus Ephrussi. Elas foram reunidas em Paris, guardadas em Viena, voaram para Tóquio e estão em Londres. Os Ephrussi perderam tudo o que tinham no confisco nazista, quando a Áustria, em êxtase ariano, foi anexada pelo Reich. A pedido do arcebispo de Viena, os sinos da cidade repicaram, saudando as tropas alemãs.
"A lebre" evitou o tom de indignação diante do antissemitismo e do Holocausto.
É um livro da alma, sem fígado. Mostra os Ephrussi no esplendor de Paris e Viena e na desgraça europeia da guerra. Contando a história do retrato de Adele Bloch-Bauer, O''Connor tomou o caminho oposto. Pisou firme na denúncia do antissemitismo que matou 65 mil judeus austríacos. Expôs os governos do pós-guerra, numa briga que só acabou em 2006.
Adele era mulher de um barão do açúcar, e Klimt pintou-a três vezes. Provavelmente namoraram. Um dos retratos, de 1907, com um fundo dourado em delírio bizantino, é uma das maiores obras de arte do século XX. Como os Ephrussi, os Bloch-Bauer foram depenados. O retrato, rebatizado como "Mulher em dourado", foi para um museu austríaco. Quando a guerra terminou, o novo governo desestimulou as reparações individuais das famílias de judeus espoliados e criou um sistema de devolução de obras de arte que apenas dissimulava a extorsão.
Esqueceram-se de uma sobrinha de Adele que fugira para os Estados Unidos e tinha uma loja de roupas em Los Angeles. Ao contrário dos Ephrussi, que receberam ninharias, Maria Altmann resolveu brigar. Estimulada por um repórter austríaco, conseguiu a ajuda de um jovem advogado, neto do compositor Schoenberg. Enfrentou a burocracia cultural e diplomática da Áustria, que se recusava a devolver o retrato de Adele e outros quatro quadros roubados da casa de sua tia. Seu litígio parecia risível, até que o advogado bateu à porta da Corte Suprema dos Estados Unidos e teve reconhecido o seu direito. Em 2006, humilhado, o governo da Áustria aceitou uma arbitragem e devolveu as obras. O "Retrato de Adele" foi comprado por US$ 135 milhões e hoje está na Neue Gallery, na esquina da Rua 86 com a Quinta Avenida, a poucos quarteirões do museu Metropolitan. Os outros quatro quadros foram a leilão e não se sabe quem os arrematou. Um deles, um retrato de Adele pintado em 1912, nunca mais foi mostrado. Quando os austríacos lamentaram que os quadros deixassem o país, Maria Altmann foi à forra: "Eles ficaram lá 68 anos, poderiam comprá-los". Os cinco herdeiros de Adele receberam cerca de US$ 300 milhões, e US$ 96 milhões foram para o advogado Rudolf Schoenberg.
Adele morreu de meningite em 1925, sem deixar filhos. Seu marido acabou-se num quarto de hotel em 1945, na Suíça. O tio foi fuzilado pelos comunistas na Iugoslávia. A tia foi para o Canadá, e sua filha conheceu num jantar um jovem alemão que, aos 15 anos, fugira do Exército Vermelho, lavara pratos num hotel de Vancouver e conseguira um emprego como motorista de cargas. Era o príncipe Auersperg, de uma dinastia cuja linhagem remonta ao século XI. Casaram-se. Hoje a princesa é uma renomada cancerologista. Maria Altmann morreu no ano passado, aos 94 anos.
Para os admiradores da "Lebre com olhos de âmbar": o quadro de duas meninas, filhas do banqueiro francês Cahen d''Anvers, que Charles Ephrussi negociou com Renoir, está no Masp. Elisabeth, a menina do vestido azul, convertera-se ao catolicismo e vivia na França. Em 1944, foi colocada num trem com destino a Auschwitz. Morreu no caminho.
Cecília
Monday, March 05, 2012
Wednesday, January 18, 2012
O que eles e elas querem
Mirian Goldemberg
Falta de compreensão e de escuta carinhosa parecem explicar boa parte da infelicidade nas relações amorosas
Homens querem compreensão, carinho, cuidado.
Um engenheiro, de 59 anos, diz: "Minha mulher vive dizendo que sou imaturo, que quero uma mãe, não uma mulher. As amigas dela dizem a mesma coisa de todos os homens. O engraçado é que nunca ouvi um só homem dizer que quer uma mãe.
E elas nunca perguntaram para mim o que eu quero. Elas mesmas decidiram: homens querem mãe. Ponto final!".
Ele continua: "Elas dizem que não gostamos de discutir a relação. Mas como dá para discutir se elas já nos rotularam como bebês carentes? Elas se sentem superiores e acham que podem dizer o que é certo e errado em termos de de maturidade, de afeto".
Eles dizem que querem uma mulher que os amem exatamente como são. Não alguém que critique o tempo todo e queira mudar tudo neles: da roupa que usam até as brincadeiras e piadas que gostam de fazer com os amigos. Perguntam: por que elas não aceitam que os homens são diferentes? Por que se acham melhores do que nós?
Mulheres querem reconhecimento, escuta, intimidade, visibilidade, sentirem-se únicas, inesquecíveis.
Uma professora, de 55 anos, diz: "Eu quero me sentir especial, ser escutada com atenção, ser amada mesmo gordinha, com rugas e celulite. Quero sentir que sou a mulher mais gostosa do mundo para o meu marido".
E acrescenta: "Quero que, para ele, e só para ele, eu seja a única mulher do mundo, que ele não se interesse por mais ninguém. Morro de inveja de mulheres que não trabalham e às quais o marido dá um cartão de crédito sem limite. Quer maior prova de amor? Mulheres que não são jovens ou bonitas, mas são tratadas como princesas".
Elas dizem que sentem falta de que eles as admirem, desejem, respeitem e valorizem. Sentem-se invisíveis ou ignoradas no meio de mulheres que eles consideram mais interessantes, desejáveis ou "leves". Querem ser a mulher mais importante na vida deles. E ainda perguntam: "É querer muito?"
Homens e mulheres estão extremamente infelizes em suas relações amorosas. Mas não querem ficar sozinhos. São reincidentes: casam, separam, casam de novo, separam de novo...
A falta de compreensão e de escuta parece explicar grande parte das insatisfações masculinas e femininas.
Parece tão simples, mas que tal perguntar para o outro o que ele realmente quer? E ouvir com atenção e carinho a resposta, sem julgar, rotular e condenar?
Falta de compreensão e de escuta carinhosa parecem explicar boa parte da infelicidade nas relações amorosas
Homens querem compreensão, carinho, cuidado.
Um engenheiro, de 59 anos, diz: "Minha mulher vive dizendo que sou imaturo, que quero uma mãe, não uma mulher. As amigas dela dizem a mesma coisa de todos os homens. O engraçado é que nunca ouvi um só homem dizer que quer uma mãe.
E elas nunca perguntaram para mim o que eu quero. Elas mesmas decidiram: homens querem mãe. Ponto final!".
Ele continua: "Elas dizem que não gostamos de discutir a relação. Mas como dá para discutir se elas já nos rotularam como bebês carentes? Elas se sentem superiores e acham que podem dizer o que é certo e errado em termos de de maturidade, de afeto".
Eles dizem que querem uma mulher que os amem exatamente como são. Não alguém que critique o tempo todo e queira mudar tudo neles: da roupa que usam até as brincadeiras e piadas que gostam de fazer com os amigos. Perguntam: por que elas não aceitam que os homens são diferentes? Por que se acham melhores do que nós?
Mulheres querem reconhecimento, escuta, intimidade, visibilidade, sentirem-se únicas, inesquecíveis.
Uma professora, de 55 anos, diz: "Eu quero me sentir especial, ser escutada com atenção, ser amada mesmo gordinha, com rugas e celulite. Quero sentir que sou a mulher mais gostosa do mundo para o meu marido".
E acrescenta: "Quero que, para ele, e só para ele, eu seja a única mulher do mundo, que ele não se interesse por mais ninguém. Morro de inveja de mulheres que não trabalham e às quais o marido dá um cartão de crédito sem limite. Quer maior prova de amor? Mulheres que não são jovens ou bonitas, mas são tratadas como princesas".
Elas dizem que sentem falta de que eles as admirem, desejem, respeitem e valorizem. Sentem-se invisíveis ou ignoradas no meio de mulheres que eles consideram mais interessantes, desejáveis ou "leves". Querem ser a mulher mais importante na vida deles. E ainda perguntam: "É querer muito?"
Homens e mulheres estão extremamente infelizes em suas relações amorosas. Mas não querem ficar sozinhos. São reincidentes: casam, separam, casam de novo, separam de novo...
A falta de compreensão e de escuta parece explicar grande parte das insatisfações masculinas e femininas.
Parece tão simples, mas que tal perguntar para o outro o que ele realmente quer? E ouvir com atenção e carinho a resposta, sem julgar, rotular e condenar?
Friday, January 06, 2012
Retrato de Ana
Ana mãe
Ana filha
Ana só
Ana que se destaca sozinha
Ana de cabelos escuros e olhos expressivos
Ana bonita: rosto em pedra e nuvem esculpido
Ana forte, Ana frágil, Ana perdida
... também contida
Um enigma
Ana que ama...mas que é triste...
Cecília
05/01/2012
Ana filha
Ana só
Ana que se destaca sozinha
Ana de cabelos escuros e olhos expressivos
Ana bonita: rosto em pedra e nuvem esculpido
Ana forte, Ana frágil, Ana perdida
... também contida
Um enigma
Ana que ama...mas que é triste...
Cecília
05/01/2012
Thursday, December 08, 2011
Pentimentos
Contardo Calligaris
Sonhamos com escolhas passadas alternativas, que teriam nos levado a um presente diferente
"Pentimento" é a palavra italiana para arrependimento, mas designa (em muitas línguas) uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final de um quadro.
Às vezes, com o passar do tempo, a tinta deixa transparecer uma composição em cima da qual o artista pintou uma nova versão.
Outras vezes, os raios-x dos restauradores desvendam opções anteriores, que permaneceram debaixo da obra final. Esses esboços ou pinturas, que o artista rejeitou e encobriu, são os pentimentos, que foram descartados sem ser propriamente apagados.
Visível ou não, o pentimento faz parte do quadro, assim como fazem parte da nossa vida muitas tentações e muitos projetos dos quais desistimos. São restos do passado que, escondidos e não apagados, transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que, mesmo assim, integram a nossa história.
Pensei nisso assistindo a "Um Dia", de Lone Scherfig, que estreou na sexta passada. O filme é a adaptação do romance homônimo de David Nicholls (Intrínseca), que foi uma das leituras que mais me tocaram neste ano e que já comentei brevemente na coluna de 21 de julho.
O livro e o filme (cujo roteiro é do próprio Nicholls) contam a história de Emma e Dexter, que são unidos pelo pentimento: cada um deles é o grande pentimento do outro -ou seja, ao longo dos anos, cada um é, para o outro, a lembrança de que um outro destino teria sido possível.
Reflexões, saindo do cinema:
1) Nossas vidas são abarrotadas de caminhos que deixamos de pegar; são todos pentimentos, mais ou menos encobertos: histórias que não se realizaram. Por que não se realizaram? Em geral, pensamos que nos faltou a coragem: não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance. E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo.
Emma e Dexter, por exemplo, ficam cada um como pentimento do outro porque nenhum dos dois consegue renunciar à sua insegurança (que é, aliás, o que os torna tão tocantes e parecidos com a gente): ela morrendo de medo de ser rejeitada, e ele, sedento de aprovação, fama e sucesso.
2) O problema dos pentimentos é que eles esvaziam a vida que temos. O passado que não se realizou funciona como a miragem da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha "certa". Diante disso, de que adianta qualquer experiência presente? Emma e Dexter, por exemplo, são condenados a fracassos amorosos pela própria importância de seu pentimento.
3) Nem sempre os pentimentos são bons conselheiros -até porque, às vezes, eles são falsos (esse, obviamente, não é o caso de Emma e Dexter). Hoje, é fácil esbarrar em espectros do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais. Graças às redes, uma história que foi realmente apagada da memória (não apenas encoberta) pode renascer como se representasse uma grande potencialidade à qual teríamos renunciado.
No reencontro, um namorico da adolescência, insignificante e esquecido, transforma-se em (falso) pentimento, ou seja, numa aventura que poderia ter aberto para nós as portas do paraíso (onde ainda estaríamos agora, se tivéssemos ousado trilhar esse caminho).
Quando examino as fotos de minhas turmas do colégio, sempre fico com a impressão de que deixei amizades e amores inacabados ou nem começados, mas que teriam revolucionado meu futuro. É como se me perguntasse "Quem era minha Emma? Para quem eu era o Dexter?", fantasiando pentimentos de relações que nunca existiram.
Somos perigosamente nostálgicos de escolhas passadas alternativas, que teriam nos levado a um presente diferente. Se essas escolhas não existiram, somos capazes de inventá-las -e de vivê-las como pentimentos.
Avisos: os pentimentos não são necessariamente recíprocos, e os falsos pentimentos, revisitados, são pequenas receitas para o desastre.
Sonhamos com escolhas passadas alternativas, que teriam nos levado a um presente diferente
"Pentimento" é a palavra italiana para arrependimento, mas designa (em muitas línguas) uma pintura, um desenho ou um esboço encoberto pela versão final de um quadro.
Às vezes, com o passar do tempo, a tinta deixa transparecer uma composição em cima da qual o artista pintou uma nova versão.
Outras vezes, os raios-x dos restauradores desvendam opções anteriores, que permaneceram debaixo da obra final. Esses esboços ou pinturas, que o artista rejeitou e encobriu, são os pentimentos, que foram descartados sem ser propriamente apagados.
Visível ou não, o pentimento faz parte do quadro, assim como fazem parte da nossa vida muitas tentações e muitos projetos dos quais desistimos. São restos do passado que, escondidos e não apagados, transparecem no presente, como potencialidades que não foram realizadas, mas que, mesmo assim, integram a nossa história.
Pensei nisso assistindo a "Um Dia", de Lone Scherfig, que estreou na sexta passada. O filme é a adaptação do romance homônimo de David Nicholls (Intrínseca), que foi uma das leituras que mais me tocaram neste ano e que já comentei brevemente na coluna de 21 de julho.
O livro e o filme (cujo roteiro é do próprio Nicholls) contam a história de Emma e Dexter, que são unidos pelo pentimento: cada um deles é o grande pentimento do outro -ou seja, ao longo dos anos, cada um é, para o outro, a lembrança de que um outro destino teria sido possível.
Reflexões, saindo do cinema:
1) Nossas vidas são abarrotadas de caminhos que deixamos de pegar; são todos pentimentos, mais ou menos encobertos: histórias que não se realizaram. Por que não se realizaram? Em geral, pensamos que nos faltou a coragem: não soubemos renunciar às coisas das quais era necessário abdicar para que outras escolhas tivessem uma chance. E é verdade que, quase sempre, desistimos de desejos, paixões e sonhos porque custamos a aceitar que nada se realiza sem perdas: por não querermos perder nada, acabamos perdendo tudo.
Emma e Dexter, por exemplo, ficam cada um como pentimento do outro porque nenhum dos dois consegue renunciar à sua insegurança (que é, aliás, o que os torna tão tocantes e parecidos com a gente): ela morrendo de medo de ser rejeitada, e ele, sedento de aprovação, fama e sucesso.
2) O problema dos pentimentos é que eles esvaziam a vida que temos. O passado que não se realizou funciona como a miragem da felicidade que teria sido possível se tivéssemos feito a escolha "certa". Diante disso, de que adianta qualquer experiência presente? Emma e Dexter, por exemplo, são condenados a fracassos amorosos pela própria importância de seu pentimento.
3) Nem sempre os pentimentos são bons conselheiros -até porque, às vezes, eles são falsos (esse, obviamente, não é o caso de Emma e Dexter). Hoje, é fácil esbarrar em espectros do passado: as redes sociais proporcionam reencontros improváveis e, com isso, criam pentimentos artificiais. Graças às redes, uma história que foi realmente apagada da memória (não apenas encoberta) pode renascer como se representasse uma grande potencialidade à qual teríamos renunciado.
No reencontro, um namorico da adolescência, insignificante e esquecido, transforma-se em (falso) pentimento, ou seja, numa aventura que poderia ter aberto para nós as portas do paraíso (onde ainda estaríamos agora, se tivéssemos ousado trilhar esse caminho).
Quando examino as fotos de minhas turmas do colégio, sempre fico com a impressão de que deixei amizades e amores inacabados ou nem começados, mas que teriam revolucionado meu futuro. É como se me perguntasse "Quem era minha Emma? Para quem eu era o Dexter?", fantasiando pentimentos de relações que nunca existiram.
Somos perigosamente nostálgicos de escolhas passadas alternativas, que teriam nos levado a um presente diferente. Se essas escolhas não existiram, somos capazes de inventá-las -e de vivê-las como pentimentos.
Avisos: os pentimentos não são necessariamente recíprocos, e os falsos pentimentos, revisitados, são pequenas receitas para o desastre.
Monday, December 05, 2011
Melhor idade?
Talvez seja isso envelhecer
Não ter sonhos e não dar a mínima por não tê-los
Sentir um peso que doença nenhuma justifica
Ter pensamentos tristes
Esperar que alguém chegue, trazendo luz e alegria
Por que alguém? Não se pode sair sozinho da letargia?
Talvez sim, mas a felicidade tornou-se fugidia... distante.
Luta insana, desigual, a exigir empenho, pouco descanso,
que a tristeza pega,ou lembranças(tristes lembranças).
Preencher o tempo numa Felicidade sem sonhos:
É este o desafio, coisa para gente grande:
Sem o olhar pra frente, um esforço que não tem tamanho...
Cecília
Não ter sonhos e não dar a mínima por não tê-los
Sentir um peso que doença nenhuma justifica
Ter pensamentos tristes
Esperar que alguém chegue, trazendo luz e alegria
Por que alguém? Não se pode sair sozinho da letargia?
Talvez sim, mas a felicidade tornou-se fugidia... distante.
Luta insana, desigual, a exigir empenho, pouco descanso,
que a tristeza pega,ou lembranças(tristes lembranças).
Preencher o tempo numa Felicidade sem sonhos:
É este o desafio, coisa para gente grande:
Sem o olhar pra frente, um esforço que não tem tamanho...
Cecília
Friday, October 07, 2011
O sentido faz falta?
CONTARDO CALLIGARIS
--------------------------------------------------------------------------------
A gente procura um sentido para a vida somente quando o cotidiano perde sua graça e seu encanto
--------------------------------------------------------------------------------
É uma queixa frequente: o mundo e a vida fazem pouco sentido -muito menos sentido do que antigamente, completam os saudosistas. Nas famílias, às vezes, essa queixa produz uma espécie de pingue-pongue. Os pais acham que os filhos adolescentes vivem por inércia, sem rumo e projeto: "Eles não estão a fim de nada que preste, não têm uma causa, uma visão de futuro".
Os filhos, confrontados com essa preocupação dos pais, declaram que, se precisassem mesmo de um sentido para viver, certamente não é com os pais que eles o aprenderiam: "Mas qual sentido gostariam que eu escolhesse para minha vida, se a vida deles não tem nenhum?". Nesse diálogo, o sentido parece ser sempre o que falta na vida dos outros que criticamos.
Também existem indivíduos (adolescentes e adultos) que se queixam da falta de sentido em sua própria vida: "Viver para quê? Todo o mundo vai morrer de qualquer jeito; que sentido tem?".
Geralmente, ao procurar responder a essas constatações desconsoladas, amigos, parentes e terapeutas agem como os pais que mencionei antes: querem injetar uma causa, uma visão de futuro na vida de quem lhes parece ter perdido o rumo "necessário" para viver.
Agora, eu não estou convencido de que, para viver, seja necessário que a vida tenha um sentido. Quando alguém se queixa de que sua vida é sem sentido, não tento interessá-lo em grandes razões para viver. Prefiro perguntar (para ele e para mim mesmo) de onde surge tamanha necessidade de um sentido. É curioso que, para alguns, a existência precise de uma justificação, de uma razão, de uma causa, de uma visão de futuro.
Em regra, essa necessidade de justificar a vida se impõe quando a própria vida não se basta mais. Ou seja, é quando os gestos cotidianos perdem sua graça que surge a obrigação de fundamentar a vida por outra coisa do que ela mesma.
Nota clínica: a depressão não é o mal de quem teria perdido (ou nunca achado) uma grande razão para viver. Depressão é ter perdido (ou nunca encontrado) o encanto do cotidiano. Por consequência, tentar "curar" a depressão de um adolescente propondo-lhe militância política ou fé religiosa é nocivo: se a gente conseguir capturá-lo num grande projeto, esse mesmo projeto o afastará ainda mais da trivialidade do dia a dia, cujo encanto ele perdeu.
Resumindo, quando alguém se queixa de que a vida não tem sentido, o problema não é ajudá-lo a encontrar o tal sentido da vida, mas ajudá-lo a descobrir que a vida se justifica por si só, que ela pode ser seu próprio sentido.
A cultura moderna poderia ser dividida em dois grandes blocos (que não coincidem com as tradicionais divisões de esquerda vs. direita etc.): os que pensam que o sentido da vida não está na própria experiência de viver (mas na espera de um além, num projeto histórico etc.), e os que pensam que a experiência de viver, por mais transitória que seja, é todo o sentido do qual precisamos (nota: a psicanálise, inesperadamente, está nesse segundo grupo, por constatar que a gente sofre mais frequente e gravemente pelo excesso do que pela falta de um sentido).
Alguém dirá que, com o declínio das utopias políticas e algum avanço (talvez) do pensamento laico, o sentido da vida está em baixa. Em suma, eu estaria chutando um cachorro morto.
Não concordo: talvez a própria crise das utopias e de algumas religiões instituídas esteja reavivando uma espiritualidade que tenta sacralizar o mundo, prometendo, no mínimo, sentidos ocultos.
O esoterismo "new age" nos garante que a vida tem um sentido misterioso, que a gente nem precisa saber qual é. Melhor assim, não é? Acabo de ler um breve (e delicioso) ensaio do filósofo italiano Giorgio Agamben, "La Ragazza Indicibile" (a moça indizível, Electa, 2010). Agambem (retomando um ensaio de Jung e Kerényi, de 1941, sobre Koré, a moça sagrada -Perséfone na mitologia clássica) mostra que os mistérios de Eleusis (que são os grandes ascendentes do esoterismo ocidental) de fato não revelavam nenhum grande sentido escondido das coisas e da vida -a não ser talvez o sentido de uma risada diante do pouco sentido do mundo.
Ele conclui com a ideia de que podemos e talvez devamos "viver a vida como uma iniciação. Mas uma iniciação ao quê? Não a uma doutrina, mas à própria vida e à sua ausência de mistério".
--------------------------------------------------------------------------------
A gente procura um sentido para a vida somente quando o cotidiano perde sua graça e seu encanto
--------------------------------------------------------------------------------
É uma queixa frequente: o mundo e a vida fazem pouco sentido -muito menos sentido do que antigamente, completam os saudosistas. Nas famílias, às vezes, essa queixa produz uma espécie de pingue-pongue. Os pais acham que os filhos adolescentes vivem por inércia, sem rumo e projeto: "Eles não estão a fim de nada que preste, não têm uma causa, uma visão de futuro".
Os filhos, confrontados com essa preocupação dos pais, declaram que, se precisassem mesmo de um sentido para viver, certamente não é com os pais que eles o aprenderiam: "Mas qual sentido gostariam que eu escolhesse para minha vida, se a vida deles não tem nenhum?". Nesse diálogo, o sentido parece ser sempre o que falta na vida dos outros que criticamos.
Também existem indivíduos (adolescentes e adultos) que se queixam da falta de sentido em sua própria vida: "Viver para quê? Todo o mundo vai morrer de qualquer jeito; que sentido tem?".
Geralmente, ao procurar responder a essas constatações desconsoladas, amigos, parentes e terapeutas agem como os pais que mencionei antes: querem injetar uma causa, uma visão de futuro na vida de quem lhes parece ter perdido o rumo "necessário" para viver.
Agora, eu não estou convencido de que, para viver, seja necessário que a vida tenha um sentido. Quando alguém se queixa de que sua vida é sem sentido, não tento interessá-lo em grandes razões para viver. Prefiro perguntar (para ele e para mim mesmo) de onde surge tamanha necessidade de um sentido. É curioso que, para alguns, a existência precise de uma justificação, de uma razão, de uma causa, de uma visão de futuro.
Em regra, essa necessidade de justificar a vida se impõe quando a própria vida não se basta mais. Ou seja, é quando os gestos cotidianos perdem sua graça que surge a obrigação de fundamentar a vida por outra coisa do que ela mesma.
Nota clínica: a depressão não é o mal de quem teria perdido (ou nunca achado) uma grande razão para viver. Depressão é ter perdido (ou nunca encontrado) o encanto do cotidiano. Por consequência, tentar "curar" a depressão de um adolescente propondo-lhe militância política ou fé religiosa é nocivo: se a gente conseguir capturá-lo num grande projeto, esse mesmo projeto o afastará ainda mais da trivialidade do dia a dia, cujo encanto ele perdeu.
Resumindo, quando alguém se queixa de que a vida não tem sentido, o problema não é ajudá-lo a encontrar o tal sentido da vida, mas ajudá-lo a descobrir que a vida se justifica por si só, que ela pode ser seu próprio sentido.
A cultura moderna poderia ser dividida em dois grandes blocos (que não coincidem com as tradicionais divisões de esquerda vs. direita etc.): os que pensam que o sentido da vida não está na própria experiência de viver (mas na espera de um além, num projeto histórico etc.), e os que pensam que a experiência de viver, por mais transitória que seja, é todo o sentido do qual precisamos (nota: a psicanálise, inesperadamente, está nesse segundo grupo, por constatar que a gente sofre mais frequente e gravemente pelo excesso do que pela falta de um sentido).
Alguém dirá que, com o declínio das utopias políticas e algum avanço (talvez) do pensamento laico, o sentido da vida está em baixa. Em suma, eu estaria chutando um cachorro morto.
Não concordo: talvez a própria crise das utopias e de algumas religiões instituídas esteja reavivando uma espiritualidade que tenta sacralizar o mundo, prometendo, no mínimo, sentidos ocultos.
O esoterismo "new age" nos garante que a vida tem um sentido misterioso, que a gente nem precisa saber qual é. Melhor assim, não é? Acabo de ler um breve (e delicioso) ensaio do filósofo italiano Giorgio Agamben, "La Ragazza Indicibile" (a moça indizível, Electa, 2010). Agambem (retomando um ensaio de Jung e Kerényi, de 1941, sobre Koré, a moça sagrada -Perséfone na mitologia clássica) mostra que os mistérios de Eleusis (que são os grandes ascendentes do esoterismo ocidental) de fato não revelavam nenhum grande sentido escondido das coisas e da vida -a não ser talvez o sentido de uma risada diante do pouco sentido do mundo.
Ele conclui com a ideia de que podemos e talvez devamos "viver a vida como uma iniciação. Mas uma iniciação ao quê? Não a uma doutrina, mas à própria vida e à sua ausência de mistério".
Wednesday, October 05, 2011
Blue Valentine
Crítica: Namorados para Sempre
Fred Burle
Terminar um relacionamento não é fácil. Às vezes, começar também não. A verdade é que mantê-lo é que é o mais difícil. Ora com poesia ora sem poesia alguma, é com esta visão realista que o diretor Derek Ciafrance transpõe para a tela um dos amores mais comuns: aquele que é baseado na ocasião, quando nunca realmente existiu.
Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams) não vivem o melhor dos momentos no casamento, mas fazem de tudo para esconder isso da filha. Ele faz de tudo para melhor a situação, mas ela, por algum motivo, não parece mais disposta a trilhar aquele caminho.
Por mais que o personagem de Ryan Gosling seja extremamente bonzinho e simpático, fica claro que existem motivos reais para a frustração da mulher. É com uma montagem sutil e de difícil leitura – para o espectador acostumado a linearidades – que o filme explicará, bem aos poucos, indo e vindo através dos anos, porquê o casamento não deu certo.
O primeiro quarto do longa é dedicado a construir a mise-en-scène de crise, deixando fértil o terreno para o que se segue. “Como confiar nos seus sentimentos, quando eles desaparecem?”, pergunta a filha. “Acho que você só poderá descobrir, se tiver o sentimento”, responde a avó. Naquele diálogo aparentemente solto no meio do filme reside a chave para a sua total compreensão.
Salvo raros momentos românticos encantadores – vide Cindy dançando na rua ao som do banjo de Dean – é no clima depressivo que o filme se baseia. É num quarto de motel, de decoração futurista, capenga e azulada que o diretor encontra o cenário perfeito para desenvolver o seu blue valentine.
Ryan Gosling ficou fora do Oscar, infelizmente, mas a justiça se fez pela indicação de Michelle. Sua Cindy soa misteriosa, é menina, vadia, mãe, enfermeira, frígida e fogosa. Tudo ao mesmo tempo. Defeituosa e qualitativa, é afinal, absolutamente humana.
A fervura ou frieza do casal não é fruto do acaso. É influenciado por circunstâncias, pessoas e desejos oprimidos. O que se passa hoje é resultado do que foi construído desde o passado. O longa nos joga na cara que, por estas e por outras, não podemos julgar as atitudes de cada um (por mais estranhas que pareçam no momento), sem sabermos exatamente o quê as levou a cometê-las.
Filme de baixíssimo orçamento (apenas 1 milhão de dólares), “Blue Valentine” é mais um indie que mostra que a força de uma obra está no seu roteiro e na paixão com que seus envolvidos a realizam. Com depressão e realismo, mostra que a música que embala o amor pode ser a mesma que embala o ódio e a mágoa.
Fred Burle
Terminar um relacionamento não é fácil. Às vezes, começar também não. A verdade é que mantê-lo é que é o mais difícil. Ora com poesia ora sem poesia alguma, é com esta visão realista que o diretor Derek Ciafrance transpõe para a tela um dos amores mais comuns: aquele que é baseado na ocasião, quando nunca realmente existiu.
Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams) não vivem o melhor dos momentos no casamento, mas fazem de tudo para esconder isso da filha. Ele faz de tudo para melhor a situação, mas ela, por algum motivo, não parece mais disposta a trilhar aquele caminho.
Por mais que o personagem de Ryan Gosling seja extremamente bonzinho e simpático, fica claro que existem motivos reais para a frustração da mulher. É com uma montagem sutil e de difícil leitura – para o espectador acostumado a linearidades – que o filme explicará, bem aos poucos, indo e vindo através dos anos, porquê o casamento não deu certo.
O primeiro quarto do longa é dedicado a construir a mise-en-scène de crise, deixando fértil o terreno para o que se segue. “Como confiar nos seus sentimentos, quando eles desaparecem?”, pergunta a filha. “Acho que você só poderá descobrir, se tiver o sentimento”, responde a avó. Naquele diálogo aparentemente solto no meio do filme reside a chave para a sua total compreensão.
Salvo raros momentos românticos encantadores – vide Cindy dançando na rua ao som do banjo de Dean – é no clima depressivo que o filme se baseia. É num quarto de motel, de decoração futurista, capenga e azulada que o diretor encontra o cenário perfeito para desenvolver o seu blue valentine.
Ryan Gosling ficou fora do Oscar, infelizmente, mas a justiça se fez pela indicação de Michelle. Sua Cindy soa misteriosa, é menina, vadia, mãe, enfermeira, frígida e fogosa. Tudo ao mesmo tempo. Defeituosa e qualitativa, é afinal, absolutamente humana.
A fervura ou frieza do casal não é fruto do acaso. É influenciado por circunstâncias, pessoas e desejos oprimidos. O que se passa hoje é resultado do que foi construído desde o passado. O longa nos joga na cara que, por estas e por outras, não podemos julgar as atitudes de cada um (por mais estranhas que pareçam no momento), sem sabermos exatamente o quê as levou a cometê-las.
Filme de baixíssimo orçamento (apenas 1 milhão de dólares), “Blue Valentine” é mais um indie que mostra que a força de uma obra está no seu roteiro e na paixão com que seus envolvidos a realizam. Com depressão e realismo, mostra que a música que embala o amor pode ser a mesma que embala o ódio e a mágoa.
Blue Valentine
Um belo filme
" Anti-Romance" para incomodar quem ama
Direção delicada, roteiro cruelmente realista e performances inspiradas unem-se para “desmascarar” o mais tradicional dos vínculos afetivos em uma história sobre o amor e como ele se dilui.
Darlano Didimo
História de amor é o tema preferido do cinema mundial, dando origem a inúmeras produções recentes que, em sua maioria, optam por satisfazer o espectador com um final feliz. E quem não gostaria de viver um romance como os de Hollywood? Encontrar a pessoa certa, ser correspondido, iniciar o relacionamento e sustentá-lo até o fim da vida de ambos (ou pelo menos durante um período que torne a experiência inesquecível) é o sonho de nove em cada dez pessoas. “Namorados Para Sempre” também tem essa fatia fantasiosa, mas faz questão de fazê-la desmoronar com uma segunda linha de tempo que coloca a dura realidade da vida a dois em evidência.
Estreia de Derek Cianfrance nos cinemas, o filme exibe a vida de Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling), primeiramente um jovem casal que se conhece pelas artimanhas do destino. Ele é um ajudante de mudanças, enquanto ela estuda para cursar medicina. A paixão brota e os dois iniciam um bonito relacionamento, nem mesmo atrapalhado por um marcante descuido. Os anos passam e depois já os acompanhamos como marido e mulher. A chama do amor, porém, desapareceu e a separação do antes casal unido parece inevitável. O que teria acontecido nesse intervalo de tempo?
Cianfrance prefere não dá respostas. Cabe ao público, especialmente a quem já viveu esse tipo de experiência, preencher a lacuna e se identificar ou não com a história de vida de Cindy e Dean. Mas mesmo que ela não se encaixe no seu perfil, o diretor e roteirista (que nessa função reparte o trabalho com Cami Delavigne e Joey Curtis) faz ser doloroso acompanhar algo que se não tinha tudo para se tornar eterno, pelo menos jamais poderia ter um ponto final tão amargo. Desconstruindo a cultuada instituição casamento e indo contra a corrente do cinema norte-americano o qual representa, o cineasta nos presenteia com um filme que é uma mistura de sentimentos, mas que, acima de tudo, incomoda.
Incomoda por ser visceral, propositalmente destituído de idealizações e comprometido com a verdade que defende. A câmera sempre próxima ao rosto dos personagens revela o desgaste causado pela convivência diária, a dificuldade de criar uma filha e sustentar o lar ou de simplesmente concordarem sobre um assunto banal. Uma inexplicável competividade tomou o lugar do amor e ambos parecem mais felizes sozinhos. Nem mesmo o sexo os faz se entenderem. A passividade provoca o domínio do outro, como tem sido aparentemente com a quieta Cindy, enquanto a argumentação leva a confrontos físicos.
A imaturidade do rapaz continua. Se antes ela causava surpresas agradáveis ou apenas demonstrava a vontade dele de permanecer ao lado da garota, agora ela se tornou um empecilho para que continuem juntos. As bebedeiras revelam um Dean agressivo, sem tolerâncias, sem capacidade de encontrar um emprego. Cianfrance, enfim, o culpa pelo fim do casamento, justificando muito bem a opção ao construir personagens que sem mantém distante de vilões e mocinhos. Eles são complexos e dramáticos, vivem em casa simples e não têm luxos. Podem até ser bonitos, mas o charme ficou pra trás.
Ficou na época em que se conheceram. E o charme nessa linha de tempo do longa não está apenas no casal, mas também na direção de Derek Cianfrance. Delicado como poucos, ele sabe como desenvolver o nascimento de uma paixão, orquestrando cenas que, mesmo com um alto grau de naturalismo, exalam magia, utilizando-se com sabedoria da tocante trilha sonora de Grizzly Bear ou dispensando-a quando o som é feito pelos próprios protagonistas, como na sequência em que Cindy dança enquanto Dean toca ou, na melhor de todas elas, quando os dois escutam música na cama.
O resultado final de “Namorados Para Sempre”, no entanto, não seria o mesmo se não fosse Michelle Williams e Ryan Gosling. A química é visível entre os dois, assim como cessa quando necessário. O desempenho individual merece ainda mais destaque. Gosling surge autêntico e carismático, para depois interpretar um Dean trágico e irresponsável, que não mais leva rosas e sim a um motel de extremo mau gosto. Já Williams mostra porque é uma das melhores atrizes em atividade, justificando sua indicação ao Oscar por meio de uma personagem que encanta sem fazer esforço e que dá dó apenas de olharmos para o seu rosto expressivo.
Mesmo com a lembrança de Williams na temporada de premiações, o filme merecia mais reconhecimento. Mas nem todo mundo sabe lidar com a dor da realidade, com o fato de que o casamento pode não ser a etapa mais bonita de uma vida. Derek Cianfrance defende sua polêmica visão de mundo da forma mais doída possível, felizmente, revelando-se um cineasta que merece ser acompanhado de perto pelos cinéfilos.
P.S.: Não se deixe enganar pelo título brasileiro do filme. “Namorados Para Sempre” é o medíocre nome encontrado pela Paris Filmes para enganar o espectador que busca um romance comum. O título original, “Blue Valentine”, que significa algo como “namorado triste”, é bem mais apropriado.
____
Darlano Dídimo é crítico do CCR desde 2009. Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é adorador da arte cinematográfica desde a infância, mas só mais tarde veio a entender a grandiosidade que é o cinema.
" Anti-Romance" para incomodar quem ama
Direção delicada, roteiro cruelmente realista e performances inspiradas unem-se para “desmascarar” o mais tradicional dos vínculos afetivos em uma história sobre o amor e como ele se dilui.
Darlano Didimo
História de amor é o tema preferido do cinema mundial, dando origem a inúmeras produções recentes que, em sua maioria, optam por satisfazer o espectador com um final feliz. E quem não gostaria de viver um romance como os de Hollywood? Encontrar a pessoa certa, ser correspondido, iniciar o relacionamento e sustentá-lo até o fim da vida de ambos (ou pelo menos durante um período que torne a experiência inesquecível) é o sonho de nove em cada dez pessoas. “Namorados Para Sempre” também tem essa fatia fantasiosa, mas faz questão de fazê-la desmoronar com uma segunda linha de tempo que coloca a dura realidade da vida a dois em evidência.
Estreia de Derek Cianfrance nos cinemas, o filme exibe a vida de Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling), primeiramente um jovem casal que se conhece pelas artimanhas do destino. Ele é um ajudante de mudanças, enquanto ela estuda para cursar medicina. A paixão brota e os dois iniciam um bonito relacionamento, nem mesmo atrapalhado por um marcante descuido. Os anos passam e depois já os acompanhamos como marido e mulher. A chama do amor, porém, desapareceu e a separação do antes casal unido parece inevitável. O que teria acontecido nesse intervalo de tempo?
Cianfrance prefere não dá respostas. Cabe ao público, especialmente a quem já viveu esse tipo de experiência, preencher a lacuna e se identificar ou não com a história de vida de Cindy e Dean. Mas mesmo que ela não se encaixe no seu perfil, o diretor e roteirista (que nessa função reparte o trabalho com Cami Delavigne e Joey Curtis) faz ser doloroso acompanhar algo que se não tinha tudo para se tornar eterno, pelo menos jamais poderia ter um ponto final tão amargo. Desconstruindo a cultuada instituição casamento e indo contra a corrente do cinema norte-americano o qual representa, o cineasta nos presenteia com um filme que é uma mistura de sentimentos, mas que, acima de tudo, incomoda.
Incomoda por ser visceral, propositalmente destituído de idealizações e comprometido com a verdade que defende. A câmera sempre próxima ao rosto dos personagens revela o desgaste causado pela convivência diária, a dificuldade de criar uma filha e sustentar o lar ou de simplesmente concordarem sobre um assunto banal. Uma inexplicável competividade tomou o lugar do amor e ambos parecem mais felizes sozinhos. Nem mesmo o sexo os faz se entenderem. A passividade provoca o domínio do outro, como tem sido aparentemente com a quieta Cindy, enquanto a argumentação leva a confrontos físicos.
A imaturidade do rapaz continua. Se antes ela causava surpresas agradáveis ou apenas demonstrava a vontade dele de permanecer ao lado da garota, agora ela se tornou um empecilho para que continuem juntos. As bebedeiras revelam um Dean agressivo, sem tolerâncias, sem capacidade de encontrar um emprego. Cianfrance, enfim, o culpa pelo fim do casamento, justificando muito bem a opção ao construir personagens que sem mantém distante de vilões e mocinhos. Eles são complexos e dramáticos, vivem em casa simples e não têm luxos. Podem até ser bonitos, mas o charme ficou pra trás.
Ficou na época em que se conheceram. E o charme nessa linha de tempo do longa não está apenas no casal, mas também na direção de Derek Cianfrance. Delicado como poucos, ele sabe como desenvolver o nascimento de uma paixão, orquestrando cenas que, mesmo com um alto grau de naturalismo, exalam magia, utilizando-se com sabedoria da tocante trilha sonora de Grizzly Bear ou dispensando-a quando o som é feito pelos próprios protagonistas, como na sequência em que Cindy dança enquanto Dean toca ou, na melhor de todas elas, quando os dois escutam música na cama.
O resultado final de “Namorados Para Sempre”, no entanto, não seria o mesmo se não fosse Michelle Williams e Ryan Gosling. A química é visível entre os dois, assim como cessa quando necessário. O desempenho individual merece ainda mais destaque. Gosling surge autêntico e carismático, para depois interpretar um Dean trágico e irresponsável, que não mais leva rosas e sim a um motel de extremo mau gosto. Já Williams mostra porque é uma das melhores atrizes em atividade, justificando sua indicação ao Oscar por meio de uma personagem que encanta sem fazer esforço e que dá dó apenas de olharmos para o seu rosto expressivo.
Mesmo com a lembrança de Williams na temporada de premiações, o filme merecia mais reconhecimento. Mas nem todo mundo sabe lidar com a dor da realidade, com o fato de que o casamento pode não ser a etapa mais bonita de uma vida. Derek Cianfrance defende sua polêmica visão de mundo da forma mais doída possível, felizmente, revelando-se um cineasta que merece ser acompanhado de perto pelos cinéfilos.
P.S.: Não se deixe enganar pelo título brasileiro do filme. “Namorados Para Sempre” é o medíocre nome encontrado pela Paris Filmes para enganar o espectador que busca um romance comum. O título original, “Blue Valentine”, que significa algo como “namorado triste”, é bem mais apropriado.
____
Darlano Dídimo é crítico do CCR desde 2009. Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC), é adorador da arte cinematográfica desde a infância, mas só mais tarde veio a entender a grandiosidade que é o cinema.
Subscribe to:
Posts (Atom)